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Mundo de Feras

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Blurb

Em um mundo dominado por lobisomens, nascer humano é quase uma sentença de morte.Isaac perdeu a mãe no mesmo dia em que nasceu e jamais chegou a conhecer o próprio pai. Criado em um orfanato, aprendeu desde cedo que, naquele mundo, humanos eram vistos como inferiores, indesejados e indignos de pertencer à sociedade dos lobisomens.Aos quinze anos, quando finalmente é adotado pela poderosa família Smith, Isaac acredita que sua vida está prestes a mudar. E ela realmente muda — mas não da maneira que esperava.O senhor e a senhora Smith pertencem à elite da cidade. Ricos, influentes e respeitados, eles parecem ter tudo o que alguém poderia desejar. Porém, por trás das portas de sua luxuosa mansão, Isaac descobre a verdadeira razão de sua adoção: ele não foi levado para casa como um filho, mas como um empregado pessoal.Enquanto Isaac luta diariamente para sobreviver àquela realidade, do outro lado da cidade está Caleb Salvatore, o filho mais velho do homem mais poderoso da região: o grande Alfa.Caleb sempre teve tudo. Riqueza, prestígio, poder e, acima de tudo, a certeza de que um dia encontraria sua alma gêmea. Quando descobre que seu destino está ligado a Alex Smith, ele acredita ter encontrado a peça que faltava em sua vida.Até que, durante um jantar entre as duas famílias, Caleb conhece Isaac.Um único olhar e tudo muda.Pela primeira vez, Caleb sente uma ligação que não deveria existir. Uma conexão diferente daquela que possui com sua suposta alma gêmea. Quanto mais tenta ignorá-la, mais forte ela se torna.Agora, Caleb terá que escolher entre obedecer à tradição de seu povo e aceitar o destino que lhe foi imposto... ou desafiar uma ligação de almas que, até então, ninguém jamais ousou questionar.E Isaac, que passou a vida inteira acreditando que jamais seria escolhido por ninguém, está prestes a descobrir que talvez o destino tenha planos muito maiores para ele.Mas, em um mundo onde humanos não deveriam ocupar lugar algum, apaixonar-se pode ser o maior pecado de todos.

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Capítulo 01: Isaac e Caleb
Mais um dia se inicia. O clima hoje está agradavelmente bom — considerando que, nos últimos dias, foi apenas chuva na cidade —, o sol finalmente resolveu dar as caras e despontar no céu. Em seu pequeno e abafado quarto — que, na verdade, era o porão —, Isaac despertou com o som de seu antigo alarme, posicionado em uma mesinha de madeira ao lado da cama. Ele resmungou, lamentando ter que levantar tão cedo em um domingo. Mas não fez corpo mole; não poderia se dar ao luxo. Não sendo quem era. Isaac esticou o braço e desligou o alarme. Em seguida, sentou-se na cama e suspirou. Ainda era muito cedo, mas o sol já brilhava do lado de fora, fazendo alguns raios solares entrarem pelo vidro da pequena janela. — É hoje! — sussurrou. Ele levantou-se e foi para o minúsculo banheiro de seu "quarto". Diante do espelho rachado sobre a pia, Isaac analisou o próprio reflexo e notou o quanto sua aparência estava acabada. Suas poucas horas de sono estavam resultando em olheiras escuras e visíveis abaixo dos olhos, fazendo-o parecer um zumbi em estágio inicial de transformação. Com a torneira aberta, a água fria descia pelo cano da pia. Isaac encheu as palmas das mãos com água e jogou-a no rosto, em uma tentativa de eliminar o sono que ainda sentia. Ele saiu do banheiro e trocou o pijama por uma roupa casual, nada chique ou chamativo. Afinal, ele não tinha roupas assim. Antes de sair, olhou para sua pelúcia de coala, jogada entre as cobertas sobre a cama, e deu um pequeno sorriso, fazendo um carinho sutil no pelo macio do brinquedo. — O dia de hoje vai ser puxado, Robert. Vamos ter visita em casa, e eu vou estar sobrecarregado com os preparativos, mas espero que dê tudo certo. A pelúcia era sua fiel companheira. Ainda que tivesse certa idade, o pequeno coala estava em perfeito estado devido ao imenso cuidado que Isaac tinha com ele. Robert era o objeto mais valioso que possuía. Após dar um beijo no coala, Isaac subiu as escadas do porão, que davam acesso ao restante da casa. A família ainda estava dormindo; eles não tinham o costume de levantar cedo nos fins de semana. Apenas os empregados e ele estavam de pé. — Bom dia, Marta! — cumprimentou educadamente ao chegar à cozinha. A senhora de meia-idade, com cabelos grisalhos e olhar acolhedor, desviou os olhos do papel que tinha nas