Capítulo 4
Se torna homem não é fácil.
Enquanto Dion e Laura se abraçavam no centro do tatame, o resto do ambiente parecia congelado.
Marco assoviou alto, chamando os dois novatos para o meio da arena.
— Bora, heróis. Aquecimento acabou. Agora é treino real.
Theo engoliu em seco.
— Isso foi só aquecimento?
— Entra logo antes que eu mude de ideia — grunhiu Diego.
Noah já estava descalço, sério.
Theo hesitou, tirou o tênis e sussurrou para o amigo:
— Acho que a gente vai morrer.
— Ou renascer — respondeu Noah, encarando o tatame.
Enquanto os dois subiam, Laura desceu do ringue com Dion. Ela vestia o casaco preto por cima da blusa colada do uniforme. Dion ainda suava, mas os olhos... estavam em paz.
— Vamos sair daqui — ela disse. — Só nós dois.
Ele assentiu.
Sem palavras.
O carro seguiu por uma estrada ladeada por árvores queimadas de outono. A luz dourada atravessava os galhos e pintava o interior do veículo como se o mundo lá fora estivesse em suspensão.
Laura dirigia com uma mão, o rosto calmo. Dion olhava pela janela.
Chegaram a um lugar discreto, escondido entre construções antigas: um mirante de pedra com uma vista ampla da cidade ao entardecer.
Sentaram-se em um banco de madeira rústico, com duas xícaras de chocolate quente fumegando entre as mãos.
O silêncio reinou por alguns instantes. Até que Dion, ainda olhando a vista, soltou:
— Mãe...
— Hum?
— Eu não te julgo, mas... ainda não entendo.
Ela o olhou de lado, serena.
— Os três?
— É... por que não só um?
Laura respirou fundo. Depois respondeu com a verdade mais crua que havia dentro dela.
— Porque eles querem assim, filho. E... porque eu amo os três.
Não quero escolher.
Se eu perder qualquer um deles, vou sentir falta. Não só na cama, entende?
Na vida. No dia a dia.
Ela olhou para o horizonte.
— Eu não preciso do sexo deles, meu amor. O sexo é consequência.
Eu preciso da presença de cada um.
Cada um deles me traz uma parte de mim que, se faltar... dói.
Dion bebeu um gole, engolindo o calor e a reflexão.
— Entendi, mãe.
Mas às vezes eu acho que... eles te completam.
E eu...
Laura virou o corpo e pegou o rosto do filho entre as mãos.
— Não, amor. Nunca mais pense isso.
Olha pra mim.
Ele obedeceu.
— Cada um deles é um órgão do meu corpo.
Mas existem dois órgãos que são a vida do corpo: a mente e o coração.
Eu sou a mente.
E você, meu filho, é o meu coração.
— Mãe...
— Sem isso... eu morro.
Então, sim, eu posso ter dois rins, dois pulmões, e sobreviver mesmo que falte um.
Mas sem meu coração? Sem você?
Eu não existo.
Dion a abraçou com força. Forte como o treino.
Forte como o amor deles.
Silêncio.
Até Laura perguntar, de forma sutil:
— E seu coração, filho? Como tá?
Ele demorou para responder.
Mas respondeu.
— Eu sinto tanto...
Que às vezes acho que nunca vou amar alguém.
Porque ninguém vai me ver de verdade, mãe.
Ninguém vai entender como é aqui dentro.
É escuro, é tenso.
Eu não consigo relaxar.
Não consigo sorrir.
Sempre sento nos cantos.
Sempre observo.
Analiso.
Meço.
Laura sorriu triste.
— Alguém vai te ver, filho.
Só não vai ser como você espera.
O amor... não vem no formato ideal.
Ele vem onde você não consegue controlar.
Dion abaixou os olhos.
— E se eu nunca relaxar?
— Lembra do treino? — ela disse.
— Lembro.
— Então escuta: quando você sentir o cheiro...
Vai relaxar.
E quando isso acontecer, vai ser incrível.
Ela passou a mão em seu cabelo.
— Mas eu quero estar por perto, tá?
Pra continuar te protegendo.
Fechando todas as brechas.
Dion respirou fundo.
E pela primeira vez, parecia acreditar nisso.
— Pode deixar, mãe.
Ele sorriu de leve.
— Te amo.
Laura encostou a testa na dele.
