02 Ruby

2540 Words
Eu lutei meus últimos anos pela minha sobrevivência, lutei com garra e aguentei tudo o que eu tinha que aguentar. Isso não ia ficar assim, isso não pode ficar assim. Já estou cansada, cansada de tudo. Levanto daquele chão, sacudo a poeira e volto para dentro daquele lugar. Eu lutei até aqui, me sujeitei às coisas mais humilhantes que nunca imaginei que iria passar, agora eu não ia deixar um garoto acabar com o meu psicológico. Quando retornei, os homens me olharam e assobiaram novamente. Porém, dessa vez eu não forcei nenhum sorriso, não agradei nenhum e que eles vá serem agradados no quinto dos infernos. Meu olhar vai direto para Ruth, é com ela que quero falar. Ela está conversando com um dos seguranças ainda em cima da passarela, não estava chamando a atenção de ninguém porque depois que os desfiles acabam aquela passarela vira só mais um detalhe. Quando aqueles assobios chamam a atenção dela e ela me olha, seu rosto endurece. Agora está indo mais além daquela raiva que ela estava sentindo antes, essa é muito mais intensa. — Eu quero falar com você. — Pedi enquanto andava sobre meus saltos bem próxima dela. — Sou eu quem quero, aqui dentro você não tem o direito de querer nada. — Ela rebateu. — Vá, conversamos depois. — Ela manda o segurança ir embora, ele me olha com tanta raiva no olhar que nem ao menos causa efeito em mim, ultimamente todos me odeiam e já acostumei com o peso de ser odiada. Quando ele passa ao meu lado, bate grosseiramente seu ombro no meu me fazendo caminhar para trás e ficar de lado. Tudo isso porque eu o derrubei batente a baixo, vê se cresce. Encaro suas costas cerrando os punhos, mas me recomponho quando Ruth gesticula para o lado pedindo para que eu a seguisse. A acompanho dando uma última olhada naqueles homens, não consigo mais forçar um olhar e sorriso simpático, o melhor que sai de mim é nojo e desprezo. Medo do me espera. Ruth entra no vestiário e se posiciona em frente à penteadeira, me encara com o olhar neutro mas sei que por dentro está guardando um ódio imenso de mim. — Você passou do limite. — Falo baixo ainda a encarando — Como é? — Ela se fez de sonsa pedindo para que eu falasse mais alto. — Você passou da p***a do limite! — Grito sentindo meus olhos arderem. Ruth caminha até mim em passos calmos, tudo nela exalava poder e calma. Ela nunca se exaltava. — E largar tudo por causa de um garoto também não é passar do limite? — Esbravejou batendo o indicador no meu peito me fazendo caminhar vários passos para trás. — Estamos quites agora, sua vagabunda. Ela deixa seu ódio transparecer, me empurra contra a parede fazendo minhas costas baterem com força e segura meu rosto com firmeza me obrigando a encará-la enquanto fala. — Você está se achando demais, é… — Ofega com o tom de voz oprimindo a raiva. — Está testando a minha paciência, não está? — O que você fez ali foi só para me humilhar, foi isso? — Não. O que eu fiz ali foi te mostrar a sua nova realidade, o que eu fiz foi apenas te acrescentar nos negócios. — Seu tom de ecoou em um tom maléfico me fazendo balançar a cabeça e negar insistentemente. — Foi… para você perceber que as coisas não são como você quer. — Não. Não. Não… não mesmo. Eu não vou me prostituir! — Esbravejei balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto as lágrimas desciam. — E vai viver como? Eu fui a única que não fechou as portas para você, se toca. Ninguém quer você, nem mesmo o Dean quis saber de você depois que soube quem você é de verdade. — Ela riu sem humor cheia de deboche. Estreitei meus olhos para ela, queria voar no seu pescoço mas algumas peças ali não estavam se encaixando. — Como sabe o nome dele? — Questionei assustada. Ruth me encarou com descaso e caminhou até à penteadeira dando uma arrumada nos cabelos como se eu não estivesse ali. — Como. Você. Sabe. O. Nome. Dele!? — Gritei pausadamente sem paciência. — Oi, querido. Você ficou. — Ruth cumprimenta alguém na porta me fazendo encará-la. Jason. Simplesmente ele entra, fecha a porta e se escora ali. — Mas que p***a… — Murmuro comigo mesma. — Se eu fosse você, eu iria trabalhar logo. Não me faça ter que te obrigar, v********a. — Ruth ironizou retocando o batom. — Os clientes estão perguntando por você, tem apostas ali de 600 para cima. — Jason diz me encarando com um sorriso debochado. — Está vendo? Vá trabalhar, você precisa quitar a sua dívida, ou não está lembrando que me deve rios de dinheiro? — Ruth me pressionou também me encarando pelo espelho. Suspirei pesado, sinto a minha cabeça