01 Ruby

3127 Words
Fazendo um resumo sobre a minha vida até o momento de agora. O azar da minha vida foi minha mãe ter se apaixonado por um homem, que a machuca e a humilha. E que consequentemente, fazia o mesmo comigo. Ele se chama Alberto. Um dia ele me jogou no chão em frente à casa da minha mãe e me mandou embora, me expulsou da minha própria casa. Rafaela, a minha mãe, chorava na porta de casa me olhando com súplica, mas seus pedidos a Alberto para não fazer isso eram inúteis. Alberto era usuário de drogas, não trabalhava e pegava todo o dinheiro dela, e sabe o que é engraçado? A casa na qual ele me expulsou, também era dela. Minha mãe jamais contrariava ele, e deixou que ele me expulsasse de casa. E então, para onde eu fui? Para onde ninguém podia me expulsar, e para onde não havia um dono, a rua. Passei vários dias comendo comida vencida que os mercados jogavam fora, e então um dia decidi ir atrás de um emprego, mas seria surpreendente que ninguém quis me contratar por ser jovem demais, sem experiência e ainda uma moradora de rua suja? Não, não era nada surpreendente. Eu tinha que aceitar, a partir do momento em que me botaram para fora de casa, eu me tornei uma moradora de rua. Bati de porta em porta atrás de um emprego, foi quando eu bati na porta da Ruth sem saber o que era aquele estabelecimento de verdade. Ela me achou linda, e me deu um teto, um lar, um prato de comida e me acolheu. Apesar daquela casa ser uma casa de prostituição, a Ruth nunca me obrigou a me prostituir, eu era apenas a garçonete. Eu me apresentava junto com as outras, mas não me prostituía. E por que ela me deu essa colher de chá? Porque eu ainda era menor de idade, eu temia que isso mudasse quando completasse meus 18 anos. Estudei em uma escola particular, eu sonhava em ter bons estudos e um dia fazer uma faculdade. Uma escola particular seria a melhor opção, a melhor opção se aqueles riquinhos mimados não tivessem feito da minha vida um inferno. O bullying é algo que é capaz de destruir até os sonhos de alguém. Mudei para uma escola pública em outra cidade, perto da periferia. Porque talvez lá as pessoas fossem mais humildes, e mesmo que não soubessem sobre a minha vida, não me julgariam tanto quanto aqueles mimados de escola particular. E deu certo, me dei bem lá. Também conheci o Dean. Dean era um garoto que me transmitia uma sensação de segurança, não porque ele tivesse essa energia protetora, mas porque eu sentia que ele não faria nada de r**m comigo. Era uma questão de sintonia, ele não precisava fazer nada ou provar nada, eu apenas sentia. Era Dean. Eu o escolhi, independente de qualquer coisa. O problema era a minha vida, as faltas que haviam nela. Tinha consciência de que tudo poderia desmoronar a qualquer momento, isso queria dizer que eu não estava me iludindo com o contrário. Estávamos namorando, e eu queria passar mais tempo com ele. Mas não podia, eu tinha que encaixar o meu trabalho, a escola e ele na minha vida. Era r**m, ele sempre ficava de fora, mas em uma noite eu quis desafiar a Ruth e faltei o trabalho para ficar na casa do Dean depois da escola, eu estudava a tarde e passei a noite na casa dele. Ele sequer sabia sobre a minha vida dupla, e o pior, eu já havia feito 18 anos faziam algumas semanas. No outro dia eu não era obrigada a voltar para a minha rotina, a enfrentar a Ruth depois da escola. Dean e eu descemos a rua e já estávamos em frente à escola, era estranho para mim. Estava acostumada a pegar um ou dois ônibus para o colégio e hoje eu estava indo para a escola acompanhada dele. Dormir longe de casa foi bom, me senti distante, longe de tudo, me senti em segurança como uma garota normal depois de tanto tempo. Andar por aquele corredor foi mais leve, chegar junto com Dean fez com que atraíssemos olhares, porém senti que eram positivos. Eu estava vestindo outra camisa do Dean, minha saia jeans e por não ter pegado o ônibus ontem para ir para casa era óbvio que Línea e Abby nos olhariam com curiosidade. Eram as minhas amigas que fiz naquela escola. Entrei na sala junto com elas, e o Dean foi para a quadra. Sentei no meu lugar como todos os outros dias, Lina e Abby sentaram ao meu lado ainda me olhando com curiosidade. Elas queriam saber o que tinha acontecido, era