Casa da vovó

2963 Words
Eu adorava ficar com meus avós, eu me sentia realmente amada por eles. Eles davam certa importância para mim e Jony, que nossos pais não davam. -Vovó!- ao descer do carro, a primeira pessoa que vi foi ela. Corri para seus braços, sentia-me protegida. Ao abraçá-la senti um impulso em minhas costas, era Jony. -Meus queridos! – Vovó falava enquanto nos abraçava e alisava nosso cabelo. – Quanta saudade! – ela riu. -Como você está? – a olhei ainda agarrada em seu ombro. – Parece que andou fazendo outros círculos cheirosos. – senti o cheiro de lavanda no ar, sabia que era mais uma daquelas ervas que vovó queimava para dar um bom cheiro a casa. -Estou ótima com a vinda de vocês. – ela nos olhou – Entrem, o avô de vocês está La dentro. No escritório, como vocês sabem. – Vovô adorava papéis e livros. Dentro da casa, ele fez um pequeno lugar para chamar de seu escritório, e parecia um, porém com varias estantes contendo livros. E não tinha o ambiente sério da maioria dos escritórios. Corremos para dentro da casa, enquanto vovó falava com nossos pais. Bati na porta e escutei um "entre" rouco e baixo. -Atrapalhamos? – abri uma brecha da porta e pus apenas minha cabeça dentro da sala, percebi ele olhar por cima dos seus óculos e sorri. Jony colocou a cabeça logo abaixo da minha e sorriu. -Claro que não! Entrem! – entramos e fomos correndo para abraçar ele. –Como eu estava com saudade de vocês. -Você está bem vovô? – perguntei o olhando. -Muito bem minha querida! E você? Como está indo ? Colégio, família, essas coisas. – Vovô ainda abraçava Jony, mas me olhava preocupado. -Vovô, a Isa tem um namorado. – antes de responder ao nosso querido velho, Jony tomou a voz nos fazendo rir. -O que? Não tenho não. - sorri e baguncei seu cabelo. -Tem sim, e o nome dele é Erik. – Jony não gostava de ser desmentido. – Ele é o meu coordenador do colégio e instrutor dela. –Vovô levou os olhos até mim. -Precisamos conversar mocinha. Jony, porque não vai ver no que sua avó precisa sim? – Jony deu um sorriso e ao se virar e me olhar, vi seu sorriso cínico no canto do rosto. Éramos muito próximos, mas ele adorava me meter em algumas confusões as vezes. Quando ele saiu, percebi vovô me olhando. - Ah não! Não vai me dizer que você acreditou nele. -Ele é criança. Criança não mente. -Ah, por favor! Crianças de 4 anos não mentem, o Jony já tem 8 anos. Sabe mentir perfeitamente, nós dois sabemos que ele tem problema. -Não estou dizendo que acreditei nele, apenas disse que ele era uma criança e crianças não mentem... – eu não o deixei terminar de falar e o interrompi. -Logo, se dá a entender que você acreditou nele. -Não, você me fez acreditar. Você está me explicando, está tentando se explicar. Se não tivesse um ponto de verdade nessa história , você não estaria nem aí. Como geralmente você faz. – ele havia me pego, normalmente quando eu não tinha culpa, não me explicava. Simplesmente deixavam eles falar. -Okay! – sentei na cadeira a sua frente e pus meus braços sobre a sua mesa. –Pode ser que tenha algo acontecendo, mas não é nada demais. Eu gosto dele, ele é como um amigo. -Mas você sabe que ele é funcionário da escola, praticamente seu professor e você não pode se relacionar com ele. Não sabe? – a voz dele estava calma, ele nem me olhava. Estava olhando para alguns papeis que estavam em sua mesa. -Não necessariamente. – ele sorriu – Eu não tenho nada com ele. -E tem certeza que não quer? – ele levantou as sobrancelhas e ficou no aguardo da minha resposta. -Isabelle, venha comer alguma coisa. – me senti totalmente salva pela voz da vovó que ecoou do outro lado da porta. Me virei e a vi entrar. – Venha querida, vocês terão tempo para conversar. – senti a mão dela no meu ombro e sorri. -Sim , agora mesmo. – Vovô também se levantou e cochichou ao meu ouvido "salva pela sua avó". Soltamos um leve sorriso, daqueles que apenas um lado da boca se mexe e saímos. No lado de fora da casa, perto do celeiro, todos estavam em