mãos e sorriu de maneira amigável para Isaac. — Bom dia, meu passarinho. Dormiu bem? — Na medida do possível. Ele se sentou à mesa e serviu-se de uma caneca generosa de café com leite. Também cortou uma fatia de bolo e colocou-a em um prato. — Você trabalha demais, menino. Tem que descansar. — A voz de Marta exibia um tom visível de preocupação. Para ela, Isaac era como se fosse um filho. — Descansar, Marta? — falou com a boca cheia de bolo. — A minha família me trata como a Cinderela e a Rapunzel da Barbie. Eu não tenho o direito de descansar. — Eles são muito injustos com você, Isaac. Você é só um menino, e eles te tratam como um escravo. — Não fique brava, Marta. Eu não sou filho biológico deles. Tenho que pagar por eles me darem casa e comida. — Pagar sendo um escravo? Você devia era fugir daqui. — Fugir para onde, Marta? — Deu uma risada fraca. — Eu não tenho para onde ir, esqueceu? Sou órfão. — Eu poderia te adotar. — Tenha certeza de que eu iria adorar ter você como mãe. — Terminou de comer o bolo e deu o último gole no café. — Eu vou ao banheiro escovar os dentes e logo volto para começar a te ajudar, ok? Marta levantou a cabeça, então ele se levantou e foi novamente para o porão. — A família Smith não sabe a preciosidade que é esse menino — murmurou para si mesma, soltando um suspiro logo em seguida. 『••✎••』 Na mansão da família Salvatore, o dia começava mais agitado do que na casa dos Smith. Não eram nem oito da manhã, e uma discussão acalorada acontecia no andar de cima. Os gritos furiosos de Peter — Alfa Supremo da alcateia e líder da cidade — ecoavam como trovões por cada cômodo da casa. Em seu escritório, seu filho primogênito, o herdeiro de sua poderosa linhagem, retrucava com coragem e impaciência a cada palavra do pai, deixando Peter ainda mais furioso. — Eu já falei ao senhor que não tem nada demais — falou pela milésima vez. A verdade era que estava cansado daquela discussão. — Nada demais? Você dormiu com o Alex Smith, tirou a virgindade do garoto e tem a coragem de me dizer que não tem nada demais? — explodiu em fúria. — Qual é o problema, pai? O Alex é a minha alma gêmea, minha outra metade. Vamos nos casar. — Ele realmente não via problema naquilo. — Vocês vão se casar, mas ainda não são casados. A tradição, filho... Ela... — f**a-se a tradição! Nós estamos no século XXI, pelo amor de Deus! — Não importa em qual século estamos. As tradições têm que ser cumpridas. O que você e esse garoto fizeram foi muito grave. Caleb sorriu. Uma risada seca, sem um pingo de humor. — Vai nos punir por cedermos à nossa paixão? — Sim. É o meu dever como Alfa desta cidade. Hoje à noite, quando formos à casa da família Smith, vou ter uma conversa muito séria com o pai desse garoto. Caleb suspirou. Não queria mais prolongar aquela discussão, que não levaria a lugar algum. — Faça o que o senhor quiser, pai. Só me deixe em paz pelas próximas horas. Ele deu as costas e saiu, batendo a porta do escritório com força. — SE VOCÊ QUEBRAR ESSA PORTA DE NOVO, VAI COMPRAR OUTRA E COLOCAR NO LUGAR! Digamos que Caleb não tivesse um bom histórico com as portas da casa. O grito de Peter não o abalou. Caleb desceu as escadas e encontrou a mãe e os irmãos na sala. — A senhora pode pedir para o seu marido se acalmar um pouco? Se continuar assim, ele vai ter um infarto. — Referiu-se à mãe, com uma voz irônica, como se não se importasse com a situação. — Quem é o culpado de ele estar tão nervoso assim? — perguntou retoricamente, encarando o filho com uma expressão séria. — Não sei. A senhora quer que eu diga que sou eu? — Por favor, Caleb, enxergue o seu erro! Por que você tem que ser tão parecido com o seu pai? — Talvez seja castigo por algum erro do passado que a senhora cometeu. Sei lá... tipo um namorado de uma amiga que a senhora roubou no ensino médio. — Deu risada. — Me respeita, menino. — Deu alguns tapas nele. — Aí, mãe. Isso dói. — Passou a mão no braço que a mãe havia batido. — Deixa de ser mentiroso, Caleb. Esses tapas não fizeram nem cócegas. — Suspirou. — Eu vou ver o Peter antes que ele tenha um surto de raiva e destrua o escritório. Melissa subiu as escadas. O salto preto e elegante, em contato com a madeira dos degraus, fazia um barulho que Caleb odiava. Ele fez uma expressão de agonia enquanto Melissa se distanciava. Depois, sentou-se no imenso sofá, onde os dois irmãos estavam em total silêncio. — O papai é muito exagerado. — Pegou o celular do bolso da calça. — Onde já se viu fazer esse show todo por causa de uma transa? Cloe