TIGRE NARRANDO
Desconfiança não nasce do nada. Ela cresce devagar, como infiltração em parede antiga. Quando você percebe, a estrutura já está comprometida. Eu sinto isso desde a invasão.
Não é raiva. Raiva é fácil. Raiva cega. Eu não fico cego. Eu observo. Eu espero. Eu deixo as pessoas se denunciarem sozinhas.
O morro voltou a funcionar rápido demais. Depois de uma invasão, o normal é o caos durar mais. Gente com medo, erro bobo, soldado olhando para trás antes de andar para a frente. Mas não. Hoje tudo anda alinhado demais. Silêncio demais. Organização demais.
Isso me incomoda. Estou sentado na sala de cima, de onde dá para ver metade da Maré. Daqui tudo parece pequeno. Controlável. Mas eu aprendi cedo que perigo não vem do que você vê de longe. Vem do que entra sem ser anunciado.
Como aquele ferido. Baleado. Sobreviveu. Isso já é um problema. Não é comum alguém sobreviver a um tiro daquele jeito aqui dentro. Não sem gritar. Não sem implorar. Não sem fazer barulho. O silêncio dele me chamou atenção antes mesmo de me chamarem.
Silêncio sempre chama atenção. Meu vulgo é Tigre, tenho trinta e três anos, sou moreno, tenho um metro e oitenta e nove de altura. Corpo coberto por tatuagens e não sou uma pessoa boa para lidar e nem pretendo ser.
Eu sou o chefe do Morro da Maré. Líder do Comando Vermelho e o maior narcotraficante do país. Não ganhei tudo o que tenho hoje por ser herdeiro, mas sim por eu ser como sou. Observador. Cauteloso. Meticuloso. c***l. Sanguinário. E não dou brecha para o azar.
Comecei o meu império no Complexo do Alemão. Depois fui expandindo ele até conseguir o CV. Quando eu consegui o que eu mais queria... aí eu queria mais. Comecei a tomar os morros do TCP e, quando consegui a Maré, fiz dela meu lar. Primeiro porque eu gosto. Depois porque a mulher que eu sempre quis estava aqui e ainda está. Agora como a minha fiel. Como a minha mulher e assim vai ser até a morte.
Rafaela, essa é a mulher que no primeiro olhar me prendeu e foi por ela que eu vim até a Maré. Vi a loira linda saindo da faculdade uma vez. Meus olhos se prenderam na beleza e no corpo dela e aí, todos os dias, no mesmo horário, eu sempre estava lá, observando, ganhando a visão de quem ela era, de onde ela morava. Eu já estava pronto para sequestrar ela... pensei que ela fosse paty. Mas quando tive a certeza de que ela era do Morro da Maré, eu sabia o que eu precisava fazer para ter ela e eu sabia que ia ter.
Rafaela é minha há cinco anos. Quando a vi, ela tinha vinte e dois. Quando dominei o morro, eu já fui de encontro com ela. A mina me rejeitou. Eu queria ser mais leve com ela, está ligado. Mas ela me negou. Ela já foi dizendo que não se envolve com bandido. Ela não sabia quem eu era, lógico. Mas quando ela me negou, eu disse: “Se tu não fica com bandido, agora tu é a mulher do chefe.” Desde aquele momento ela se tornou minha e não viveu e nem vive um amor lindo de filmes e cheio de amor.
Ela aprendeu que comigo as coisas são como eu quero e não foi da forma mais fácil e ainda não é. Rafaela ainda tenta me testar e quando ela faz isso, eu tenho que mostrar para ela quem manda. Como hoje. Ela me desafiou dentro do hospital e agora, quando eu disser que ela pode voltar para casa, ela vai lembrar quem manda e não vai gostar de eu ter que relembrar ela.
Escuto baterem na porta e eu mando entrar. Betinho, um dos homens, entra.
BETINHO — Doutora disse que ele segue estável. _ “Doutora.” Eu odeio quando chamam a Rafaela assim, como se ela fosse algo separado de mim.
TIGRE — Ele falou alguma coisa?
BETINHO — Pouca coisa. Está fraco ainda. _ Fraco demais para falar ou inteligente demais para calar? A diferença é pequena. O resultado, não.
Dispenso o homem com um gesto. Levanto. Caminho até a janela. Olho o morro funcionando sob meus pés. Tudo que acontece aqui passa por mim, mesmo quando não parece.
Sempre passa... Rafaela. O pensamento vem automático. Indesejado. Persistente.
