07 Ruby

2076 Words
Eu lutei meus últimos anos pela minha sobrevivência, lutei com garra e aguentei tudo o que eu tinha que aguentar. Eu sou uma guerreira, posso mudar as coisas na hora em que eu quiser, só preciso de um empurrão e esse empurrão só vem de mim mesma. A minha coxa estava encostando na dele, e isso era tão estranho. Mais estranho ainda era a forma como ele respirava enquanto encarava o teto em total silêncio. Não conseguia assimilar a ideia de que não via ele há anos, e agora ele estava ali, comigo, depois de supostamente ter me ajudado com a Ruth e a loucura dela. — Você está bem? — Elyja questionou do nada me pegando de surpresa me fazendo virar a cabeça para o lado no travesseiro para encará-lo. — Como? — Retruquei sem entender. — Ruby, você foi chutada para fora de casa e está vivendo em uma espécie de bordel onde a dona se aproveita da sua juventude e da sua beleza para atrair mais clientes e hoje, hoje ela decidiu que queria obrigar você a se prostituir. Você está bem? — Ele então falou como se fosse óbvio e eu continuei encarando ele, que não me dirigia os olhos para falar, parecia que meu olhar o assustava, mexia com ele, sabe? — Como você sabe que eu fui expulsa de casa? — Minha pergunta veio com um susto, eu levantei o tronco da cama e me apoiei nas mãos totalmente desconfiada dele. — A Ruth me contou. — Ele mantinha o tom de voz calmo de quem estava sempre pleno. As armas imaginárias que eu havia apontado para ele agora eu me via obrigada a abaixar e então voltei a deitar devagar ao lado dele me sentindo meio maluca por agir tão impulsivamente. Desde o momento em que ele entrou no quarto, todas as vezes em que nossos olhares se cruzaram ele os direcionou para uma direção qualquer no mesmo instante. Então meu corpo absorve toda a informação, “sua beleza”. Ele me acha bonita? Ninguém nunca havia perguntado se eu estava bem, nem mesmo o Dean. Merda, outra vez estou lembrando dele. Pego meu celular de cima do criado mudo e abro o aplicativo de mensagens tentando ver se há alguma dele. Pelo menos me xingando, mas não há nenhuma. — Ruby? — Elay me chama tirando o meu foco do celular. — Eu estou, não se preocupe. — Respondi sentindo que dessa vez eu já estava respondendo ele com mais calor do que estava respondendo antes. — Está esperando uma ligação de alguém? — Ele questionou se referindo ao celular que eu estava na mão tão concentrada. — Elyja… a Ruth fez isso hoje porque queria me castigar, só isso. — Castigar pelo que? — Ele finalmente me encarou. — Não importa. — Agora foi eu quem desviou o olhar para o teto, virou algo automático, parecia algo nosso agora, não manter contato visual. — O meu medo é que ela persista, e ela vai, eu tenho certeza. Ruby, ela não vai fazer você se prostituir apenas uma noite, porque lá fora tem um exército de homens dispostos a pagar qualquer valor. — O Elay até mesmo levantou o tronco do colchão para falar, de tão indignado como se realmente se preocupasse, o que me fez até mesmo estranhar de verdade. — Pedófilos babacas. — Resmungou consigo mesmo sentado em cima da cama. — Ela já me castigou o bastante, eu dou um jeito. Falo com ela e tudo se resolverá, é só questão de convencer ela. — Tentei amenizar a situação, tentando convencer ele mas no fundo parceria que eu queria me convencer também. — Por que ela quis te castigar? — Ele repetiu a pergunta novamente me olhando por cima do ombro. Respirei fundo tentando manter a minha paciência e até mesmo fechei os olhos. Eu não estou afim de falar nada, principalmente desse assunto. Eu não queria estar aqui agora, eu queria estar com o Dean, queria olhar nos olhos dele e explicar tudo. Queria poder resolver as coisas de verdade. — Já