revirou os olhos e deu um soco fraco no ombro do irmão. — Aí! Já não basta a mamãe me bater, e agora você também? — Você é um babaca, Caleb. Como pode falar assim da sua alma gêmea? O que aconteceu entre vocês não foi "apenas uma transa". — E o que você sabe sobre esse assunto, Cloe? Você tem quinze anos, é uma criança ainda. — Posso ser mais nova, mas tenho mais maturidade do que você, que tem vinte e cinco. Caleb fez uma expressão extremamente engraçada. Cloe manteve-se séria e segurou com força a vontade de rir. Ela estava dando uma bronca no irmão; tinha que ser firme. — Você ouviu isso, Caio? — Olhou para o outro irmão. — Essa pirralha acha que tem mais maturidade do que eu. — Qualquer um tem mais maturidade do que você, Caleb. — Falou sério, com a expressão fechada, concentrado demais na tela do computador. — Todos vocês estão contra mim nesta casa. Mas quer saber? Eu não ligo. Em breve vou me casar e vou embora daqui. — Levantou-se do sofá. — Coitado do Alex quando isso acontecer — falou Cloe, com um sorriso de provocação. Caleb deu o dedo do meio para ela, que retribuiu mostrando a língua. Caio revirou os olhos diante da infantilidade dos irmãos e voltou a se concentrar nos relatórios da empresa que lia no computador. Caleb saiu de casa. O dia estava apenas começando, e ele tinha algumas coisas para fazer com os amigos. Com o passar das horas, as coisas na casa da família Smith foram ficando agitadas. Todos os empregados estavam de prontidão para preparar a casa e a comida para o jantar daquela noite. Isaac parecia um polvo com vários tentáculos, pois fazia várias coisas ao mesmo tempo. Ele ajudava na cozinha, limpava o chão, ia ao mercado comprar os ingredientes que faltavam... Era um faz-tudo multitarefas. Para piorar tudo, Angela Smith — a matriarca da família — fiscalizava tudo com mãos de ferro e olhos de águia, para garantir que tudo estivesse perfeito. A presença dela era sufocante e deixava todos os empregados sob pressão. Ela era exigente demais, mandona demais, ignorante demais... Isaac era quem mais sofria com ela. Recebia gritos por cometer erros bobos que qualquer pessoa normal cometeria, mas que, para ela, eram um total absurdo. A cozinha da casa, durante todo o dia, assemelhava-se a um campo de guerra, onde Angela era a general implacável que não deixava ninguém respirar tranquilamente por mais de cinco segundos. — Oi, Robert. Eu não via a hora de terminar lá em cima e voltar para cá. Você não imagina o inferno que a senhora Angela está fazendo. Ele tirou as roupas e deixou-as jogadas no chão. Estava tão cansado que tudo o que seu corpo pedia era um bom banho e uma cama. Nem jantar ele queria. — O jantar de hoje vai ser bem importante, Robert. O Alex vai ficar noivo. — Falou com animação, mas logo seu sorriso morreu. — Pena que eu não vou poder ver. A senhora Angela me proibiu de pôr os pés para fora deste porão esta noite. Ela não quer que nada dê errado. A pelúcia não respondia de volta, mas, mesmo assim, Isaac gostava de "conversar" com ela. Ele era muito sozinho. Não tinha amigos nem proximidade com os "irmãos". As únicas pessoas de carne e osso com quem conversava eram as empregadas da casa. Fora isso, o único que o "ouvia" era Robert. Isaac não perdeu mais tempo e foi para o banheiro. Estava sem roupa havia alguns minutos, e o frio começou a atingi-lo. Ele abriu o chuveiro e entrou debaixo da água quente. Ele era tão grato por aquilo. Pode parecer algo simples e bobo, mas, para quem passou anos de sua vida tomando banho frio no orfanato, aquele chuveiro era um luxo. Sentindo cada parte do corpo relaxar, Isaac começou a cantar uma música pop de uma cantora cujo nome ele não sabia, mas de quem sua "irmã" era fã e cujas músicas ela escutava todos os dias. No começo, ele começou baixinho, mas foi aumentando a entonação. A voz não era das melhores. Ele admitia que cantava supermal, mas gostava e, por isso, sempre que podia, soltava o gogó. Isaac estava tão empolgado que acabou excedendo o tempo do banho e só se deu conta quando a água parou de cair. Ele se enrolou na toalha e, logo em seguida, vestiu um pijama quente e confortável. Em seguida, deitou-se na cama e abraçou seu coala. — Espero não sentir fome, Robert. Se não, vou ter que ir lá em cima comer, e a senhora Angela não vai gostar. Ele suspirou, cobriu-se com a coberta e abraçou Robert com mais força. Fechou os olhos e tentou dormir, sem se importar com a luz acesa — ele tinha medo do escuro.

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