O Dono do Escorpião no Peito

1600 Words
Capítulo 2 Os Três que Ninguém Esperavam O refeitório da Sciences Po mais parecia uma passarela naquela hora do dia. Filhos de diplomatas, netos de banqueiros, herdeiros de empresas milionárias... todos tentando parecerem despretensiosos, enquanto desfilavam com seus sucos orgânicos, seus iogurtes importados e os olhares de superioridade. Mas, naquele dia, o que quebrou o padrão não foi um nome de família. Foi o silêncio. O silêncio que precedeu a entrada de três figuras que não pertenciam àquele palco. Dion Paixão Barny entrou primeiro. Frio. Postura ereta, olhar afiado como lâmina escondida na bainha. Parecia ver tudo, mas não se fixava em nada. Vestia o básico, mas, de alguma forma, fazia parecer uniforme de combate. Atrás dele, Noah Kouyaté. Corpo atlético, fone de ouvido pendurado no pescoço, sempre alerta. Era o tipo de cara que podia tanto sentar com um ministro quanto segurar a porta do ônibus. Voz grave, calma, com uma presença que abraçava. E fechando o trio, vinha Theo Marchand. Camisa aberta até o peito, colar de contas, cabelo bagunçado de propósito e um sorriso que gritava: “Você vai se arrepender de não me dar atenção.” — Reparem bem, moças! — Theo ergueu a voz, com os braços abertos. — O gélido, o sábio e o irresistível. O novo padrão de Paris chegou! Duas mesas femininas riram. Uma delas suspirou. Dion sequer desviou o olhar. — Theo... — murmurou Noah, com paciência. — Só almoça. Por favor. — O quê? Só tô avisando! Antes que alguma herdeira solte um uísque de vinte anos no meu colo quando eu passar... Eles pegaram as bandejas. Theo serviu batata frita e chocolate. Noah optou por arroz, peixe e salada. Dion pegou apenas uma sopa e uma garrafa d’água. — Sério mesmo que é isso que você vai comer? — Theo franziu o nariz, apontando para a sopa de Dion. — Tu tá em guerra, mano? Ou isso é parte do treinamento pra virar monge? Dion o ignorou. Theo olhou pra Noah. — Esse aí vai me ignorar até o fim da graduação, não é? — Não. — Dion respondeu sem erguer os olhos. — Só até você falar algo útil. Noah riu, baixo. Theo levantou as mãos. — Tá bom! A estátua fala. Anotem no diário. Eles se sentaram no canto esquerdo do salão, onde a luz do sol batia de lado. Dion escolheu a cadeira com visão para todas as saídas. Theo percebeu, mas não comentou. Só deu um tapa leve no ombro de Noah. — Esse cara é doido, velho. Mas é doido bom. As meninas olhavam. Algumas de forma descarada. Outras com curiosidade. Havia um certo ar de mistério que cercava aquele trio. E, no centro disso tudo, estava Dion. Frio. Distante. Magnético. Theo percebeu os olhares e sorriu. — Se tivesse uma moeda por cada par de coxas que cruzou por nossa causa, eu já tava comprando uma cobertura em Saint-Germain. — Você só quer uma desculpa pra usar “coxas” numa frase — respondeu Noah, sem tirar os olhos do prato. — E eu quero mesmo! — Theo rebateu, gargalhando. — Cês viram aquela loira da mesa dois? Me olhou como se eu fosse sobremesa. Dion terminou a sopa em silêncio. Levantou os olhos. — Você é sobremesa. Só que com laxante escondido dentro. Theo gargalhou tão alto que a mesa ao lado se virou. — Pronto. Ele fala e ainda manda bem! Irmão, você vai me fazer chorar. Me abraça! — Não encosta — respondeu Dion, seco. Noah riu mais uma vez. — Eu avisei. Theo se esticou na cadeira. — Tô dizendo, galera. Esse trio aqui vai virar lenda. Um é o ninja silencioso. O outro, o guardião zen. E eu... sou o caos com charme. — Você é o meme da semana, Theo — corrigiu Dion, levantando-se. — Meme que transa, bebê! Dion passou por ele com indiferença. Noah foi atrás, balançando a cabeça. Theo pegou uma batata frita com a boca e foi atrás deles, assobiando. E assim, entre olhares, risos abafados e frases afiadas, nascia ali o tipo de amizade que não se planeja. Se reconhece. Porque algumas alianças são feitas de afinidade. Outras... de sobrevivência. E aquela — era dos dois tipos. A tarde caiu com o mesmo peso com que começou. A aula terminou, mas o trio não saiu com pressa. Theo ainda catava um biscoito na mochila. Noah dava aquela última passada nas anotações. Dion apenas se levantou, ajeitando a mochila no ombro — os olhos frios, precisos, calculando as rotas de saída como se a universidade fosse um campo de emboscada. Ao sair do prédio principal, o vento cortou a pele. A brisa parisiense carregava o cheiro de outono e uma sensação