volta a uma mesa de madeira , comendo alguma coisa que a vovó já havia preparado. De longe, percebi a mamãe brincando com o Jony na mesa. Chegamos. -Isa, sente-se aqui. – mamãe se afastou e deixou um pequeno espaço no banco enorme de madeira. Sorri e sentei. Eu já sabia o que vinha pela frente, torta de maçã. Era uma das especialidades dela. Geralmente, nos reuníamos em feriados ou aniversario de algum de nós. Não era nenhuma coisa, nem outra. Havia algo bem estranho naquela visita, mas eu não queria bancar uma de detetive e descobrir o que havia de errado. Eu só queria respirar e saber que os problemas haviam ficado na outra cidade. A tarde foi incrivelmente legal. Coisa que não acontecia em meses. A noite chegara mais rápido, ou eu não tinha percebido o tempo passar rápido demais. Jony e eu, ficávamos no mesmo quarto. A casa era grande, mas não havia tantos quartos neles e a vovó fazia questão de dormimos juntos. Um beliche tomava conta da parede perto da janela, uma escrivaninha no lado direito, um guarda-roupa que fechava toda a parede, alguns acessórios meus e do Jony e a porta para o banheiro. O quarto era realmente incrível. Todos seus moveis eram feitos á madeira. -Isa, você vai primeiro ou eu vou? – O Jony estava com uma toalha nas costas, tínhamos que estar pronto as oito e meia, para o jantar. Antes de falar alguma coisa, ouvi meu celular tocar, o que era estranho, geralmente não havia área. -Não, pode ir. Vou atender aqui. – peguei meu celular e o vi entrar dentro do banheiro. – Alô? -Para onde você foi depois da excursão? Tentamos te procurar para conversamos, mas você sumiu. -Ah, olá Ray. – falei desanimada, eu não estava querendo uma confusão com ela, não mesmo. -E onde você está que seu celular não pega? Estou tentando falar com você a horas. -Estou na fazenda da vovó. – respondi indo em direção da janela. A noite estava muito bonita, a lua estava crescente e brilhante. Estrelas tomavam conta de todo o céu , as arvores balançavam sem parar de um lado para o outro. Abri um pouco a janela e senti a brisa tocar em meu rosto. -O que aconteceu? Porque você esta ai? Não é feriado, é aniversario de alguém? – Ray, assim como os outros, sabiam por quais motivos eu iria para a fazenda, quando não era tempo de férias. -Não aconteceu nada. Pelo menos eu acho que não. Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Minha mãe não para de cochichar com a vovó desde que chegamos. – olhei profundamente para apenas um lugar e tive a impressão de ter visto um vulto preto. Fechei a janela rapidamente. -Com quem você voltou hoje? Hum, espera, deixa eu adivinhar. – Ray estava sendo irônica – Ah, já sei, com uma das suas novas amiguinhas. -Ray, não. Por favor não. Não começa com sua ironia irritante a uma hora dessas. – a escutei sorri do outro lado da linha. – Eu voltei com o Erik. – sua voz calou. -Com o Erik? – a voz dela havia mudado de ironia para um interesse. – Erik, o nosso instrutor? O louro? -Você sabe quem é Erik, para de fazer perguntas idiotas. – sentei em um pequeno puff que havia em frente a televisão. – Ele me trouxe até em casa, como ele faz quando preciso. -Mas, tecnicamente você não precisava. Poderia ter voltado comigo. -Voltar com você e te escutar reclamando porque eu falei com a Sofia e a Alice hoje? Não, obrigado. Estava dispensando. -Tudo bem, eu não vou me preocupar com isso. Liguei para saber se você estava bem. Estávamos preocupados. -Estávamos? – ela estava falando de mais alguém. -È, logo depois da excursão, saímos para dar um passeio no shopping com alguns amigos do colégio. A Debs e o Lucas ficaram preocupados, pensando que você tinha ficado com raiva de todos nós. -E fiquei!- percebi que meu irmão havia saído do banho. – Agora eu tenho que ir, preciso me arrumar para o jantar. Amanhã eu mando noticias. -Tudo bem, bom fim de semana. -E avisa a Debs e ao Lucas , que estou bem. Beijo. – desliguei o celular e percebi o Jony com a toalha envolvendo sua cintura, com os braços cruzados e me olhando. – O que foi? -Era o Erik não era? – revirei os olhos. -Primeiro, não era ele. Segundo, você para com essa história de que eu tenho alguma coisa com o Erik, e terceiro para de se intrometer na minha vida. Não pense que a vovó e o vovô irão te salvar todo o fim de semana.