Alana varria a varanda lateral quando ouviu Rosália, a empregada mais antiga da casa, resmungar perto do curral. O sol castigava a tarde com fúria, e o calor parecia ferver os pensamentos. Ela aproveitou a sombra de uma das colunas de pedra para descansar um instante, quando sentiu... aquele arrepio.
O som das botas ecoando sobre a madeira da varanda denunciou a presença que já a perturbava em sonhos e pesadelos. Dante.
— Pode deixar a vassoura, Alana — disse ele, com a voz arrastada e firme, como se tivesse o mundo na palma da mão.
Ela segurou o cabo com mais força, tentando disfarçar o tremor dos dedos.
— Estou quase terminando, senhor Dante.
— Eu disse... pode deixar.
Não era um pedido. Era uma ordem disfarçada de gentileza. Ela obedeceu, engolindo a contrariedade.
Dante sorriu de canto. Seus olhos escuros varreram o corpo dela como se fossem fogo. Mas havia algo mais naquele olhar — um desafio silencioso.
— Me acompanhe — disse ele.
— Para onde?
— Estou mandando você vir. Só isso já devia bastar.
O coração de Alana batia descompassado, mas seus pés obedeceram. Ele a guiou pelos corredores da casa até um dos cômodos antigos e raramente usados: a biblioteca. Ao trancar a porta atrás de si, o silêncio que se instalou foi mais ensurdecedor que qualquer grito.
Alana recuou instintivamente.
— Por que estamos aqui?
— Eu precisava entender o que você tem que... me tira a paz. — Ele se aproximou devagar, como um predador. — Desde o dia em que você chegou, algo em mim não se cala.
Ela tentou manter a voz firme:
— Talvez seja culpa. Você sabe o que fazem comigo aqui?
Dante parou. Por um segundo, o olhar dele oscilou entre fúria e desejo.
— Não. Mas vou saber.
Ela o encarou, desafiando. Aquele não era um homem fácil, mas ela não era mais uma menina ingênua.
— Seu pai me comprou como um objeto. Se você pensa que pode me usar também, está enganado.
Dante rosnou, se aproximando ainda mais, até que seus corpos quase se tocassem.
— Eu não uso o que me fascina. Eu tomo. — Seus dedos roçaram de leve o rosto dela, e Alana estremeceu.
Mas foi ela quem deu o passo para trás.
— Então talvez você nunca tenha o que deseja de verdade. Porque eu não sou de ninguém.
O orgulho dela, cravado como espinho, ardeu nele como uma ofensa.
Dante não insistiu. Sorriu, com raiva e desejo misturados.
— Ainda vamos ver isso.
Quando abriu a porta para sair, a tensão entre eles era como um laço prestes a se romper. Ou se apertar para sempre.
Alana saiu da biblioteca com os joelhos trêmulos, mas o que mais doía não era o medo. Era o fato de que uma parte dela... uma parte muito silenciosa e traiçoeira, desejava aquele toque. O olhar. A voz dele.
Correu para o quartinho nos fundos onde dormia e trancou a porta, sentando-se no chão com a respiração presa no peito. Sentia-se envergonhada por ter tremido diante de Dante, mas também estranhamente viva. Era uma confusão de sensações que nem ela sabia nomear.
Do lado de fora, o som da chuva começou a cair como um sussurro sobre o telhado. Lágrimas quentes escorreram de seus olhos, misturando raiva, vergonha e desejo. Ela odiava sentir isso. Odiava se permitir sonhar mesmo sabendo que naquele lugar não havia espaço para sonhos.
Na sala de jantar...
Dante servia-se de um copo de uísque. Seu Augusto entrou sem anunciar, olhando o filho de cima a baixo.
— Está se encantando pela menina? — perguntou, direto.
— Não é da sua conta — respondeu Dante, sem sequer virar o rosto.
— É sim. Aquela ali não é uma qualquer. Há coisas que você não sabe.
Dante largou o copo na mesa com força.
— E o senhor pretende me contar?
— Ainda não. — O velho sorriu com desdém. — Mas se você quiser mesmo brincar com fogo, lembre-se: fogo também destrói.
Dante o encarou, tentando decifrar aquela ameaça velada.
— Talvez eu esteja pronto pra me queimar.
Mais tarde naquela noite...
