09 Ruby

1683 Words
Eu já estava acostumada a acordar todos os dias cedo, tinha que manter a rotina e dar conta de tudo. Dormir poucas horas por noite e cochilar escondido de vez em quando. Naquela amanhã acordei mais cedo do que todo mundo, não era cedo, mas sim muito cedo mesmo. O Elayja não estava mais ali, e eu sequer o vi saindo. Não pude agradecer, mas no final das contas… eu não queria, senão teria feito isso ontem a noite. Passei um tempo olhando para o teto sem ter muito o que fazer, e depois levantei para preparar o café. Quando as outras garotas acordaram eu já tinha arrumado boa parte das coisas e estava tomando café pela segunda vez, e não eram nem 7 da manhã ainda. Enquanto tomávamos café eu encarava algum ponto aleatório da cozinha, estava evitando qualquer contato visual com elas. Por outro lado, a Tânia não parava de me olhar. — Está tudo bem, Ruby? Quero dizer… depois de ontem? — O tom de voz dela realmente parecia preocupado, acho que todas aquelas meninas estavam curiosas para saber como eu reagi ao meu primeiro programa, o que não aconteceu absolutamente nada e nenhuma sabe. — Está, tudo nos conformes. — Respondi e voltei a ficar em silêncio. — Entendi. — Ela entreolhou para alguma das outras. Ficamos em silêncio por uns instantes, eu ainda sentia que ela tinha uma pulga atrás da orelha, queria questionar algo diretamente mas não sabia como perguntar. Mais tarde me arrumei para a escola e saí para esperar o ônibus. Naquela manhã eu não encontrei a Ruth, ela ainda não havia acordado, talvez eu a encontrasse só mais tarde quando voltasse da escola. Subi no ônibus, sentei ao lado da Línea e depois de alguns quilômetros Abby subiu também. Eu estava ansiosa para ir para a escola, não porque lá tivesse algo verdadeiramente interessante mas porque eu precisava ver o Dean. Por mais que eu estivesse explodindo de raiva, eu precisava vê-lo. Línea parecia notar meu desespero, eu não conseguia disfarçar. Ela me via olhando para os lados de vez em quando a procura dele, esperando que ele estivesse descendo aquela calçada que ele costumava descer todo santo dia sem falta para a escola desde que o pedi para fazer. A Línea também estava tentando distrair a Abby, na verdade, estava conversando normalmente e isso ocasionava em Abby não desconfiar do meu esmorecimento. Deu a hora de entrar na escola, e a gente caminhando por aquela rua vimos todos os amigos do Dean entrando na escola. Menos ele. A preocupação começou a me corroer por dentro, mas ainda não tinha motivos para se preocupar demais. Entramos na sala normalmente, e mais uma vez não estava lá, não chegou mais cedo como as vezes costumava chegar. — Killer. — O chamei tentando aliviar a tristeza nas expressões mas não dava, eu continuava com cara de cachorro que caiu da mudança. Os outros saíram andando e ficamos só nós dois para trás, parados na porta. — Late. — Ele respondeu sorrindo com brincadeira não percebendo que eu estava falando sério, tinha que ser homem. — O que houve com a sua bochecha? Ele se referia ao meu hematoma, resultado do soco que o Jason me deu. — Você tem alguma notícia do Dean? — Ignorei sua pergunta e questionei baixo para o restante não escutar. — Não. — Me olhou desconfiado. — Aconteceu alguma coisa? — Eles também não sabem? — Ignorei novamente gesticulando a cabeça na direção daqueles outros projetos de rebeldia e xerox m*l feita do Dean. — Vou perguntar, eu aviso você. Eu assenti e saímos caminhando até nossas carteiras. Killer deixou a mochila no lugar dele e sentou lá no fundão junto com os outros amigos dele. — Vocês sabem alguma coisa do Dean? Ele não responde as minhas mensagens. — Killer comenta como quem não quer nada. — Vi ele saindo ontem com o Jason e não o vi mais. Nem sinal. O que era de tão importante? — Marck levanta uma sobrancelha. — Nada que te interesse, intrometido. — Killer me olhou e balançou a cabeça negativamente me fazendo comprimir os lábios. Línea e eu nos entreolhamos, ela ergueu as sobrancelhas e tentou sorrir acolhedora. Agora sim eu estava começando a me preocupar de verdade, Dean foi embora para casa sozinho ontem a noite de moto. Mil e uma possibilidades começaram a surgir em minha mente, coisas que eu não gostaria nem de imaginar. Eu já devia estar procurando o rumo para a minha vida, mas eu ainda estava aqui, preocupada com um i****a que deve estar me odiando com todo o ódio que guarda dentro de si. Aquela aula parecia não querer acabar nunca, e aí veio a segunda, depois a terceira, o recreio… eu só conseguia pensar em pular aquele muro e ir logo atrás dele. Mais uma vez, quarta aula e finalmente a última. Não sobraram fios de cabelo na cabeça, boa parte