LILY'S POV
A lanchonete estava cheia de vida, com o som de risadas e pedidos sendo feitos no balcão. Eu me acomodei na cadeira acolchoada, ajustando-me no espaço apertado enquanto Samantha, elegante como sempre, sentava-se do outro lado da mesa. O cheiro de hambúrgueres grelhados e batatas fritas preenchia o ar, e, sem hesitar, fiz meu pedido: um mega combo com tudo o que tinha direito. Samantha, no entanto, pediu apenas um café preto.
— Só isso? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
Ela sorriu, segurando a xícara com elegância. — Estou sem fome.
Enquanto esperávamos pelos pedidos, uma ideia começou a se formar na minha mente. O nervosismo subiu como uma onda, mas respirei fundo. Samantha era a pessoa certa para isso — ou pelo menos parecia ser.
— Samantha, posso te pedir um favor? — perguntei, tentando parecer casual.
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
— Claro, Lily. Estou aberta a escutar.
Passei a mão nervosamente pela mesa de plástico, olhando para os meus dedos antes de encontrar os olhos dela.
— Você pode não contar ao meu pai sobre... o baseado?
Samantha arqueou uma sobrancelha, surpresa, mas manteve o tom descontraído.
— Tudo bem. Mas, sinceramente, acho que Doug não se importaria tanto assim.
Meus olhos se arregalaram, e eu quase ri de nervoso.
— Claro que ele iria se importar! Meu pai é super rígido com essas coisas.
Samantha riu suavemente, balançando a cabeça.
— Talvez hoje. Mas só para você saber, Doug nem sempre foi assim.
Inclinei-me na cadeira, intrigada.
— Como assim?
Ela deu um gole no café antes de continuar, um sorriso brincando em seus lábios.
— Bem, talvez ele não tenha te contado, mas eu e Doug nos conhecemos há muito tempo. Da época da faculdade, na verdade.
— Sério? — perguntei, surpresa.
— Sim. — Samantha sorriu, os olhos ficando distantes, como se ela estivesse se lembrando de algo especial. — E, olha, ele era bem diferente naquela época. Mais leve, divertido... e definitivamente mais liberal.
Eu quase engasguei.
— Mais liberal? Meu pai?
Samantha riu, claramente se divertindo com minha incredulidade.
— Você não imagina. Doug e eu éramos praticamente uma dupla dinâmica. As pessoas nos convidavam para agitar as festas.
— Não acredito nisso. — Ri, balançando a cabeça.
— É verdade. — Samantha apoiou o queixo na mão, o sorriso dela se alargando. — Uma vez, passamos três dias seguidos em uma república. Foram festas intermináveis, música alta, pessoas jogadas por todo canto. Era insano.
Eu ri, tentando imaginar meu pai, sempre tão sério e controlado, naquela situação.
— Não consigo imaginar ele assim.
Samantha riu também, os olhos brilhando de saudade. — Ele era. E, às vezes, até pior.
Enquanto ela falava, comecei a perceber que talvez houvesse muito sobre meu pai que eu não conhecia. O homem que me criou parecia uma versão completamente diferente do jovem de quem Samantha estava falando.
Sorri, pensativa. — Eu não sabia que você e meu pai se conheciam desde essa época.
— Pois é. — Samantha tomou outro gole de café, como se ponderasse o que dizer a seguir.
Fiquei olhando para ela por um momento, e uma pergunta surgiu antes que eu pudesse pensar demais sobre ela.
— Então... se você conheceu meu pai na faculdade, você também conheceu minha mãe?
O sorriso de Samantha vacilou por um segundo. Ela mordeu o lábio inferior, desviando o olhar, como se estivesse buscando as palavras certas. Então balançou a cabeça lentamente.
— Não, Lily. Eu saí da faculdade antes. Bem antes de ele conhecê-la.
A resposta foi direta, mas algo no tom dela deixou uma sensação estranha no ar. Samantha era sempre tão confiante, mas, naquele momento, parecia quase... cautelosa.
Fiquei quieta por um momento, absorvendo o que ela disse. Não queria pressioná-la, mas a maneira como ela mordeu o lábio e desviou o olhar me deixou intrigada.
— Entendi. — Respondi, finalmente, dando um pequeno sorriso.
Enquanto isso, meu mega combo chegou, e mergulhei nas batatas fritas, tentando aliviar a tensão. Mas, mesmo enquanto mastigava, Samantha, ficou me observando com um olhar gentil, e finalmente falou:
— Lily, mesmo eu não conhecendo sua mãe, sem dúvida ela foi uma pessoa maravilhosa.