falei que não importa. — E eu continuei com a mesma resposta. — Você só está aqui tranquila porque eu salvei você, se não fosse por mim… as coisas teriam ido muito longe, Ruby. Tem noção disso? Não é como você está acostumada, não seriam apenas olhares, teria um homem maluco aqui, dentro desse quarto com você sem se importar sequer se você estaria viva pela manhã. Não sente medo? Mas que pergunta mais i****a, se eu sinto medo? Eu sinto medo todos os dias, de ter que voltar a morar na rua, de algum desses homens me encontrarem por aí e fazerem alguma coisa comigo, de fracasar, de acabar como aquelas mulheres que a gente vê por aí, perdidas pedindo dinheiro na rua ou se prostituindo na rua mesmo… As vezes quando eu me levanto de manhã a minha vontade é de me jogar pela janela do terceiro andar, e acabar com tudo isso. Não é engraçado, é sério. Ninguém fala da sensação que é viver sem vontade, de lutar tanto por uma vida que sequer te dá uma chance. — Sabia que eu fui para aquela escola particular, de mauricinhos e patricinhas mimadas sem educação porque eu queria evoluir nos estudos, entrar em uma faculdade, ser bem sucedida e poder ir viver uma vida descente? — Falei em voz alta enquanto fechava os olhos e os mantinha assim, era o meu jeito de convencer a mim mesma que eu conseguia falar isso em voz alta para alguém. Enquanto isso o Elyja voltou a atenção dele para mim, eu vi antes de fechar os olhos mas também ainda conseguia sentir o olhar dele prestando atenção no que eu dizia. — É, e ainda com a ajuda da Ruth. É óbvio que ela não iria negar, com isso eu fiz uma dívida enorme com ela para pagar apenas servindo mesas, enquanto tenho os meus itens de higiene pessoal para comprar, passagens de ônibus para a escola, material escola e essas coisas básicas. Ele ficou em silêncio, mas só pela energia que ele passava para o ambiente eu sentia que estava pensativo. — No final, você acha que ainda há alguma coisa bacana esperando por mim? — Questionei com o meu tom de voz cheio de melancolia, era nítido o meu tom perdido, talvez fosse até mesmo pelo sono, eu não estava raciocinando muito bem. — Olha para mim, olha para você… filhinho de papai, mimado, cheio de coisas boas esperando por você… — Nesse momento eu já estava com a voz de sono, mas eu sabia que ele ainda estava me observando. Eu estou tão cansada, preciso tanto dormir. Quero tanto poder fechar os olhos e dormir. — Honestamente, ainda bem que é você aqui… não sei se eu conseguiria sequer manter os olhos abertos de tanto sono, e tenho certeza que o homem que estivesse aqui iria me querer bem acordada. — Eu ri sem o menor humor, aquele riso de cansaço mesmo. — Não diga isso. — Ele respondeu como se estivesse mesmo me levando a sério, e eu senti ele mexendo ao meu lado, abro os olhos o suficiente para ver ele deitando ao meu lado se apoiando no cotovelo de frente para mim. — Se eu dormir você não vai relar em mim mesmo, não é? — Questionei com meu senso de humor ainda o mesmo. — Claro que não, tem a minha palavra. — Que horas são? — Questionei estranhando o fato de estar com tanto sono assim, porque nunca imaginei que conseguiria ter sono depois de tudo o que aconteceu essa noite. — São quase três da manhã. — Elay respondeu com o tom de voz suave, cheio de compreensão. — Ah, está explicado. Pensei que fosse 1 da manhã, não senti o tempo passar. — Daqui a pouco vou embora, talvez você já esteja dormindo. — Ele avisou. Eu fiquei em silêncio. Detesto a ideia de que o dia vai amanhecer e amanhã de manhã os problemas irão voltar, a vida vai continuar e eu vou ter que voltar a lutar sozinha contra os meus próprios demônios. Eu só quero dormir e com dormir eu quero dizer que não quero