SAMUEL'S POV
As cordas da guitarra estavam quentes sob meus dedos, mesmo depois de horas tocando. O som abafado do último acorde ecoou pela garagem, e eu deixei escapar um suspiro de alívio. Finalmente havíamos terminado o ensaio, e a música parecia boa — melhor do que eu poderia imaginar.
— Acho que estamos prontos para eles. — disse John, largando o baixo em um suporte improvisado.
— É, se eu conseguir segurar as baquetas depois de tanto tocar hoje — comentou Peter enquanto estalava os dedos.
A tarde tinha se transformado em noite, e agora, com o cansaço tomando conta, o clima na garagem era de exaustão e alívio. Mas eu não podia deixar de sentir o nervosismo rondando.
— Acho que já deu por hoje — disse Mike enquanto recolhia o seu teclado. — Estou morto.
— Concordo. — John olhou para Emily, que estava encostada no batente da porta, os braços cruzados e um sorriso de quem claramente esperava o ensaio acabar.
O jeito como ele a olhava, como ela retribuía, me dizia tudo o que precisava saber. Eles queriam ficar sozinhos.
— É, vocês estão certos. Vou indo também. — Peguei minha guitarra, guardando-a com cuidado na capa.
John me lançou um olhar de surpresa.
— Vai pra casa?
— Sim. — Dei de ombros, tentando não parecer desconfortável. — Preciso descansar também.
Ele assentiu, mas o alívio em seu rosto era evidente. Emily lançou-me um sorriso curto, mas eu o ignorei, saindo antes que qualquer um dissesse algo mais.
O caminho até minha casa estava silencioso. O ar noturno era frio, e a rua deserta parecia um contraste gritante com o calor e o barulho da garagem. Enquanto dirigia, minha mente se enchia de pensamentos. A música, o ensaio, os produtores que Samantha havia prometido, e... Lily. Era inevitável. Mesmo depois de tudo, o pensamento dela ainda aparecia como uma sombra persistente, algo que eu não conseguia afastar completamente.
Quando finalmente cheguei em casa, tudo parecia quieto demais. As luzes da sala estavam acesas, e, por um momento, achei que estava tudo normal. Mas quando abri a porta, lá estava minha mãe, Samantha, sentada no sofá com as pernas cruzadas e um olhar que parecia um misto de impaciência e determinação.
— d***a, mãe, você me assustou. — Minha voz saiu mais ríspida do que eu pretendia, e larguei minha guitarra ao lado da porta. — O que você está fazendo aqui?
Ela levantou os olhos, e o brilho em seu olhar era cauteloso, mas firme.
— Esperando você.
Franzi o cenho e larguei a guitarra ao lado da porta.
— O que você quer?
Ela tomou um gole de vinho antes de colocar o copo na mesa e me encarar diretamente.
— Marquei com três produtores para ouvirem sua banda.
As palavras atingiram como uma corrente elétrica. Por um momento, fiquei paralisado, e então a alegria me invadiu.
— Você está falando sério? — Dei dois passos à frente, o rosto se iluminando.
Samantha assentiu, um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
— Sim. Eles vão escutar vocês na sexta-feira.
Antes que pudesse pensar, fui até ela, abraçando-a com força.
— Obrigado, mãe. De verdade, obrigado.
Ela riu suavemente, dando um tapinha no meu braço.
— Não me agradeça ainda.
Afastei-me, mas o sorriso ainda estava no meu rosto. Beijei-a na bochecha com gratidão, sentindo uma leveza que não sentia há semanas.
— Isso é incrível.
Ela recostou-se no sofá, os olhos fixos em mim agora.
— Só não se esqueça da nossa condição, Samuel.
Meu sorriso diminuiu, mas não desapareceu completamente.
— Que condição?
— Se os três produtores derem feedback negativo... você vai para Juilliard.
O peso da promessa voltou a pairar sobre mim. Por um momento, a euforia deu lugar à realidade, e eu me vi novamente no meio do impasse.
— Entendido — murmurei, sem conseguir manter o mesmo entusiasmo.
— Estou falando sério, Samuel. — Samantha me olhou com uma expressão que era tanto de preocupação quanto de determinação. — Essa é a sua chance de provar que pode seguir esse caminho. Mas, se não der certo, Juilliard é o melhor lugar para você.
— Juilliard? — perguntei, a incredulidade na minha voz. — Você ainda não desistiu disso?
— Não. — A firmeza no tom dela era inabalável. — Eu não investi em uma excelente escola, conexões e suporte para você desperdiçar seu talento em algo sem futuro.
— Sem futuro? — A irritação começou a subir, substituindo minha alegria inicial. — É isso que você acha da banda?
— Acho que você tem potencial para muito mais. — Samantha não desviou o olhar, mas seu tom ficou um pouco mais suave. — Samuel, essa é uma oportunidade que poucas pessoas têm.
Eu respirei fundo, tentando controlar minha frustração.
— E se eles gostarem?
— Então você continua com a banda. — Ela deu de ombros, como se aquilo fosse uma simples transação. — Mas se não gostarem, você me promete que irá para Juilliard.
Eu assenti lentamente, sabendo que ela não estava blefando. Juilliard era o plano dela desde sempre, e mesmo que meu coração estivesse na banda, eu sabia que ela não hesitaria em me fazer cumprir a promessa.
— Vai dar certo — respondi, tentando soar mais confiante do que me sentia.
Samantha estudou-me por um momento, como se tentasse determinar se eu realmente acreditava nisso. Então, ela pegou o copo de vinho novamente e deu outro gole.
— Espero que sim.
Subi as escadas logo depois, deixando-a na sala, mas o peso da conversa continuava comigo. A banda tinha que impressionar os produtores. Não havia outra opção. Não só pela música, mas porque eu sabia que não poderia suportar a ideia de passar os próximos anos preso em Juilliard, vivendo um sonho que não era meu.
Naquela noite, deitei na cama com a guitarra ao meu lado, as cordas ainda ecoando na minha mente. Três dias. Três dias para mudar tudo.