- baguncei seu cabelo e o empurrei para fora do meu caminho. –E quando eu sair do banho, não quero encontrar você aqui dentro. –o fuzilei com os olhos e bati a porta. A água quente do chuveiro tomou conta de todo meu corpo em menos de segundos, me fazendo sentir protegida por alguns instantes. Eu costumava pensar enquanto tomava banho, mas naquele momento, eu só queria esquecer de tudo. Após o logo banho, me vesti e desci. Todos já estavam na cozinha, preparando a mesa. Ajudei o Jony a colocar os pratos e logo depois nos sentamos. -Então, já sabem pra onde irão nessas férias? – Vovô começou com um assunto, o qual eu realmente achei estranho. -Estamos analisando. O Jony quer ir para um lugar frio, a Luiza para um lugar quente. E bem, a Isa não quer ir conosco. – a fala dele parecia tão doce, que pessoas de fora, poderiam jurar que ele era um ótimo cara. Senti os olhares se voltarem para mim. -E você Bele? Porque não quer ir com sua família? – vovó era a única que me chamava daquela maneira. -Eu apenas queria passar minhas férias aqui. Num lugar mais calmo , onde sei que vou me sentir bem. E onde há pessoas a qual eu gosto, e que gostam de mim. -Ei, eu gosto de você. – Jony pareceu não entender do que eu tinha falado. – E se for assim, também quero ficar na fazenda com a vovó. – eu adorava quando ele se colocava ao meu lado, sem mesmo saber qual era meu plano sobre aquilo. Porém, eu não queria atrapalhar as férias dele. -Não Jony. – o olhei .- Você precisa ir, são suas férias lembra? -Mas sem você não tem graça. – ele olhou para o prato de comida, cruzou os braços e fez bico. Como ele podia ser uma pessoa tão fofa e pestinha ao mesmo tempo? -Jony, você terá diversão com o papai. – a voz dele ecoou pela mesa para tentar desfazer a cara do garoto. -Eu tenho certeza que a Isa vai repensar sobre a proposta e vai acabar indo conosco querido. – eu percebi minha mãe olhar para a vovó, e só então percebi o que estávamos fazendo ali. -Quem sabe! – eu dei um sorriso de lado, irônico o suficiente para encerrar aquele assunto. Terminamos o jantar e ao invés de subir para o quarto, fui para o escritório do vovó. Eu adorava ficar entre os livros. -Você está tentando se esconder? – percebi a voz calma e forte do homem ao meu lado e logo pulei para trás. -Porque você tem a mania de chegar dando sustos? -Desculpe se te assustei. – dessa vez ele não chegou perto, apenas virou e fez a mesma coisa que eu. Passava os dedos sob os livros. -Como conseguiu entrar? Porque você está me seguindo? E porque você também está atrás das meninas do colégio? -Quantas perguntas , pequena sacerdotisa. -Pequena o que? – pela primeira vez, meu medo havia sumido ao vê-lo sorrir. -Então você não é um sequestrador ou e********r de meninas? – o vi sorri novamente. -Não faço m*l a ninguém. Principalmente, á uma garota. – o vi andar, porém , para o lado oposto ao meu. -Então precisa rever sues conceitos sobre conversar com elas. Você não parece um cara muito amigável. – acompanhava seus passos com o olhar. – E essas suas roupas, não são nada receptíveis. -Em breve você irá entender o porque usarmos ela. -Usarmos? – dessa vez eu que me aproximei. – Então quer dizer que existe outras pessoas iguais a você? -Em breve você ira saber. – bufei . -Se eu vou saber das coisas em breve, porque você não aprece em breve? Talvez assim parasse de me assustar e parar de me gerar perguntas. – percebi que seu olhar se encontrou com o meu e mais uma vez me senti hipnotizada. -Estou aqui para te defender, apenas isso. – eu não consegui falar muita coisa, estava muito concentrada em seu olhar. -Defender de que? – senti sua mão tocar meu rosto e percebi que não tinha medo daquele