05 É A ULTIMA VEZ

1540 Words
DIA SEGUINTE RICARDO NARRANDO Estou isolado… sem qualquer forma de falar com o meu comandante, nem com o tenente ou o sargento da minha equipe. Aqui dentro, cada minuto de silêncio pesa como uma sentença. Todos os dias, quando saio do morro, sigo para uma empresa de fachada. Ela existe de verdade... funciona, tem funcionários, rotina, papelada. Mas, por trás das paredes comuns, existe a nossa sala. É ali que montamos as operações, cruzamos informações e tomamos as decisões que podem derrubar impérios… ou nos enterrar com eles. Júlio é meu primeiro-tenente. É ele quem está à frente das invasões, seja com o BOPE ou com a Federal. Frio, direto e preciso. Quando a ordem é entrar, é ele quem puxa a linha de frente. Já Jeferson, meu sargento, comanda a inteligência. É ele quem mapeia cada movimento do Tigre no Rio... pontos de venda, rotas de distribuição, contatos, horários. Nada escapa aos olhos dele. E eu… estou aqui dentro, sozinho. Sem contato. Sem apoio. Confiando apenas no tempo e na minha capacidade de não errar. Porque, neste jogo, um único erro não custa a missão. Custa a vida. Rafaela me olha com curiosidade… investigativa. Consigo ver as perguntas se formando na mente dela, uma atrás da outra, mas nenhuma chega a sair. A vontade de saber é evidente. De perguntar. De entender. Talvez até de pedir. Tudo está ali, preso no silêncio que ela mantém com tanto cuidado. Mas o medo pesa mais. Medo de saber demais. Medo das consequências que sempre acompanham a verdade neste lugar. Porque aqui, informação não liberta. Condena. RICARDO— você pode perguntar? falo, sentindo a dor ainda me consumir por dentro. Eu preciso de medicamentos que realmente me curem. Rápido. RAFAELA— não tenho o que perguntar. _ela responde sem hesitar. Sorrio de leve. RICARDO— então eu pergunto. _ ela me encara com intensidade. Quase como se pedisse, em silêncio, que eu fizesse a pergunta certa. — Quando eu vou poder sair daqui? _ sei que não é isso que ela esperava ouvir. Mas é o que posso perguntar agora. O que devo perguntar. RAFAELA— em quinze dias você vai poder sair daqui. _ explica com calma. — Mas para se levantar, trabalhar e fazer qualquer outra coisa… no mínimo um mês. Talvez um mês e meio. _ Concordo com um leve movimento de cabeça. RICARDO— então você fez um bom trabalho. _ Ela sorri. E não é um sorriso profissional. É verdadeiro. Bonito. Sincero. RAFAELA— é a única coisa que sei fazer bem… e que posso fazer. _ Ela não diz mais nada. Permanece ali, em silêncio, e eu a observo com atenção. Uma mulher linda. Atraente. Inteligente. Presa a este lugar como se não houvesse saída possível. Mas por quê? Ela tem perguntas guardadas. Eu vejo isso no olhar. Mas eu também tenho as minhas. É amor? Dependência? Família em risco? Ou ela apenas se acostumou ao conforto e ao poder que essa vida oferece? Mil perguntas. Nenhuma resposta. Não agora. Não aqui. Observo Rafaela com atenção e não há interesse nela. Não desse tipo. O que vejo é outra coisa. Algo mais profundo. Mais pesado. Porque, como já percebi, por debaixo desse jaleco existem marcas. Dores que ninguém vê. Feridas que não aparecem em exames ou curativos. ou talvez apareçam. Isso está no olhar dela. Na forma como se move. Principalmente na forma como reage quando Tigre se aproxima. O corpo dela muda. A respiração prende. Os ombros ficam tensos, quase imperceptíveis para quem não observa com cuidado. Mas eu observo. Sempre observo. Não é medo simples. É algo mais antigo. Mais enraizado. Então por quê? Por que continuar vivendo assim? Por que aceitar esse tipo de prisão disfarçada de vida? Será que ninguém realmente consegue fugir de um homem como Tigre… ou será que o preço da fuga é alto demais para ser pago? RICARDO—Você tem família? _ pergunto. Ela me olha por um segundo a mais do que o necessário. RAFAELA—Não. _ A resposta sai simples. Direta. Mas é mentira. Consigo ver no jeito como os olhos dela desviam por um instante, quase imperceptível. RICARDO—Você é uma ótima médica…, mas uma péssima mentirosa. _ Ela volta a me encarar, agora com um leve brilho de alerta. RAFAELA—E você muito corajoso. _ O tom é baixo, firme. Eu sustento o olhar. Sei que ela desconfia de quem eu sou. Não completamente. Mas o suficiente para ter medo de perguntar. RICARDO—Me acha corajoso? _ Ela assente de leve. —Andar no meio