Alana estava deitada, virando-se de um lado para o outro no colchão fino. A porta rangeu. Ela se ergueu num pulo, o coração disparado.
Era Rosália.
— Alana, venha comigo. Agora.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ele mandou chamar.
— Quem?
— Dante.
O nome bastou para gelar sua espinha.
Ela hesitou, mas se levantou. As pernas m*l obedeciam. Rosália tentou tranquilizá-la:
— Seja firme. Mas cuidado. Ele é feito vento forte: se você resistir demais, ele te derruba. Se ceder de vez, ele te leva.
Alana seguiu Rosália até a antiga estufa, nos fundos da casa. Dante estava lá, sozinho, sob a luz amarelada do lampião. O calor da estufa fazia gotas de suor escorrerem por sua têmpora.
— Que lugar é esse? — ela perguntou, tentando soar firme.
— O único onde ninguém vai nos interromper.
Ela cruzou os braços, desafiadora.
— Vai tentar me seduzir de novo?
Dante sorriu, aproximando-se lentamente.
— Não preciso tentar.
A proximidade o fazia ainda mais perigoso. O cheiro dele, o olhar que queimava, a forma como o silêncio entre os dois parecia gritar.
— Eu queria te odiar — ela disse, num sussurro. — Queria odiar tudo em você.
— Então me odeie — ele respondeu, roçando os dedos no queixo dela. — Mas me sinta também.
Foi nesse instante que ele a beijou.
Não foi um beijo doce.
Foi voraz. Quente. Dominante.
O tipo de beijo que faz o tempo parar e os limites desabarem.
A mão de Dante segurou firme a cintura de Alana, puxando-a com um ímpeto animalesco, como se ela fosse sua desde sempre. Os lábios dele esmagaram os dela com uma mistura brutal de desejo e desespero. Não havia delicadeza, não havia pedidos — apenas a afirmação selvagem de um homem acostumado a tomar o que quer.
Alana tentou resistir. Os primeiros segundos foram de choque e negação. Sua mente gritava que aquilo era errado, perigoso, invasivo. Mas o corpo... o corpo traiu.
Traiu quando se arrepiou com o toque da mão dele nas suas costas.
Traiu quando os joelhos fraquejaram com o calor da boca dele.
Traiu quando seus próprios lábios corresponderam com igual fome.
Por um breve instante, ela se esqueceu do lugar onde estava. Esqueceu a sujeira do contrato, o medo, o nome do pai dele, as humilhações.
Era só ela. E ele.
Dois corpos em colisão.
Duas vontades em combustão.
Mas então... a realidade a atingiu como uma rajada de gelo.
Com toda a força que conseguiu reunir, Alana o empurrou, ofegante, os olhos arregalados de pavor e raiva.
— NÃO! — gritou.
Dante recuou, atordoado. O peito subia e descia rapidamente. Seus olhos estavam escuros, dilatados, famintos. Mas por trás daquela máscara de desejo, havia algo novo... confusão. Culpa?
— Você queria — ele murmurou, quase como uma desculpa, ou talvez uma pergunta que nem ele sabia responder.
— Eu NÃO sou um brinquedo! — ela rebateu, com a voz embargada. — Não importa o que seu pai tenha dito ou feito. Eu sou uma pessoa! Eu tenho escolha!
Dante permaneceu imóvel, engolindo em seco. Pela primeira vez, não sabia o que dizer. E ela aproveitou o silêncio para fugir, o coração disparado, o gosto amargo do beijo ainda nos lábios.
Naquela noite, Alana não dormiu.
O beijo queimava como um erro. Mas, no fundo do peito, havia algo ainda mais c***l: a lembrança da resposta do seu corpo.
A verdade mais assustadora de todas...
Era que uma parte dela havia desejado aquilo.
E essa parte, por menor que fosse, a fazia se odiar.
— Nunca mais faça isso!
— Você queria tanto quanto eu.
— Mas eu disse não!
Dante ficou em silêncio por alguns segundos, com a respiração ofegante.
— Eu não sou o monstro que você pensa, Alana.
Ela o encarou com os olhos cheios de lágrimas.
— Talvez não. Mas você vive entre monstros. E, até agora, não fez nada pra me tirar daqui.
Ela saiu, com o coração em pedaços, deixando-o sozinho na estufa, com a verdade latejando dentro do peito: ele estava se apaixonando.
E isso era o começo do caos.