— Também te amo, meu coração.
E ali, entre o pôr do sol, o cheiro de chocolate e a certeza do amor que cura,
eles ficaram em paz.
Laura e Dion voltaram ao centro de treinamento ao anoitecer. As luzes dos postes externos iluminavam suavemente a fachada de pedra. Lá dentro, o som dos sacos de pancada havia cessado. Só restava o eco do suor que a alma deixa quando é purificada na força.
— Queria te trazer aqui de novo, amor — disse Laura, enquanto caminhavam lado a lado. — Aqui foi onde você se descobriu.
Dion sorriu com um respeito silencioso.
Estavam sozinhos… até a porta interna se abrir.
Ricardo, Rafael e Vicente já os esperavam.
Dion os cumprimentou com um aceno leve.
Ricardo foi o primeiro a se aproximar, com um abraço discreto.
— Tá mais forte — comentou.
— É. Tô tentando — respondeu Dion.
Rafael deu um soquinho leve no ombro dele, sorrindo com sinceridade.
— Impressionante hoje, irmão. Tu é rápido. Preciso treinar contigo um dia desses.
Dion assentiu, contido, mas receptivo.
Vicente ficou por último. Caminhou até Dion com passos calmos. Olhar firme.
— Posso falar contigo um minuto? Só nós dois?
Dion hesitou um segundo, depois olhou pra mãe, que assentiu.
Foram até o corredor lateral. Vicente encostou na parede. Dion ficou de frente pra ele.
— Filho... — começou Vicente. — Eu sei que não sou seu pai de sangue. Mas não quero ser um pai de fachada. Quero ser real. Quero estar na sua vida de verdade. Até quando você não souber o que dizer.
Dion respirou fundo.
— Eu tô mudando, pai.
Algo aqui dentro tá diferente.
E eu não entendo.
— Como assim?
— Eu não quero ser assim. Tão fechado, tão na defensiva.
Eu queria sorrir mais, brincar, zoar como os outros.
Mas parece que tudo em volta de mim não permite.
Vicente colocou a mão no ombro dele.
Olhou com ternura, não como homem que impõe. Mas como homem que ouve.
— Vem cá, filho. — chamou, abrindo uma porta que dava para uma salinha de madeira, com um banco no canto.
Sentaram-se lado a lado.
Silêncio por alguns segundos.
Até Vicente perguntar, direto:
— Você é virgem?
Dion não desviou o olhar.
— Sou, pai.
— Se masturba?
— Não, pai.
— Não sente desejo?
— Até sinto. Mas... eu tenho um autocontrole estranho.
Não consigo ficar excitad0 e... bat3r um4.
Não chego nesse nível de desej0, entende?
Vicente assentiu com os olhos, com um sorriso de quem sabe.
— É isso, amor. É exatamente isso que tá faltando em você.
Seu pai era assim. Sabia?
Dion arregalou os olhos.
— Sério?
— Sério.
Seu pai passou vinte anos sozinho.
Vinte anos, filho...
E não se tocava.
Ele virou um robô.
Só voltou a ser homem quando conheceu sua mãe.
Dion engoliu seco.
— Mas o que ferrou com ele?
Vicente respirou fundo.
Fechou os olhos por um segundo.
— Quando você se entregar... e provar esse doce pela primeira vez...
Eu te conto.
Dion riu.
— Promete?
— Prometo.
— E se eu não souber o que fazer, pai?
Se não for bom pra mim... nem pra ela?
Vicente o olhou como homem olha homem.
Com verdade.
— Assim como dar um soco de verdade... você só sente a dor quando acerta.
Você vai ter que viver sua primeira vez pra descobrir.
E quando acontecer, não tenha vergonha.
Diz pra ela:
"É minha primeira vez. Não sei direito o que fazer."
— E se ela também não souber?
— Aí vocês descobrem juntos.
E vai ser incrível, filho.
Vicente passou a mão na nuca de Dion, puxando-o com carinho.
Dion se inclinou.
Abraço.
Forte. Sem pose.
— Te amo, pai.
Obrigado, viu?
Vicente sorriu, com os olhos cheios.
— Eu que te amo, filho.
E tô aqui. Sempre.
Do lado de fora, Laura os esperava em silêncio, com o coração cheio.
Sabia que tinha deixado Dion no colo certo.
E naquela noite...
Um novo homem começou a nascer.