Ela anda diferente desde a invasão. Não é algo que qualquer um perceberia. Mas eu não sou qualquer um. Ela fala menos. Observa mais. O corpo dela fica sempre entre o ferido e a porta. Não é só instinto médico. É postura. Proteção. Isso também me incomoda.
Eu não acredito em coincidência. Nunca acreditei. Quem acredita em coincidência morre cedo nesse jogo.
Com a minha mente dizendo que está na hora de agir de novo, eu me levanto da minha cadeira e sigo para fora da minha sala. Hora de ir ver o morador ferido.
[...]
Caminho pelo corredor do posto improvisado que eu fiz e vou até o quarto. Não faço muitas coisas no morro. Faço o que é bom para mim. O que vai me dar retorno financeiro e só.
Por isso fiz esse posto meia-boca, mas que tem tudo que Rafaela precisa para manter os meus homens vivos. Moradores que aqui querem ser atendidos usam o que tem e, se reclamar, já sabem as ideias. Abro a porta do quarto com força suficiente para avisar que cheguei. Rafaela está de pé, perto da maca. O homem atrás dela fica de olhos fechados.
RAFAELA — Ele precisa descansar. _ A frase vem rápida demais. Defensiva demais.
TIGRE — Quem é ele? _ Ela sustenta meu olhar.
RAFAELA — Um homem ferido. _ Resposta técnica. Fria. Mas incompleta.
TIGRE — Não parece. _ Ela sabe que não parece. Eu sei que ela sabe. O jogo acontece nesse espaço invisível entre o que é dito e o que fica preso na garganta.
Dou alguns passos até a maca. Observo o rosto dele. Mesmo machucado, não há desespero ali. Não há entrega. Há contenção. Isso me agrada e me irrita ao mesmo tempo.
TIGRE — Ele não implorou.
RAFAELA — Dor não faz todo mundo implorar.
TIGRE — Faz quase todo mundo. _ Aproximo meu rosto do dele. Não toco. Só invado o espaço. Quem é fraco reage. Quem é forte se controla. Ele não se mexe. Bom sinal. Ou péssimo. — Você confia nele? _ Rafaela não responde de imediato. Esse segundo de atraso me diz mais do que qualquer palavra.
RAFAELA — Eu confio no meu trabalho. _ Sempre profissional. Sempre distante. Sempre usando a medicina como escudo.
TIGRE — Trabalho não sangra por estranhos. _ Ela fecha a mandíbula. Não rebate. Aprendeu quando ficar quieta é mais seguro. E hoje ela já passou dos limites. Eu sorrio. Não de humor. De decisão. — Qual o nome dele? _ Ela me olha.
RAFAELA — Ele ainda não me disse o nome dele._ Eu a olho em dúvida. — Ele não consegue falar por muito tempo antes de apagar de novo. _ Ela fala firme. — Os medicamentos não são fortes o bastante para a dor, então ele está dopado por sedativos. _ Isso mostra o porquê ele não reagiu à minha proximidade.
TIGRE — Sabe que a sua vida é minha. _ Ela me olha. — E espero que não minta e nem esconda nada de mim. Porque se algo me acontecer, com tu vai acontecer três vezes pior. _ Me viro de costas e vou saindo de dentro do quarto, ainda sem ter a certeza se esse homem é um problema ou só mais um morador de azar e sorte ao mesmo tempo.
[...]
Mais tarde, sozinho, penso no padrão. Invasão. Ferido estranho. Sobrevivência improvável. Rafaela alterada. Peças demais para um quadro simples. Não pego ficha de todos os moradores, porque para mim é simples. Seu problema, eu sento o p*u e coloco para fora do morro. Ou vai direto para a vala.
Pegou o celular. Faço uma ligação curta.
LIGAÇÃO ON
TIGRE — Quero saber tudo sobre esse homem do hospital. _ Pausa. — Tudo. Antes que ele acorde de verdade. _ Falo com o meu contato e desligo.
LIGAÇÃO OFF
Desconfiança não grita. Ela observa. Junta dados. Espera o erro. E todo mundo erra. Se ele for um problema, ele vai errar e eu quero muito esse erro.
[...]
À noite, vou até a casa da amante. O ambiente é outro. Mais leve. Mais falso. Ela fala demais, ri demais, toca demais. Pessoas assim não escondem nada. Por isso são seguras.
Camila pergunta do dia. Eu respondo pouco. Não porque não confio nela, mas porque informação é poder, e poder demais na mão errada vira ameaça. Viro ela de quatro no sofá enquanto a minha cria dorme e fodo com ela por algumas horas, já que a fiel está presa no hospital.
AMORES ESSE LIVRO SERA LANÇADO DIA 15/02