óbvio. — É… — Abby coçou a nuca tentando melhorar o clima pesado que estava. — Acho que tenho uma ideia de quem é essa garota que o Killer está tão apaixonado e não assume. — Comentou aleatoriamente do nada. Killer também era meu amigo, não nos dávamos muito bem e vivíamos brigando, mas éramos amigos. Ele também era muito amigo do Dean. — Você dormiu na casa do Dean? — Línea questionou nos surpreendendo por ser tão direta assim, eu quis até mesmo rir. Ela passou por cima da Abby e fez a pergunta que queria. — É, ele é legal. — Sorri sem mostrar os dentes, encarei a janela vendo o céu escuro e ameaçando chover. — Ah. — A Línea ofegou em resposta sem perguntar mais nada. Durante a aula, Dean dormiu o tempo inteiro. Acordava algumas vezes porque alguém acertava uma bola de papel nele sem querer, depois deitava a cabeça de novo e dormia. Quando já faltava 5 minutos para as aulas do dia acabar, guardamos as coisas e ficamos esperando o sinal tocar como todos os dias. A gente sempre ficava esperando enquanto conversava com o professor, era legal. Olho para trás vendo Dean conversar com os amigos lá no fundão, conversava com Mack, despojado na cadeira com as pernas esticadas e relaxadas. Desvio o olhar novamente para o seu rosto e ele me olha com um sorriso, ergue as sobrancelhas me fazendo sorrir no automático. O sinal tocou e deixamos o colégio para trás. Eu fui, querendo muito ficar. Espero Dean no portão e quando o encontro, o puxo para mim lhe dando um abraço apertado sentindo seu corpo junto ao meu novamente só que dessa vez com carinho. — Dorme na minha casa hoje de novo. — Ele pediu com a cabeça abaixada para conseguir me olhar por causa da diferença de altura. Balancei a cabeça negativamente. A Ruth iria me matar, e apesar disso, eu teria que voltar uma hora ou outra. — Eu não posso. — Forcei um sorriso por mais que eu estivesse triste. — Tudo bem. — Ele comprimiu os lábios balançando a cabeça, me deu um beijo na testa e nos lábios. — Nos vemos amanhã? — Nos vemos amanhã. — Sorri calorosa e me obriguei a andar na direção oposta na qual ele iria. Depois de alguns passos olho para trás e o vejo parado ainda me olhando ir, se eu pudesse, agora eu voltaria correndo e ficaria. Mas se fizesse isso agora, não seria bem com pais zangados que eu teria que lidar. Peguei o ônibus e voltei o caminho inteiro encarando a janela com a cabeça apoiada no ombro de Línea. Bom… uma hora o momento bom precisaria acabar, e já estava quase na hora. Em pouco tempo eu já estava na boate. — Aí está você, sua v***a. — Os saltos de Ruth bateram no mármore até mim e ela acertou um tapa em meu rosto fazendo com que minha cabeça virasse para o lado. — Desculpa… eu… — Tentei formular alguma frase mais não saía e ela nem sequer deixava eu falar. — Vá se arrumar, se vista o mais linda possível. Daqui a pouco quero você aqui dando um show que só você sabe fazer. — Ruth estava tão zangada que gritava comigo com o indicador apontando para o corredor, enquanto ela encarava o chão se contendo e evitando me olhar nos olhos. — Sim, senhora. — Abaixei a cabeça e caminhei para o quarto. As garotas não diziam nada, se arrumavam e me encaravam com um sorriso de deboche. Cochichando algumas coisas que eu não conseguia ouvir, e eu apenas ignorei. Não é como se eu tivesse muita opção. Naquela passarela como todos os dias eu emergi da escuridão, uma visão deslumbrante. O vestido vermelho, como um rubi polido, envolvia meu corpo esbelto, realçando cada curva. O decote profundo em V destacava meus s***s delicados, enquanto o tecido sedoso brilhava sob a luz e minhas costas e as laterais da minha cintura ficavam nuas. Meus olhos, como dois lagos noturnos, brilhavam com um toque de mistério. Os lábios, pintados de vermelho, sorriam sensualmente. Meu cabelo, um cascat de seda n***a, caía em ondas suaves sobre meus ombros. Os saltos altos de plataforma, prata brilhante, elevavam minha figura me deixando mais mulher do que eu era na verdade, conferindo em mim uma aura de poder. As joias, discretas mas elegantes, complementavam minha beleza. O colar de pérolas, como uma teia de luz, envolvia meu pescoço. Me movi com graça, cada passo uma promessa de sedução. A roupa parecia fazer parte do meu corpo, como se tivesse sido criada para