quase explodir e o sangue ferver. Caminho em passos pesados até Jason, até ficar em sua frente e o empurro fazendo suas costas baterem contra a porta e ela rachar. — Foi você quem o trouxe aqui, não foi? — Acerto vários socos no seu peito, mas diferente de Dean ele revida me empurrando com força e eu caio no chão de mármore. — Fala que foi você, seu... Levanto do chão arrumando a roupa, o encarando com os olhos cheios de lágrimas, lágrimas que não sei mais se são de raiva, tristeza ou cansaço. — Você pagou ele para trazer o Dean até aqui? — Questiono para Ruth que está escorada em uma das cadeiras em frente à penteadeira. — Você pagou esse filho da p**a para trazer meu namorado até aqui!? — Esse filho da p**a é o meu filho. — Ela alterou o tom de voz me fazendo ficar em silêncio enquanto encaro Jason e Ruth totalmente em choque. — Mais um motivo para ele ser filho da p**a. — Estremeci com Jason crescendo para correr em minha direção mas Ruth levantou a mão como um pedido para pará-lo. — Somos parceiros de negócios, igual eu e você. Bom, pelo menos era para sermos parceiras, mas você não colabora. — Tudo bem, mas isso não justifica. Por que? Por que tirar o Dean de mim? — Gritei chutando a cadeira e quebrando o salto. — Você vai pagar por ele. — Ruth avisa apontando para o salto quebrado no chão. Tiro o outro par do pé e arremesso em seu rosto fazendo ela gemer o cobrindo com as duas mãos. — Vagabunda! — Jason me acerta um tapa me fazendo cair sentada em cima da cadeira. — Não! Tudo bem, pode deixar, Jason. — Ela ordena estendendo a mão aberta como um bloqueio para ele parar. Com a mão sobre a bochecha ardida olho para Ruth vendo seu nariz sangrar, meu sorriso de canto é involuntário mas disfarço. — Sabe, Rubi. Você é fraca, muito fraca. Um garoto conseguiu virar a sua cabeça do avesso, estávamos trabalhando tão bem juntas até ele aparecer. Eu não podia deixar que ele acabasse com tudo. — Ela sorriu cínica. — Achei que você fosse amigo dele. — Falei para Jason. — Ninguém tem amigos de verdade, Rubi. Mas afinal de contas, o que eu fiz foi um grande gesto de amizade, ainda assim foi para o bem dele. — Jason levantou as duas mãos com as palmas para cima. Encaro o ambiente à minha volta, enquanto os dois me olham com sorrisos de canto e olhares satisfeitos me vendo destruída. — Você pode até ter me afastado do Dean, mas não vou me prostituir só porque você quer. — Falo em tom de aviso para Ruth. — Até porque você não vai mais conseguir leiloar minha virgindade, já que eu não tenho mais uma. — Homens não pagam para t*****r apenas com mulheres virgens, Rubi. — Mas eu acabei com seu plano, sua c*****o. — Devolvi o sorriso de canto. — Veremos. — Ela sorriu ainda mais vitoriosa. — Eu sempre ganho, Rubi. Eu sempre ganho. A encaro tentando decifrar o que ela quis dizer com isso, e ela apenas me encara de volta sorrindo. — Fica aqui com ela, eu já volto. — Ruth ordena para Jason e sai do vestiário. Encaro ele bloqueando a saída e me olhando como se eu fosse uma prisioneira querendo fugir. Eu tinha a noção de que a Ruth não iria voltar com notícias legais para mim, mas era difícil sair dali com um mamute com três vezes o seu tamanho bloqueando a porta. — A Ruth trabalha com tráfico de mulheres, e você cuida dos negócios com tráfico de drogas para ela. Não é? — Não é da sua conta. — Jason respondeu ríspido. — Por isso que o Dean virou usuário quando conheceu você. — É o meu maior cliente. — Sorriu com deboche. — Pelo menos era, não é mais por sua culpa. — Você é podre, igual a sua mãe. — Murmurei enquanto balançava a cabeça. — Você não vê, Rubi. Seu relacionamento com o Dean só faz m*l, tanto a ele, quanto a você. — Apontou cínico. — Não. Quem só nos faz m*l é você e a sua mãe. — Jason! — A voz abafada de Ruth ecoa lá de fora. Ele abre a porta revelando Ruth e aquele segurança, dou passos para trás começando a ficar assustada. — Não resista, dama de vermelho. — Ruth me provoca. O segurança caminha em minha direção, eu dou passos para trás mas parece que não adianta de nada, porque realmente não adianta, aquele cômodo era minúsculo para fugir de 3 pessoas. Ele me pega nos braços enquanto eu me debato, enquanto eu grito em desespero e o arranho inteiro. — Me solta! — Grito estridente, mas é o mesmo que gritar com a boca fechada. Tudo o que eu queria agora era poder sumir do mapa e fingir que eu nunca estive aqui. Mas eu não posso, eu não posso. — A sua sorte é que o seu primeiro cliente não é um velho nojento, garota sortuda do c*****o. — A Ruth comentou