de um tiroteio não me parece coisa de alguém corajoso. Está mais para alguém desprovido de inteligência. _ Vejo o canto da boca dela se mover. Um quase sorriso. Quase uma risada. E, por um segundo, o peso que ela carrega parece recuar. Rafaela é linda quando sorri. Linda de um jeito que esse lugar não merece. RAFAELA—Acho que sabemos muito um do outro… mesmo sem muitas palavras. _ Observo cada detalhe do rosto dela. Leio as pausas, as defesas, os silêncios. RICARDO—E será que isso vai ser um risco para nós? _ Ela pensa antes de responder. Consigo ver a resposta se formando, pesada demais para sair. Mas antes que qualquer palavra exista, a porta se abre e a enfermeira Jéssica entra no quarto, interrompendo o que talvez fosse a conversa mais perigosa que poderíamos ter. JÉSSICA—Tigre mandou você subir. _ Ela entra falando, mas o tom denuncia o medo que tenta esconder. RAFAELA—Tá certo. _ A resposta vem em duas palavras simples, mas o tempo que ela leva para dizê-las é longo demais. Como se cada segundo pesasse. Como se cada segundo fosse uma contagem regressiva. JÉSSICA—Eu vou ficar. Ele mandou. _ Agora a voz sai firme, quase automática. Rafaela apenas assente. RAFAELA—Não deixe passar o horário dos medicamentos. Se não, ele não vai aguentar a dor. _ Jéssica concorda, mas o olhar dela não está em mim. Está em Rafaela. E, naquele momento, a dor que preocupa nenhuma das duas é a minha. JÉSSICA—Vai ficar bem? _ pergunta, mais baixo. Mais humano. Rafaela sorri de lado. Um sorriso pequeno, sem alegria. Ainda assim, assente. RAFAELA—Sempre fico. _ Jéssica morde o canto da boca. Vejo os olhos dela brilharem mais do que deveriam. Um brilho que não tem nada a ver com emoção boa. Só com impotência. E então eu entendo. Já sei o que vai acontecer. E eu… não posso fazer nada. Rafaela sai do quarto... que nem chega a ser um quarto de verdade, e não olha para trás. Nem por um segundo. E, pela primeira vez desde que entrei nesse morro… eu vejo alguém que pode precisar de mim. RICARDO—Você está bem? _ pergunto a Jéssica, que me encara. JÉSSICA—Sim. _ responde rápido demais. Sustenta meu olhar, tentando ser firme, mas vejo o esforço que faz para conter o choro. RICARDO—Não parece. _ Ela força um sorriso pequeno, quebrado nas bordas. JÉSSICA—Você não mora aqui há muito tempo, né? _ pergunta, desviando o assunto. n**o com a cabeça. RICARDO—Cinco meses. _ Ela parece surpresa. Não esconde. JÉSSICA—Já é tempo o suficiente pra saber que aqui não é um lugar para muitas perguntas. _ Entendo o que ela quer dizer. Entendo o aviso escondido nas palavras. Então apenas concordo e me calo. Por enquanto. Minha mente volta para Rafaela. Para a minha equipe. Para a missão. Tudo se mistura, pesado, urgente. Eu preciso entrar no coração de tudo que envolve o Tigre. Não só observar de longe. Não só sobreviver aqui dentro. Preciso chegar ao centro. Ao núcleo do tráfico. Ao lado dele. Minha mente não para, mesmo com o corpo preso a essa maca, incapaz de reagir como deveria. Pensamentos se atropelam, estratégias se formam e se desfazem, sempre voltando ao mesmo ponto: missão, equipe, Rafaela… e o Tigre. Jéssica se aproxima em silêncio e injeta mais um medicamento no soro. Só então o turbilhão começa a desacelerar. Sinto o efeito quase imediato. O corpo fica mais pesado, a dor se dissolve em uma sonolência forte. Os músculos cedem, a consciência afrouxa. O sono vem com força… de forma inevitável. [...] Abro os olhos de imediato. Vozes invadem o quarto antes mesmo que a visão se ajuste. Passos apressados ecoam pelo corredor e, de repente, Jéssica atravessa a porta correndo, sem nem olhar para trás. Quando viro o rosto… meu peito aperta. Uma maca surge no vão da porta. Rafaela está sobre ela. Imóvel. Desacordada. O sangue nas sobe e pulsa forte. A respiração pesa. Ele fez de novo. Fez algo que eu nunca presenciei…, mas sempre soube que existia. Algo que deixa marcas onde ninguém vê e silencia quem tenta reagir. A porta se fecha, isolando o quarto outra vez. O silêncio volta pesado, sufocante. E ali, sem poder me mover, faço uma promessa silenciosa... fria, definitiva: é a última vez que ele toca nela assim. DEMOREI, MAS VOLTEI E AGORA AS ATUALIZAÇÕES VÃO SER DIÁRIAS APARTIR DE DOMINGO 15/02 COMENTEM E VOTEM MUITO AMORES. AMANHÃ SOLTO UMA PELO MENOS.
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