No elevador, Kat confere a hora.
Devido ao horário, o portão do colégio já fechou. Ela resolve então mandar mensagem para a Isa. O esforço maior, contudo, era para se controlar. Suas mãos não paravam de tremer.
“Posso dormir na sua casa?”
Não demora e Isa responde:
“Pode sim, amiga, claro.”
“Chego em 10 minutos.”
“Te esperando.”
Enquanto Kat desce pelo elevador, Brad chega na portaria do prédio por meio das escadas. Ainda sem fôlego, o rapaz grita:
— Princesa, não jogue fora nosso amor por coisa que aquela vagabunda inventou.
— Brad, eu fiz de tudo para te amar, mas para que? Hein? Para você apunhalar meu coração?! Eu não sei se é verdade ou não, mas não vou viver nessa dúvida, não vou sofrer por você. Já perdi muito nessa vida. Acho que só o Peter me amou de verdade, não importa se nunca encontrarei alguém que me ame como ele me amou — ela franze a testa. — Só sei que com você eu não fico mais. Me esquece!
Brad, em uma tentativa de fazê-la esquecer tudo e se entregar, a puxa pela cintura e dá um beijo apaixonado na mulher de sua vida.
— Eu te amo de verdade — ele ofega.
Brad chora e a beija de novo.
— Por favor, Brad, não me faça sofrer mais, eu não aguento.
— Kat...
— Me deixa ir.
— Por favor, Kat, eu nunca encostei nela…
O táxi chega, o motorista desce, abre o porta-malas, pega a mala de Kat e coloca dentro.
— Não vai... por favor.
Ela abre a porta do táxi e entra. Não possui coragem o bastante para olhar a face do rapaz.
— Adeus, Brad — ela bate à porta e, como se fosse a cena de um drama, começa a chover.
O carro começa a se deslocar. Brad corre até o ponto em que consegue, mas não a detém.
— Kat! — ele grita com a voz falha. — Volta!
Ele perde a força das pernas e, quando se dá conta, está de joelhos no chão. Não se importa com a chuva caindo sobre ele. Não. Tudo o que importava partiu há poucos segundos, o deixando à mercê da solidão. O porteiro, vendo toda aquela cena, vai até o rapaz.
— Ei, senhor Wilson, vem, vamos para dentro — ele sugere. — Quando ela esfriar a cabeça, vocês conversam.
Sem forças para responder, apenas sacode a cabeça e se ergue. Volta para o apartamento dele, liga diversas vezes para a Kat, mas ela não atende. A última ligação cai na caixa postal.
— Kat, não faça isso comigo, meu amor — ele persiste. — Volta para mim acredita. Eu tenho certeza de que eu não encostei nela.
Ele começa a quebrar tudo o que tem no apartamento enquanto as lágrimas não cessam.
— Eu não posso ter feito isso, eu não poderia ter ficado com ela! — seus gritos miram basicamente as paredes de cada lado. — Eu amo a Kat — justifica para o nada.
Enquanto isso, Kat chega à casa de Isabelly.
— Ei, amiga, o que aconteceu? — é a pergunta de Isa assim que ela abre o portão.
— O Colégio já está fechado, amanhã volto para lá.
— Não importa, quero saber o motivo de você estar chorando.
— O Brad.... ele... ele me traiu — soluça a menina. — Depois de tudo...
— Tem certeza, amiga? Não foi golpe de piriguete?
Kat respira fundo. Sabe das complicações em volta do assunto e o desvia tão logo:
— É complicado, mas nunca imaginei que ele iria fazer isso comigo, dói tanto, Isa... — Ela funga. — Agora eu estou sozinha de vez.
— Ei... Eu estou aqui, a Eve, também, sempre estaremos com você — o sorriso de Isa é acolhedor. — A Eve machucou o pé e está em casa, mas amanhã estaremos juntas.
— Obrigada.
— Não por isso, amiga, vem, chora e coloca tudo para fora.
É o que Kat faz até adormecer. Não que esse momento tivesse chegado depressa. Como a dor que sentia, o sono foi lento, sorrateiro, e entregou tudo, menos o descanso que precisava.
Enquanto isso, no morro em que Evelyn mora...
— Meu Deus, por que isso aconteceu comigo? — se martiriza a garota. Evelyn está em choque, andando de um lado a outro. — Já perdi meu pai, agora matei um homem...
Desnorteada, resolve ligar para Isa e desviar os olhos do que protagonizou há pouco.
— Ei, Eve — Isa atende toda empolgada.
— Isa — Evelyn diz com voz de choro.
— O que houve? – Isa pergunta preocupada.
— Eu o matei.... Ele tentou... Ah Isa...
Evelyn já havia contado para Isa sobre os olhares de seu padrasto, que ela se sentia desconfortável e que fazia de tudo para que não ficassem a sós, ainda que sempre ele tentasse.
— Oh, minha linda, calma. A Kat está aqui, custou a dormir... mas vou dar um jeito de ir aí.
— Não precisa vir, só queria colocar isso pra fora.
— E o dono do morro?
— Ele me defendeu, acredita? — Ela ri acidamente. — Disse que amanhã vai expor o Antônio e vai falar para ninguém mexer comigo.
— Então tudo vai ficar bem.
— Minha mãe...
— Ela vai te entender, senão, você vem morar comigo.
— Te amo, amiga.
— Eu também te amo.
Evelyn desliga e vai falar com a mãe. Isa fica pensando como a amiga está, no que aconteceu com Kat, tudo em uma única noite. No fim das contas, também custou a dormir.
No dia seguinte, era sábado. Devido a tudo o que ocorreu, Kat não quis mais ir à boate. Muito menos a Eve tinha cabeça. Ambas optaram por ficar em casa. Eve teve que se apresentar perante a comunidade do morro ao lado do dono do morro, Chuck. Brad ligou para Kat o dia inteiro. Deixava muitas mensagens para ela, mas a garota desligava o celular com frequência.
Já no domingo, a amiga de Kat sugere comprar outro chip e colocar em seu nome para que Brad não descobrisse.
— Obrigada, não sei como te agradecer por tudo que está fazendo por mim.
— Não precisa agradecer por nada. Vamos, você ficar aqui não te fará bem.
— E se ele me ver na rua?
— Colocamos ele para correr — diz com ironia.
Elas saem. Isa tenta de tudo para distrair Kat. O condomínio em que a Isa morava era de luxo. Ali moravam alguns amigos do colégio, então, vez ou outra elas esbarravam com algum colega de lá. As duas vão até uma banca de jornal e compram um chip novo para Kat. Quando estão voltando, Kat vê de longe Brad andando de cabeça baixa, todo acabado, roupa amassada, olheira, sem seu inseparável boné… o cabelo estava bagunçado e os olhos vermelhos.
— Isa, é ele.
— Então vamos acelerar que ele não viu a gente ainda.
Elas aceleram os passos, mas quando estão quase na frente do condomínio...
— Kat! – Brad grita. — Amor, me escute, por favor!