Eu levantei os olhos para ela, ainda com a sensação de que sua declaração não fazia sentido. Como poderia alguém ser maravilhoso se abandonou uma criança? Ainda assim, mantive a expressão calma, esperando para ouvir o que mais ela tinha a dizer.
— Talvez — disse eu, hesitante, — mas o meu pai nunca falou muito sobre o assunto. E, para ser honesta, talvez seja porque ele não queria me magoar ainda mais.
Samantha franziu o cenho, parecendo confusa.
— Por que você acha isso?
Eu parei de mastigar, a comida agora esquecida enquanto as palavras pesadas saíam de mim. Olhei para ela, tentando controlar a emoção que estava se acumulando.
— Talvez porque a história não seja tão simples quanto a minha mãe só ter me abandonado quando nasci. Talvez ela nunca tenha realmente me desejado. Talvez eu tenha sido um erro para ela.
Samantha olhou-me com um olhar preocupado, como se tentasse absorver o peso do que eu estava dizendo. Ela respirou fundo, quase como se estivesse se preparando para uma resposta difícil.
— Lily, não pense assim. Sem dúvida, sua mãe deve ter tido um bom motivo para deixar você com Doug. Não podemos julgar sem saber o que se passava na vida dela.
Eu revirei os olhos, sentindo o amargo da frustração subindo na minha garganta.
— Um bom motivo? Qual seria um bom motivo para uma mãe abandonar a própria filha, Samantha? — Eu disse, a voz tremendo com a dor que não conseguia mais esconder.
Samantha não respondeu de imediato. Ela apenas me encarou, com um olhar triste, e então falou baixinho:
— Eu sinto muito, Lily.
Eu olhei para ela, mas o que realmente queria dizer não vinha das palavras que ela estava oferecendo. Era a dor que eu sentia, a dor de crescer sem uma mãe, de esperar anos e anos por algo que nunca veio. Meu rosto estava tenso, e eu quase podia sentir o peso do passado se arrastando dentro de mim.
— O que dói mais — comecei, minha voz um pouco mais baixa agora, como se cada palavra fosse um peso — é que a minha mãe nem sequer tentou me procurar. Uma única vez. Todos os aniversários, todos os momentos que eu achava que ela poderia se lembrar de mim, e nada. Nem uma ligação, nem uma carta, nada. Isso era doloroso, e não só para mim, mas para o meu pai também. Eu cresci vendo-o tentando preencher um espaço que não cabia a ele, e ele se esforçou tanto para ser tudo para mim.
Samantha permaneceu em silêncio por um momento, e pude ver o quanto ela sentia o que eu estava dizendo. Ela baixou os olhos, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas, mas nada parecia suficiente.
— Eu sinto muito por você, Lily — disse ela, a sinceridade estampada no rosto.
Eu balancei a cabeça, tentando não deixar que a emoção tomasse conta de mim.
— Não sinta, Samantha — respondi com uma calma forçada. — Você não tem culpa de nada. Aliás, eu te acho uma mãe incrível para o Samuel. Você é muito forte por passar pelo luto de perder o pai dele e ainda lidar com tudo sozinha.
Samantha olhou para mim, com os olhos um pouco marejados, mas com um sorriso suave.
— Eu não me vejo como forte e muito menos maravilhosa. Eu só estou fazendo a minha obrigação.
Eu sorri, mesmo que com um toque de melancolia.
— Bem, para mim, você é. E sabe, no final das contas, a minha mãe me deixou com uma pergunta que eu nunca vou saber a resposta.
Samantha me olhou, confusa, e fez uma leve pergunta, buscando compreender o que eu queria dizer.
— Qual pergunta?
Eu suspirei e dei uma pausa, como se estivesse esperando encontrar uma resposta que nunca viria.
— A pergunta que me atormenta desde que eu era pequena. Por que ela me deixou?
Essas palavras saíram de mim com uma sinceridade dolorosa, e ao dizê-las, percebi que talvez eu nunca realmente tivesse parado para questionar o quanto isso me afetava. Tudo o que eu tinha era a resposta que meu pai me deu — que ela se foi, por algum motivo que nem ele sabia explicar —, mas o vazio deixado por essa falta de explicação nunca se apagou.
Samantha, sem saber o que dizer, ficou em silêncio por um momento, tentando digerir a complexidade da situação. Eu sabia que não havia palavras que pudessem resolver o que estava em minha mente. A resposta que eu procurava talvez nunca viesse.
Enquanto o silêncio tomava conta da nossa mesa, Samantha não me olhou com pena, mas com compreensão. Algo mais profundo do que palavras poderia expressar. Ela sabia que algumas perguntas, às vezes, simplesmente não têm respostas.