toque. Porém tudo sumiu quando ouvi alguém abrindo a porta e me chamando. -Bele querida, onde você está? – Vovó vagava pelos primeiros corredores, até me encontrar no ultimo, numa posição a qual eu não tinha mudado. – O que você está olhando? – escutei a voz dela bem atrás de mim. -hã? Oi vovó. – me virei e vi sua expressão preocupada. – Não estou olhando nada , estava apenas pensando em algumas coisas. – voltei a me sentir normal e tomei meu posto de sarcasmo. – Como por exemplo, porque estamos aqui? Não é feriado, não é aniversário de ninguém. -Eu sei aonde você quer chegar com essa história. E acredite, eu não sabia até sua mãe me ligar ontem. -Eu sabia que tinha dedo dela nessa história. – caminhei em direção contraria e senti minha avó seguindo meus passos. – Ela quer que você me convença a ir na viagem não é? -Isabelle, você sabe que ela quer apenas ver todos felizes. – parei e sorri ironicamente. – Porque você não dá uma chance para essa viagem? Você sabe o quanto Jony precisa de você. E ele quer ir, mas se você não for, com certeza ele não vai querer ir. – olhei desconcertada para os lados, eu tinha que fazer aquilo pelo meu irmão. – Pense um pouco sobre isso. Eu sei o quanto você gostaria de ficar aqui, respirando o ar fresco, ver as estrelas e tudo mais. Então dê um prazo, quinze dias de viagem e o resto do tempo você passa aqui. – senti a mão de vovó no meu cabelo e logo depois me arrastou até seu peito, me abraçando. –Pense nisso pequena sacerdotisa. – congelei, eu tinha escutado aquele nome mais cedo e havia me lembrado que vovó sempre me chamara por aquele nome, geralmente quando eu tinha grandes problemas e sabia como resolvê-los. Resolvi não falar nada e apenas fui acalentada pelo seu abraço. – Promete que vai pensar? -Sim, prometo. Pelo Jony. – sai dali e subi direto para o quarto. Jony estava de joelhos na cama, olhando pela janela. –O que você está fazendo ai? – ele seguiu com as duas mãos na janela, olhando para o lado de fora. -Eu tenho quase certeza eu vi algo e movendo ali, segundo atrás. – cheguei junto dele e tentei olhar para o mesmo lugar que ele havia falado há poucos segundos. – Ali, junto da segunda árvore. – observei profundamente e parecia que minha vista estava nítida em meio toda a escuridão. Percebi os olhos verdes e o reconheci. -Vamos Jony, vamos dormir. Não foi nada. – segurei no ombro do garoto e tentei tirá-lo da janela. – Eu tenho que conversar com você sobre algo importante. -Eu já sei o que você vai falar. – ele sentou na cama, se virando para mim. – Você não vai para a viagem, mas quer que eu vá. Porque você quer me ver feliz. -Hum, mais ou menos isso. – sentei ao lado dele e fiquei olhando seu perfil. Me perdi olhando seus olhos esverdeados. – Eu quero que você vá, quero que você aproveite o máximo suas férias. -Mas só que sem você ou algum dos meus amigos, não tem graça. – ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro. – Nas ultimas férias você viu que a mamãe e o papai não nos deram atenção, aquela casa de praia foi terrível, não tinha ninguém que eu gostasse por perto. E se não fosse você, para me levar para explorar lugares, eu não sei o que iria fazer. – seus olhos estavam brilhando, as lágrimas poderiam ser derramadas a qualquer momento. -Ei, ei, calma. – o segurei e o trouxe para junto de mim. – Eu vou com você. Era isso que eu queria te dizer. Pra onde você decidir ir, eu vou. Mas dessa vez vamos escolher um lugar bem agitado para termos onde ir. -Não se sinta obrigada a fazer isso. Não quero estragar suas férias. – o garoto não me olhava. -Ei, eu sou sua irmã. Sempre com você lembra? Não sou obrigada a nada e você sabe que , quando não quero. Não faço. – ele me olhou e sorriu. Nos abraçamos. – Segundo a lei do universo, irmãos em famílias normais, não se odeiam? – nos olhamos e rimos. -Não somos uma família normal. – ele me abraçou novamente. -È, não somos. – sorri mexendo no cabelo dele.
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