deles devem estar no chão agora. Chamaram a Abby para ir fazer uma prova na biblioteca, e eu estava lá sozinha com a Línea, literalmente. — Está acontecendo alguma coisa, Ruby? — A Línea questionou enquanto o restante da turma estava escorada na porta esperando o sinal bater, ainda faltava longos minutos, o professor tinha dois tempos seguidos e abriu mão de um por não ter mais o que explicar. — Você está estranha. Respirei fundo sem saber por onde começar, há tantas coisas que precisam ser ditas para eu ter chegado até aqui. — A história é longa. — Não tem problema. — Ela assegurou ainda me encarando. Então eu contei, sobre minha mãe me expulsar de casa, sobre eu ter sido obrigada a viver naquela boate da Ruth para sobreviver, sobre o bullying que eu sofri na antiga escola por ser “garota de programa” e tive que mudar para a escola a atual, contei também sobre o Dean descobrir e sobre a Ruth querer me leiloar como se eu fosse uma mercadoria. — Por favor, não conta para ninguém. — Pedi suplicante. — Eu não vivo assim porque quero, vivo por necessidade. — Tudo bem. Está tudo bem. — Ela assentiu ainda horrorizada. — A Abby sabe? — Não. Não conta para ela também. — Pode deixar. O Dean não sabe da história inteira, sabe? — Não, não tive oportunidade de contar com detalhes. Ele estava alterado demais, nem me deixou falar. — Respirei fundo tentando jogar a dor para fora pela respiração. — Ele vai entender, eu sei que vai. — Não vai, ele é cabeça dura. Mas está tudo bem, tenho coisas mais importantes para me preocupar. — Você é tão forte, eu já estaria enlouquecendo. — Ela sorriu fraco. — As vezes acho que já enlouqueci. — Murmurei. — Se a Abby estranhar por eu não voltar para casa com vocês, diz que eu tinha alguma coisa para resolver, por favor. — Para onde vai? Por que não vai embora com a gente? — Vou procurar o Dean. — Comprimi os lábios. — Ele é cabeça dura, mente fraca e não posso simplesmente ignorar o sumiço dele. — Se você for procurar ele, ele vai dizer as coisas mais desagradáveis que você já ouviu antes, tem consciência disso, não tem? — Levantou uma sobrancelha. — Tenho, mas também tenho pena da mãe dele. Ela precisa de apoio. — Entendi. — Sorrimos sem ânimo. Abby chegou depois de uns minutos, no relógio faltava cinco minutos para acabar e todos já estavam quase atravessando a porta. Meu estômago estava embrulhando e eu não conseguiria parar de tremer a perna. Quando o sinal tocou todos caminharam correndo, eu saí realmente correndo subindo aquela calçada que subimos da última vez. Correr é tudo que tenho feito nos últimos tempos, fugindo de tudo, estou sempre fugindo. Me pergunto quando que isso iria mudar, e quando que eu iria parar em um lugar e ficaria realmente sossegada. — Dean! Raquel! — Gritava enquanto batia na porta, praticamente a esmurrando, não conseguia controlar. — Ruby!? — Raquel abriu a porta pálida me olhando com os mesmos olhos que a olho. — O Dean está aqui? — Questionei metendo a cara na porta e olhando em volta buscando por algum sinal dele. — Eu também queria saber onde ele está, não o vejo desde antes de ontem quando você esteve aqui. O que está acontecendo? — Para onde ele pode ter ido, você tem alguma noção de para onde ele pode ter ido? — Questionei praticamente em um grito, nós estávamos conversando aos gritos. Raquel parecia tão desesperada quanto eu. — Eu não sei, eu estava mais tranquila porque imaginei que ele estivesse com você. Mas o que houve, Ruby? — Brigamos, foi isso. — Balancei a cabeça tentando me sentir menos culpada por falar do problema como se fosse muito mais pequeno do que realmente era. — Eu não faço a menor ideia dos lugares que ele frequenta, não sei mais sobre a vida dele e nem com quem ele anda. Eu não sei onde ele pode estar. Virei de costas encarando aquelas ruas e pensando “se eu fosse o Dean, para onde eu iria?”. Eu tinha a noção de onde ele poderia estar, mas não sabia como chegar até lá. — Onde fica a comunidade? — Virei novamente para a Raquel. — Comunidade… favela? — Assenti. Raquel saiu para fora, chegou na ponta da calçada e gesticulou para as ruas que eu precisaria entrar, os bairros que eu iria passar e as coisas que eu precisava tomar cuidado e tomar consciência de certas coisas. — Eu vou buscar ele, Raquel. Não se preocupe, eu não volto aqui sem ele. — Afirmei com convicção e ela me olhou surpresa. — Ele não vai estar lá, Ruby. Meu filho não andaria nesse lugar. — Seu filho não é mais criança, você não o conhece mais. — Obriguei um sorriso sem dentes, me aproximei e lhe dei um beijo na testa. — Tome um calmante, ele vai aparecer daqui a pouco. Irei trazê-lo.
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