realçar minha essência. Cada detalhe, cada dobra, cada linha, era perfeição. Ali eu era a personificação da sensualidade e eu tinha que acreditar nisso, uma deusa da noite, pronta para conquistar o mundo. Pela primeira vez eu senti como se estivesse desfilando como uma modelo de verdade, e não como uma stripper mirim. Mas eu ainda era uma stripper mirim. — Atenção, rapazes. — Ruth começou a falar em um microfone quando parei no final da passarela para voltar para o vestiário novamente e isso me obrigou a ficar lá e esperar sabe-se lá o que ela iria fazer. Fingi normalidade com um sorriso, enquanto ela falava. As vezes ela falava algumas coisas no microfone, era comum, estava tudo bem. Ela deixava para fazer isso comigo aqui para que chamasse mais atenção. Deveria ser isso. — Como meu Rubi, meu bem mais precioso fez 18 anos há alguns dias… Rubi era o meu pseudônimo, artistas ganham nomes por serem artistas, eu ganhei um por ser uma vagabunda. — Uau, parabéns, gostosa! — Um daqueles homens gritou no meio da fala da Ruth me fazendo estremecer. Fingi um sorriso enquanto uma lágrima descia, eles não iriam notar mesmo, eles nunca notam o desconforto de uma mulher só reparam em detalhes sexuais, os emocionais eles descartam. — E com as propostas altas que venho recebendo nos últimos anos, resolvi fazer um leilão. — Ruth não me olhava, apenas sorria vitoriosa atrás do microfone. — Quem pagar mais, ganha uma noite com esse Rubi. Ruth acertou um tapa na minha b***a tão involuntário que fez alguns homens rirem enquanto outros gritavam em comemoração e eu de susto fiquei paralisada olhando para ela. — O que? — Murmurei sentindo o desespero tomar conta de mim. — Você prometeu que isso não ia acontecer, Ruth. — Falei baixo o suficiente para que ela escutasse. — E vale pontuar… — Ela me ignorou. — Que a Rubi nunca teve um homem antes, 100% virgem. Puta.Que.Pariu. — Ruth. — A chamei e ela fingiu não ouvir enquanto os homens assobiavam e comemoravam. — Ruth! — Ela finalmente me olhou, mas com desprezo. — Eu não sou mais virgem. — Murmurei baixo para ela fazer leitura labial. Sua expressão se transformou em um choque tão grande, que seu rosto ficou pálido. Tentei melhorar a situação sorrindo largo e olhando para a plateia. Eu achei que não poderia piorar mais, mas piora sim. Meu mundo parou. Dean me encara no meio daqueles homens, os olhos vermelhos e o maxilar tensionado. Uma lágrima cai do meu olho, meus lábios entreabrem e enquanto tento chamar seu nome a voz não sai. Meus lábios apenas fazem o movimento “Dean”. Ele se vira e vai embora. Minhas pernas se movem no mesmo instante tentando ir atrás dele, mas o grito de Ruth faz com que os seguranças da boate corram até mim tentando me segurar. — Volta aqui, sua filha da p**a! — Ruth continuava gritando. Empurrei um segurança o fazendo se bater no outro e rolarem pelos batentes da passarela, batentes a baixo. Eu corri para fora atrás do Dean, desesperada, louca, o buscando para segurar em meus braços e não deixá-lo fugir de mim. Ele é tudo o que eu tenho agora, e acho que o perdi para sempre. — Dean! — Eu grito desesperada enquanto corro atrás dele, mas ele apenas apressa mais os passos até à moto. Não estava mais nem dando a mínima em saber como que ele chegou até aqui, eu só queria que ele me escutasse. — p***a, Dean! O meu grito foi estridente, e o meu desespero era perceptível. Mas ele não conseguia mais olhar para mim da mesma forma, não conseguia mesmo. Só conseguia olhar para mim e a ver uma nojenta leiloando uma virgindade inexistente, ou me exibindo para trocentos homens ou até mesmo transando com centenas de homens em uma noite só. Tenho absoluta certeza de que ele pensava assim de mim a partir daquele momento. — Dean, por favor! — Eu peço chorosa mais uma vez e me posiciono em sua frente o forçando a parar e me ouvir mas ele sequer me encara nos olhos. — Olha para mim, por favor. Dean trava o maxilar olhando fixamente para o chão, respirando pesado, tão pesado que seu peito sobe e desce ligeiro. Eu toco o seu rosto com as mãos, seguro seu rosto nas mãos encostando nossos narizes e o obrigando a me olhar, quem se perde sou eu naquela escuridão dos olhos de madeira que ele tem. — Ei. — Sussurro. — Por favor, me ouve… — Sai, sai da minha