O bar estava movimentado e a balbúrdia era quase tangível. Peter segue para o local de encontro, o ponto mais distante do estabelecimento. Vislumbra Théo e se reúne com ele.
— Até que enfim — reclama Théo, vendo o amigo se sentar.
— Desculpa aí, precisei passar em um lugar, primeiro – Peter não o encara quando diz.
— Você foi vê-la, não foi? – Théo arqueia uma sobrancelha.
Peter olha para todas as direções possíveis em questão de segundos. Flexiona os dedos sobre a mesa, porém, não foi capaz de negar o óbvio:
— Ahhh, cara, você sabe que me preocupo com ela – resmunga Peter, envergonhado.
— Eu sei e não me importaria se você se casasse com ela, o problema é meu pai e essa merda de casamento – Théo retruca.
— O que vamos fazer? — Os punhos de Peter se fecham sobre a mesa. — Eu não quero imaginar aquele nojento encostando nela.
— Eu pensei em uma coisa, mas...
— Mas o que, Théo?
— A gente ficará sem vê-la para sempre – a voz de Théo soa murmurada.
Peter sonda o olhar do colega. Aquilo não era brincadeira. A seriedade da situação fez seus olhos encherem d'água. Viver distante de Katerina com certeza resultaria na pior das dores, independente de qual fosse o motivo para tal. Por outro lado, ela estaria bem. Seria liberta.
Não deveria ficar feliz por isso?
— Se for para livrá-la desse tormento, conta comigo – Peter busca manter a firmeza na voz, porém, não disfarça a chateação. — Se for pelo bem da Kat, acho que vale todas as coisas.
— Eu também acho – responde Theodoro com um suspiro. — Ela só teria que topar.
— Qual é o plano, afinal? – Peter o questiona.
— Pode ser meio radical, mas pensei em forjar a morte dela.
Automaticamente Peter entende as consequências desse plano e abaixa a cabeça.
— Daqui há um mês — explica Théo —, a gente tem que arrumar um corpo parecido com o dela e aí...
— Espera, um mês?! — interrompe Peter, franzindo o cenho.
— Sim. Preciso tirar sangue dela para jogar na cena e testar positivo e vou pagar o legista para confirmar que se trata da minha irmã. — Nesse instante, foi como se uma sombra se projetasse tanto na voz quanto nos olhos de Théo. Ele engole seco. — Depois vou matá-lo, pois não quero pontas soltas.
Peter tamborila os dedos na mesa e se mantém em silêncio por um longo minuto antes de finalmente dizer:
— Está certo. Irei te ajudar, mas queria te pedir uma coisa.
— Fala.
— Me deixe passar esse mês com ela? – Peter solta de uma vez.
— E o que vou falar para o meu pai? – Théo pontua o maior problema nesse plano.
— Fala que Kat vai aceitar o acordo, mas que ela quer ficar sozinha por um mês para poder se preparar emocionalmente. Então, assim que ela voltar, ela se casa. E um dia antes do casório, nós dois colocamos o plano em ação.
Foi como se o olhar semicerrado de Théo se perdesse em alguma parte da face do amigo.
— Você sabe que isso vai fazer vocês dois sofrerem mais depois – ele alerta.
— Eu preciso disso – responde Peter.
— Ok. E vocês vão para onde?
— Paris, acho. Ela sempre quis ir para lá.
— Está bem, mas você tem que trazer ela de volta, se não, meu pai vai fazer todos irem atrás dela.
— Eu prometo – Peter oferece a mão para Théo.
— Vou falar com ela e com meu pai hoje. Amanhã vocês vão. Você vai como guarda costas dela. — Théo estende sua palma e sela o acordo entre eles.
“Linda, amanhã iremos para Paris”.
Kat vê a mensagem e responde no mesmo instante.
“Como?”
“Um mês, eu e você e mais ninguém”.
“Sério?”
“Acabei de convencer seu irmão”.
Embasbacada, Kat lê aquela mensagem e liga para Peter logo em seguida
— Como assim? — pergunta, assim que escuta o som de que ele atendeu.
— Seu irmão sabe da gente, linda.
— Como ele nunca me falou nada?
— Ele é esperto — Peter ri.
— Verdade.
— Ele vai falar para o seu pai que te convenceu a se casar, mas você quer um mês para se preparar. Depois te trago de volta e aí teremos outro plano.
— Que seria…?
— Amanhã eu te conto. Vou como seu guarda costas.
— Tudo bem, eu te amo.
— Também te amo.
Theodoro chega em casa e respira fundo ao parar no corredor que dá direto no escritório do pai. Esforçou-se para colocar os nervos no lugar. Sua mente tinha de estar lúcida para fazer o que pretendia. Não havia espaço para enganos, tinha de ser claro e focado ou tudo se perderia para sempre.
