CORINGA
Tem algo naquela menina...
Algo que eu não sei o que é.
Mas me prende. Me chama. Me tira do eixo.
Helena.
Ela é diferente. É tipo um silêncio no meio do caos. Uma p***a de calmaria que me irrita, mas me atrai ao mesmo tempo. Ela não me encara. Passa sempre de cabeça baixa, como quem pede pra ninguém notar. Mas eu notei. Desde a primeira vez. E quando eu boto o olho em algo, é meu. Nem que seja à força.
Ela tem medo de mim.
Eu vejo isso nos olhos dela.
E isso... me excita.
Quando ela me olha com aqueles olhos arregalados, cheios de lágrima, eu sinto um poder que me consome. É como se eu fosse Deus e demônio ao mesmo tempo. Mas não é só sobre isso.
É mais fundo.
Talvez porque eu reconheço nela o que um dia fui: puro. Fraco. Vítima.
E eu odeio isso! Odeio porque me faz lembrar. Lembrar de quando aquele desgraçado me tocava...
De quando eu era só um moleque fodido, tentando gritar pra ninguém.
Ver o medo dela...
É como ver meu próprio reflexo naquela época.
E isso me dá raiva. Muita. Raiva de mim. Dela. Do mundo.
Depois que ela saiu correndo, rasgada, chorando, com o braço roxo da minha força...
Eu fiquei ali, parado.
Com um buraco dentro do peito.
Fiz uma linha de pó, longa, branca como a pele dela. Cheirei tudo de uma vez, sem piscar.
Queria entorpecer tudo.
Calar o que gritava aqui dentro.
A porta abriu. Petra entrou.
A cara dele me irritava mais que o normal.
— Que foi, seu p***a? Tá me achando bonito agora? — falei seco, jogando whisky no copo.
Ele não riu. Nem se mexeu.
— Que c*****o tu fez com a mina, Coringa? - a voz dele era pesada, quase como de alguém decepcionado. - Ela saiu destruída daqui. Toda rasgada, chorando.
— Tá com inveja, é? Quer saber se ela era gostosa? - tentei manter a pose. A maldade. Mas eu sabia que tinha passado do ponto. Eu vi o jeito que ele me olhou. Com nojo.
— Tu perdeu a linha, mano. Achei que ia só dar um susto, um apavoro. Não que ia destruir a mina.
Destruir.
Essa palavra ecoou na minha mente.
— f**a-se! Eu já tô condenado mesmo. O inferno é meu destino final. Tu sabe disso. Eu não sou herói, nunca fui.
— Coringa... tu proibiu estupro aqui dentro, p***a! Como tu vai manter ordem se tu mesmo quebra tua própria lei? A galera vai achar que pode fazer o mesmo. Vai virar zona.
— Ninguém vai saber de p***a nenhuma! - falei firme. - A não ser que tu abra a boca. E aquela p*****a vai ficar calada. Ela sabe. Eu vi no olho dela: medo.
Coloquei a arma em cima da mesa.
Petra nem se mexeu.
— Tu que sabe... - respondeu com um olhar cheio de desprezo.
— Sai daqui antes que eu perca a linha contigo também, c*****o!
Ele saiu me xingando, me chamando de vacilão. E ele tava certo. Mas f**a-se.
Joguei o copo na parede.
O som do vidro estilhaçando pareceu menor que o barulho dentro da minha cabeça.
Dei um soco na parede. Forte.
A dor na mão era real. Pelo menos essa dor eu conseguia entender.
— Que merda você fez, Coringa?
Me olhei no espelho.
Vi um monstro.
Um reflexo do que fizeram comigo anos atrás.
Só que agora... eu era o algoz. Não mais a vítima.
Helena tinha tudo que eu perdi. Tudo que me tiraram. A p***a da inocência.
E eu roubei isso dela. Como roubaram de mim.
Me odeio por isso.
Mas não consigo parar de pensar nela.
No jeito frágil. Na forma como ela me olha.
Ela despertou algo que eu nem lembrava que existia dentro de mim.
E isso me destrói.
Saí do barraco sem olhar pra trás.
A camisa jogada no ombro.
A mente fervendo.
Subi na moto e acelerei sem destino.
Mas não importa pra onde eu vá...
O rosto dela vai comigo.
O quarto era pequeno, cheirava a mofo, cigarro barato e álcool barato.
Tudo era escuro, mas eu sabia onde estava.
Naquela casa maldita.
Ouvi o barulho da chave girando na porta.
Meu corpo todo gelou, mesmo dormindo.
Mesmo sonhando.
— "Fica quietinho aí, moleque." - a voz dele vinha arrastada, bêbada, nojenta. — "Hoje o jogo é nosso, tá ligado?"
Eu tinha uns oito anos.
O colchão era fino, as molas furavam minhas costas, eu tremia, mas não chorava mais tinha desaprendido.
Chorar não adiantava. Nunca adiantou.
Ele vinha até mim com aquele cheiro de podridão e mentiras.
A mão pesada, o toque doentio.
- "Você é meu preferido, sabia? Igual um presentinho."
Eu tentava gritar, mas no sonho a voz falhava.
Igual na vida real.
O pior era o depois.
Ficar ali, jogado.
Ouvindo a TV no volume alto, os gritos de futebol.
Enquanto eu sangrava por dentro.
No pesadelo, tudo se repetia.
Os toques.
As palavras.
A vergonha.
A dor.
A raiva.
- "Não conta pra sua mãe. Se contar, eu mato ela, ouviu?" - ele dizia, com aquele sorriso nojento, apertando meu rosto com força.
Acordei gritando.
O coração batendo tão forte que parecia que ia explodir no meu peito, o suor escorria pelas têmporas, as mãos tremiam.
A garrafa de whisky no chão, caída.
O cheiro de pólvora no ar, vindo da arma sobre a mesa.
Passei a mão nos olhos, era só um sonho.
Mentira.
Era uma lembrança.
O tipo de lembrança que nunca vai embora.
Levantei da cama e fui até o espelho.
Olhei meu reflexo.
Um homem feito. Forte. Temido, mas por dentro, ainda era aquele moleque acuado.
E talvez por isso eu tenha feito o que fiz com a Helena.
Talvez eu quisesse que alguém sentisse a mesma dor que eu carregava.
Ou talvez...
Talvez ela só tivesse aparecido na hora errada, com o olhar certo. Aquele olhar de inocência que eu odiei e desejei ao mesmo tempo.
Joguei um soco no espelho.
O vidro estourou.
O sangue escorreu.
Mas não doía o bastante.
Nada dói como aquilo.