antes que o segurança me tirasse do vestiário. — E quem é? — Parei de me debater e a encarei com a testa franzida. — O Sr. Nakashima. E ofereceu uma quantia de tirar o fôlego, não se preocupe, te dou uma porcentagem. Não apoio trabalho escravo. — Ela falou e em silêncio eu fiquei a encarando em choque enquanto o segurança me levava. O Sr. Nakashima? Ele é o sócio da Ruth, sócio desse lugar, viramos até amigos, conversávamos vez ou outra. Eu… pensei que ele jamais se deitaria com uma prostituta, ele mesmo havia falado isso. Eu nunca imaginei que ele pagaria, e que ainda pagaria um valor tão alto. Mas não muda o fato de que eu ainda vou ser estuprada, forçada a fazer algo que eu não quero enquanto eu preferia estar indo atrás do meu namorado. Abaixo a cabeça ali e rezo. Começo a rezar. Eu não mereço isso, definitivamente não mereço. Porque existem pessoas no mundo que fazem coisas bem mais piores do que eu, e todas elas tem uma vida boa. Por que eu mereço isso? Eu não tinha mais a Ruth para contar, a decepcionei. Mas o que era mais decepcionante, era que eu a tinha como uma mãe para mim, acho que ela cuidou de mim até mais do que a minha mãe. Mas agora ela chegou ao extremo, e eu não podia me sujeitar a isso, pela segunda vez na vida, eu não tinha com quem contar. Mas eu continuaria lutando, lutando até a morte. Então o segurança me arrasta a força até um dos quartos, um dos melhores da casa, ele abre a porta e me joga lá dentro e enquanto bato os punhos na porta apenas ouço ela sendo trancada por fora. — Merda… — Meu choro começou a sair de uma vez só, como se todo o choro acumulado por anos tivesse resolvido sair agora enquanto eu sentei no pé da porta e escondi o rosto entre as pernas. — Mãe… onde você está, mãe? Então depois de alguns minutos em silêncio comigo mesma, ouço conversas no corredor e aceito a minha realidade. Sento no meio da cama e me deito sobre o colchão. Encarei o teto que imaginei nunca encarar na minha vida, mas o dia chegou. Era meio óbvio, eu deveria ter isso em mente desde o começo. A maçaneta da porta se movimenta e então a porta começa a destrancar e a abrir, a encaro com o coração na mão, nervosa com os nervos a flor da pele. Nunca imaginei que me prostituiria de verdade, e nem que o meu primeiro cliente seria o Sr. Nakashima. Eu já o via até como um pai, mas como todos os outros homens, ele só me via com olhos maldosos e como um pedaço de carne, como qualquer outro homem. Aos poucos um garoto alto, amarelo oriental, dos cabelos negros entra pela porta me fazendo saltar da cama e encostar as costas na parede recuando para longe dele. — Onde está o Sr. Nakashima? — Questionei com grosseria. O garoto me encarava enquanto fechava a porta atrás de si, escorou as costas nela e apoiou a cabeça enquanto me encarava. Estreitei os olhos para ele sentindo que o conhecia de algum lugar, e meu subconsciente também concordava comigo. Era aula de educação física, naquele antigo colégio. Aquele maldito colégio onde ninguém queria chegar perto de mim, pois eu era “a garota de programa” mesmo na verdade eu sendo apenas a “garçonete” desse lugar. — Façam duplas. — O professor ordenou. Todos ao redor se formaram em duplas, eu apenas mordi o lábio encarando o chão esperando o professor dizer o que eu faria. Então senti mãos atrás de mim deslizando sobre meus ombros até chegarem em minha cintura, olhei para os lados e vi os garotos segurarem as garotas pelo tronco enquanto elas esticavam um dos braços e uma das pernas. Foi tudo rápido e não pude olhar para ver quem estava atrás de mim, mas apenas segui os movimentos das outras pessoas. Senti uma mão segurar o interior da minha coxa esticada, nada demais, mas era um toque diferente. Firme, enérgico, estremecedor, quente… era elétrico. Olhei de relance para o lado vendo as mechas caídas dele enquanto olhava para a própria mão apoiada em minha coxa e então com os olhos noturnos me olhou nos olhos. — Elyja… — Sussurrei comigo mesma. Ele me olhou com um sorriso pequeno, mas me olhando dos pés à cabeça com os olhos semicerrados por estar com a cabeça apoiada na porta fechando com seu corpo atrativamente. — Me conhece… — Falou para si mesmo. — Meu nome é Elay Nakashima, acho que o homem que você estava esperando era o meu pai. Eu estava em choque, e não saberia dizer se era porque me surpreendi porque não era o Sr. Nakashima que eu conhecia que entrou, ou porque eu já conhecia o filho dele, e pior, era ele quem havia entrado pela porta.
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