de que algo sempre podia acontecer. E aconteceu. — Olha só... o menino Barny reapareceu! — gritou uma voz carregada de sarcasmo e sotaque misturado com provocação insolente. Diego estava encostado em um carro preto, chupando um pirulito vermelho, óculos escuros mesmo com o céu nublado, jaqueta de couro e cara de quem já causou confusão só por existir. Dion sorriu de canto. Quase imperceptível. — Diego... — disse, com a voz baixa. — Chegou cedo dessa vez. — Claro. Senti saudade de te ver encarando o mundo como se fosse uma bomba prestes a explodir. E esses aí? — apontou com o queixo para Theo e Noah. — Reforço novo? — Amigos — respondeu Dion, direto. — Noah. Theo. — Diego — disse Noah, estendendo a mão com educação. — Irmão do caos — disse Theo, dando um soquinho no ombro de Diego, que sorriu de volta, já aprovando o estilo. — Curti. E aí, Dion, tá afim de treinar ou vai ficar fazendo pose de samurai no pátio? —Claro que curtiu, parece ser seu filho. Só que me mais irritante. Dion deu de ombros, entrando no carro. — Sempre pronto. Diego riu. — Isso que eu queria ouvir. Subam aí, vamos pro centro. Os quatro entraram no carro. Dion foi no banco da frente. Theo e Noah atrás. O rádio tocava um hip-hop grave. Diego girava o volante com uma mão só. Depois de alguns minutos de silêncio, Diego olhou de canto para Dion. — Você tá inquieto, qual foi a merda? — Um babaca que achou que era dono da universidade. Me testou na primeira aula. — Ah, é? — Diego mordeu o pirulito. — Conta aí. — Ele não vai contar — disse Theo. — Deixa que eu conto. O nome do cara é Victor Ramel. Dois metros de músculo e nenhum neurônio. Chamou Dion de Paixãozinho e achou que ia sair bonito na foto. Resumo? — Derrubou cinco caras — completou Noah. — Sem levantar a voz. Sem suar. A gente nem viu a p***a do golpe. Só viu os corpos no chão. — É sério isso? — Diego virou o rosto, arregalando os olhos com um riso nervoso. — Ninguém viu nada? — Nada — disse Theo. — Nem movimento de braço. Nem chute. Só PÁ, chão. PÁ, chão. Juro por Deus. Até o ar ficou mais pesado. Diego gargalhou. — Aaaah, puxou o tio mesmo... — O tio original? — perguntou Theo, empolgado. — E como é que ele faz isso, hein? — Treina desde os doze — respondeu Diego, dando de ombros. — Put4 que pariu! — Theo gritou, rindo. — Mano... então o moleque sabe o que tá fazendo! Dion olhava pela janela. O centro da conversa era ele, mas parecia distante, desconectado. Como se aquele tipo de admiração não o alimentasse. O silêncio dele era mais alto que tudo. O carro parou diante de uma estrutura antiga de pedra e ferro, quase camuflada entre prédios empresariais. Discreta. Mas quem conhecia, sabia. Ali era território Escorpião. Mas para quem passava, era só uma academia de treino particular de algum grupo de amigos. Ao entrarem, uma corrente de ar quente e o cheiro de couro, suor e óleo de arma preencheu o ambiente. O som de sacos de pancada sendo socados ecoava ao fundo. — Olha quem chegou! — disse uma voz vinda da lateral. Marco. Camisa colada ao peito, luvas penduradas no ombro, barba bem aparada e um sorriso de quem já matou e salvou vidas na mesma hora. — E aí, moleque! — abraçou Dion como um irmão mais velho. — Tava demorando, hein, garoto — disse outra voz, mais firme, mais direta. Jairo. Postura de militar. Olhar de comando. Mas, ao abraçar Dion, o braço foi forte e cheio de afeto. Ali, Dion relaxou um pouco os ombros. — Trouxe reforço? — perguntou Marco, olhando os dois rapazes com curiosidade. — Trouxe — disse Dion. — Querem ver se aguentam o básico. Theo olhou ao redor com olhos brilhando. — Isso aqui é tipo um centro de treinamento ninja? Porque se for, eu nasci pra isso. — Você nasceu pra ser expulso, Theo — provocou Noah. Marco riu. — Vocês vão suar, garotos. Tirem essa roupa de playboy e vamos ver se o corpo é tão bom quanto a língua. Dion caminhou em direção ao vestiário. Tirou a mochila com calma. Trocou a camiseta. A cicatriz fina nas costas apareceu. E, no peito, a tatuagem de um grande escorpião preto. Theo percebeu, mas não comentou. Noah notou o símbolo gravado na parede: um escorpião preto com o r**o curvado. O mesmo símbolo que Dion carregava no peito. Dion calçou as luvas e entrou na arena de treino como quem entra em casa. E ali, pela primeira vez naquele dia... Ele respirou mais fundo. E os dois amigos... ficaram para ver.
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