mais acordar. Amanhã a Ruth vai querer me fazer uma prostituta novamente, o Dean não vai olhar na minha cara e eu não tenho mais ninguém. — Foi por causa do meu namorado. — Respondi baixo. — O que? — O Elyja pareceu interessado, o tom de voz dele até mudou. — Foi por causa do meu namorado que a Ruth quis me castigar, em algumas noites eu não voltei para casa… passei a noite com ele e ela disse que estava atrapalhando os negócios dela, que eu tenho uma dívida com ela e que as coisas não são do meu jeito, são do jeito dela. Até que ela se irritou e fez isso. — Te obrigou a se prostituir? — Ele questionou como se fosse algo i****a, não dá minha parte, mas da dela. — Essa parte foi teatrinho dela, mandou o filho dela trazer ele aqui e ela leiloou uma noite comigo na frente dele. Ele sequer sabia que eu morava aqui, ele achava que eu morava com a minha mãe. Ele permaneceu em silêncio, não disse nada. Eu não sabia decifrar aquele silêncio, na verdade era difícil mesmo era saber qualquer coisa sobre o Elyja, ele nunca fui alguém muito aberto, isso se nota somente olhando para ele. — Por isso eu acho que ela não vai mais me obrigar a me prostituir, o Dean não quer mais nem mesmo me ver, então problema resolvido. — Dean… — O Elyja repetiu o nome dele em um tom de voz baixo, praticamente um murmúrio, mas eu ainda consegui ouvir. — Também se a intenção dela fosse mesmo me tornar não só a garçonete, mas uma prostituta de agora em diante, ela teria me leiloado mais de uma vez, as outras garotas fazem programas de meia hora todas as noites para ter tempo de fazer quantos mais conseguirem. — Inauguração, Ruby. Não seja inocente, ela pode ter deixado apenas um só para começar. Aqueles homens não vai sossegar agora que sabem que ela acrescentou você no cardápio, mesmo que tenha sido só uma vez como você está acreditando, eles vão ficar insistindo, fazendo propostas de diferentes valores até chegar o dia em que ela vai ceder. Não há para onde correr, se fez uma vez, faz duas, se fez duas, faz três. — Mas a questão é que eu nunca fiz programa, nem mesmo agora não estou fazendo. — Abri os olhos por uns segundos para falar mas depois voltei a fechá-los. — Mas eles não sabem. Ele não estava ajudando, talvez ele quisesse mesmo me alertar mas não estava ajudando. Ajudou quando comprou esse leilão, mas agora estava só me assustando. — Não fala mais disso, por favor. — Eu pedi e me encolhi na cama tentando lutar contra o sono porque apesar de tudo eu não queria dormir, não confiava 100% nele. — Tudo bem. — Ouvi um suspiro dele. Então eu senti que ele levantou da cama, abri os olhos curiosa e o vi puxar as cobertas da cama e me cobrir com cuidado. Estreitei os olhos para ele que sequer se importou, então depois de me cobrir ele deitou ao meu lado encarando o teto novamente, em silêncio. Me custa acreditar que ele seja uma pessoa boa, o pai dele é sócio desse lugar, quem que seja uma boa pessoa seria sócio de um lugar onde mulheres são escravas sexuais? Onde uma velha abusa de uma adolescente? Se eles são pai e filho, eles são duas pessoas com caráter igual ou parecido, e ninguém tira isso da minha cabeça. A pergunta que eu queria muito fazer a ele, mas que eu acho apaguei antes de conseguir falar foi “o que você faz aqui?“ tipo… por que ele estaria aqui? Por que ele estava aqui? Em nenhum momento da noite eu havia parado para pensar por esse ponto de vista, mas o Elyja não é uma pessoa boa. Isso era óbvio, ele me ajudou, eu sei, mas há algo m*l explicado que não sei o que é, e mesmo com algumas respostas para algumas perguntas as coisas ainda não estavam claras o bastante. Haviam peças que não encaixavam.
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