frente. — Resmunga tentando manter a calma, segura as minhas mãos e a afasta dele. — Dean, por favor. Não é o que parece, eu não sou garota de programa, sou apenas a garçonete. — A garçonete? — Começou a rir sem humor como se fosse algum tipo de piada. — O que aquela velha estava falando no microfone não era sobre servir mesas, não é? Eu tento abrir a boca para falar algo mas não consigo, porque ele está coberto de razão, passo as mãos no cabelo e mordo os lábios, mas nada sai. — Você era mesmo virgem? Ou sua especialidade é fingir falta de experiência e orgasmos? — Ironizou com o ódio saindo inteiro no tom de voz rude, aquilo me magoou de uma forma que minha mão levanta no automático e desfere um tapa no rosto dele fazendo com que ele virasse o rosto para o outro lado. — Como você pode pensar isso? Eu não estava fingindo nada, seu i****a! Eu moro na merda desse puteiro, e tenho que fazer o possível para ganhar um teto e um prato de comida. — Comecei a gritar me exaltando, mas ele ainda continuava com o rosto virado para o lado em total silêncio, apenas ouvindo. O olhar fosco, totalmente sem expressões e incapaz de passar qualquer sentimento caloroso. — É essa a sua desculpa? — Questionou baixo, tentando controlar a raiva. — Por um prato de comida você abre as pernas para um coroa rico porque é mais fácil do que acordar cedo para trabalhar em um emprego descente. — Eu não sou garota de programa! — Eu gritei novamente sentindo o ódio ainda maior, se tinha algo que me irritava mais do que ter que viver assim, era quando alguém me chamava de garota de programa. Eu gritei pausadamente tentando enfiar essas palavras na cabeça dele. — Então por que merda aquela mulher estava te leiloando como se você fosse um pedaço de carne de primeira!? — Dean devolveu o grito caminhando alguns passos para frente se aproximando mais de mim. — Porque ela ficou com raiva que ontem eu fiquei com você… — Comecei a falar batendo o indicador no peito dele. — …e larguei o meu trabalho sem a permissão dela. — Ela ficou com raiva porque você fez um programa de graça para mim? — Ironizou com aquele olhar de homem escroto, aquele olhar masculino que magoa as mulheres. — E foi muito bem feito. Parabéns, você é ótima, enganou direitinho, você faz um trabalho impecável. — Meu corpo arrepia inteiro enquanto ele sussurrava próximo ao meu rosto, nossos rostos ficaram próximos, nossos narizes se tocaram e rocei nossos lábios sentindo a necessidade dentro de mim crescer e querer beijá-lo. — Quanto que você cobra por uma noite, hum? Rubi? — Ele continuou me olhando nos olhos com os olhos abertos e o maxilar travado, sorrindo falso sem mostrar os dentes, e com a pergunta eu o encarei sentindo meu coração se partir em mil pedaços. O Dean jamais me veria com aqueles olhos que ele me olhava antes, eu nunca mais vou ser tratada com aquela delicadeza que ele me tratava. O encarei por alguns segundos, meus olhos encheram de lágrimas, cerrei os punhos os batendo contra o seu peito com força. Comecei a chorar, esbravejava enquanto o batia e ele deixava. Dean não movia um dedo, ele só ficava parado enquanto eu acertava os punhos em seu peito com toda a frustração que eu sentia. Eu precisava descontar a raiva em algo, e ele precisa sentir dor. — Eu te odeio… — Comecei a gritar em disparada, as lágrimas desciam e o som dos socos eram estridentes. — Seu i****a… você não sabe o que diz… Dean fechou os olhos, os apertou com força enquanto as lágrimas desciam pelos meus. Eu não sabia o que ele estava sentindo, não tinha esse poder, mas eu sabia que não era algo bom. Até que eu cansei. Sentei no chão e cessei o choro sem olhar para ele, com os olhos fixos no chão. Ele então me encarou sem saber o que fazer, mas não se importava mais comigo. Ali não era mais ele, não era o príncipe que eu quis que fosse. Escutei os passos dele e quando olho para frente ele sobe em uma moto, coloca o capacete e dá partida. Antes de ir embora, nos olhamos pela última vez, e o encarei com os olhos cheios de amargura, com a maquiagem borrada. O ódio não era da Ruby que ele conhecia, essa não era mais ela. Não exagero quando digo que o olhar cheio de amargura e de raiva, não era mais da Ruby, era da Rubi.
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