— Pai, quero falar com você – Théo diz assim que entra.
O homem, que fazia algumas anotações sobre um caderno, enquanto se encontrava sentado atrás de uma longa mesa de madeira, responde no tom mais seco possível:
— Fala.
— Consegui convencer a Kat a se casar – responde Théo de uma só vez.
O pulso do pai se interrompe e ele ergue seus olhos frios para o filho.
— Muito bem.
— Mas tem uma condição — acrescenta Théo.
— Estava demorando... o que é? – Thomaz entrelaça suas mãos sobre o tampo.
— Ela quer um mês para conhecer Paris e, quando ela retornar, vai se casar.
— Sem nenhum problema? – Thomaz não crê que ela iria se casar sem ser forçada.
— Sim — a palavra sai tensa, mas Théo torce para que isso tenha passado despercebido.
— Tudo bem — Thomaz respira fundo. — Arrume um segurança para ir com ela – ordena o homem, desconectando suas mãos e voltando a atenção para a atividade que exercia.
— Vou mandar o Peter. Confio nele.
— É um bom segurança e ela confia no sujeito.
— Sim. E ela vai amanhã. Com sua licença – Théo faz um aceno com a cabeça e vira para a porta, indo em direção à mesma.
—THEODORO.
Ele interrompe os passos. Sente os cabelos dos braços se eriçarem.
— Sim? — Théo se vira mais uma vez para o pai.
— Um mês, nem um dia a mais. Irei marcar o casamento.
— Ah. Tudo bem, pai.
Théo espera até que a porta do escritório se feche atrás de si para voltar a respirar normalmente. Com um sorriso largo no rosto, vai até o quarto de Kat.
— Pequena...
— Oi, grandão – Kat sorri sobre a cama.
— Vejo que já ficou sabendo – comenta Théo. Ele ama a irmã e sua felicidade o alegra.
— Muito obrigada – ela se ergue da cama para abraçá-lo e beijar seu rosto. — Há quanto tempo você sabe?
— Desde sua festa, vocês não paravam de trocar olhares. Fora que toda vez que chega um rapaz perto de você, ele fecha a cara – Théo ri.
Kat cai na gargalhada.
— Você o ama?
— Sim – ela confirma.
— Bom, fico feliz. Por outro lado, tenho uma coisa pra dizer, Kat...
O sorriso de outrora começa a desaparecer da face de Katerina. Ela se afasta alguns passos. Havia perguntas em seus olhos, mas que ela de repente não teve voz para proferir.
— Então — Théo passa as mãos nos cabelos. — Quando você voltar, irá embora e nunca mais poderá voltar. Você não poderá vê-lo nunca mais. Isso é uma coisa que não dá pra evitar.
Katerina meneia a cabeça ao passo que lágrimas empossam seus olhos.
— Como você vem todo sorridente pra mim e depois me joga esse tipo de coisa? É uma piada? Porque não achei graça.
— Ele quis se despedir de você dessa forma – Théo suspira.
Os olhares dos irmãos se sondaram por algum tempo, como se continuassem a conversa pelo mero contato visual. Katerina segurou as lágrimas, e dessa vez, emitiu sua voz.
— Tudo bem — Kat murmura. — Eu só preciso tê-lo, mas vou aproveitar cada instante.
— Não comente nem com a Penny – Théo pede.
— Tudo bem. — Kat diz e, no mesmo instante, alguém bate na porta. — ENTRA!
— Voltei, amiga, oi, Théo. – Penny ruboriza ao vê-lo.
Assim que Théo se ausenta, ambas as meninas conversam sobre diversos assuntos. Penny queria distrair Kat de seu sofrimento. Portanto, os assuntos fluíram desde o dia em que Penny perdeu seu primeiro dente de leite ao dia em que Katerina fugiu do cachorro do vizinho. No entanto, o assunto principal não demorou a surgir:
— Vi o Pet, ele disse que você vai pra Paris – comenta Penny.
— Sim. Por um mês. – Kat explica.
— Eu não posso ir, mas queria estar lá com você.
— Eu sei, amiga, ele vai comigo para cuidar de mim. Depois vou para a forca — o tom de voz de Kat esmorece.
— Vai mesmo se casar?
— Não tenho escolha.
— Então aproveite Paris — diz Penny, de repente segurando a amiga pelos braços e encarando fixamente. — Encontre um amor e viva seu mês como se fosse o último.
“Como se fosse o último”, Katerina reflete com melancolia.
— Eu vou, amiga. É uma promessa.