Damian
No momento em que Julian me contou sobre as ameaças de Giovanni Barrone contra a Elegance, soube que precisava intervir pessoalmente. Sr. Salva Saldano pode parecer inofensivo no grande esquema das coisas — exceto quando está na mesa de pôquer, onde já conseguiu enganar a mim, Romero e até meu pai mais vezes do que me orgulho de admitir.
Sei fazer contas, mas ele é uma pessoa conhecida e, mais importante, respeitada nesse bairro. E está sob minha proteção — quer ele saiba disso ou não.
Entro na Elegance esperando encontrar o rosto envelhecido de Sr. Salva e ouvir sua risada rouca. O que não estou preparado o
é para a visão que me espera atrás do balcão.
Ela está ali, de pé, e por um instante esqueço como respirar. Cabelos escuros e ondulados caem em cascata sobre os ombros, emoldurando um rosto digno de lançar mil navios — ou de iniciar uma guerra entre Famílias. Ela é uma maldita Helena de Troia. Seus olhos, profundos e intensos, me prendem, prometendo segredos que anseio desvendar. E os lábios... cheios, convidativos, quase atrevidos. Imploram para serem beijados.
Ela tem curvas nos lugares certos, e seu corpo é uma ampulheta viva que me faz esquecer o motivo pelo qual vim até aqui. Quando fala, me dando as boas-vindas, sua voz é como mel quente — doce, envolvente, com uma firmeza que não combina com sua aparência delicada. Preciso reunir todo o autocontrole que tenho para não deixar transparecer o efeito que ela tem em mim.
Apresento-me, e vejo o reconhecimento surgir em seus olhos. Ela sabe quem eu sou — o que represento. Mas não há medo ali. Apenas respeito... e algo mais. Algo que me acende por dentro.
Enquanto me conduz até a área de provas, não consigo deixar de notar o jeito como seus quadris se movem. Ela caminha com elegância e confiança, como quem conhece o peso do próprio corpo e o utiliza com maestria. Quando começa a tirar minhas medidas, cada toque dela é uma tortura doce. Seu perfume — uma mistura inebriante de gardênia, coco e baunilha — me envolve e me deixa tonto.
Flerto. Claro que flerto. E o modo como ela cora, o leve tremor nos dedos quando me toca... deixa claro que a atração é mútua. A conversa entre nós flui fácil, mas são os silêncios que falam mais — carregados, densos, cheios de promessas não ditas.
— Pode me chamar de Helô — diz ela, quase num sussurro, como se estivesse me oferecendo uma chave para o seu mundo.
Guardo o nome na língua como um tesouro, saboreando-o. Imaginando como ele soaria em momentos mais íntimos.
No espelho, admiro o trabalho que ela fez com o terno — realçando meus traços com alguns alfinetes e pregas, como se tivesse me esculpido. É uma artesã de verdade. Uma artista. E eu estou impressionado.
Sair dali é mais difícil do que deveria. Pago caro pelo terno, de propósito. Uma desculpa esfarrapada para voltar logo. Mas a verdade é que minha mente está repleta de olhos escuros e mãos delicadas.
Preciso vê-la de novo. Não só por causa de Giovanni. Tem algo em Helô ... algo que me prendeu.
Quando entro no carro, Carlo já liga o motor. Meu telefone vibra. Atendo sem nem olhar quem é.
— Lucchese.
— Don Damian — diz uma voz nervosa. — Temos um problema com a remessa nas docas...
— Cuide disso — corto, sem paciência. — É para isso que te pago. Se não consegue lidar com uma entrega simples, talvez eu precise de alguém que consiga.
— Não, senhor, claro que não. É só que...
Carlo vira-se no banco, com urgência nos olhos. Faço um gesto brusco, irritada.
— Don Damian — sibila ele. — Giovanni Barrone acabou de entrar na Elegance.
Meu sangue gela.
Helô.
— Depois falamos — digo, desligando sem esperar resposta. — Vira o carro. Agora!
Carlo obedece com um guincho de pneus. Assim que paramos em frente à loja, salto do carro antes mesmo de ele parar por completo. Corro.
Giovanni é um lunático, e se ele estiver lá por causa da taxa de proteção...
Minha mão vai direto para a arma no coldre sob o casaco. A adrenalina me consome.
Um grito corta o ar. Puro terror.
Arrebento a porta e invado o local. A cena diante de mim congela o mundo ao redor.
Giovanni segura Helô contra a parede, dedos cravados em seu braço, olhos cheios de desprezo.
— Acha que pode lutar comigo, garotinha? Você não é nada.
Minha visão se estreita. Minha arma está em punho antes que eu perceba. A voz que sai de mim é gelada e letal.
— Solte-a, Giovanni.
Ele se vira. Os olhos se arregalam ao me ver, mas os de Helô é que me atingem. O lábio cortado, sangue escorrendo, a bochecha inchada e roxa.
Engatilho a arma.
— Esse não é seu território, Lucchese — ele rosna.
Sorrio, sem humor. — Talvez não. Mas agora é problema meu.
— Você não pode chegar aqui e...
— Deixe. Ela. Ir. Agora.
O silêncio é um fio esticado. Giovanni recua, largando Helô.
— Isso não acabou, Heloísa — cospe. — Agora você me deve o dobro.
— Cai fora — ordeno, arma ainda em punho.
Ele sai furioso, batendo a porta. Helô escorrega até o chão. Guardo a arma e corro até ela.
— Você está bem?
Ela assente, lágrimas escorrendo.
— Eu pensei que ele ia...
— Eu sei.
Quero matá-lo. Mas um Don não mata outro sem consequências.
Estendo a mão. — Vamos levantar você.
Ela pega minha mão, os dedos trêmulos. Levanta-se e pega um espelho. Arfa ao se ver.
— Não posso deixar Sophia me ver assim — murmura.
— Sophia?
— Minha filha.
Olho para suas mãos — sem aliança. Interessante.
Tomo uma decisão ali.
— Eu vou ficar. Não confio que ele vá embora para sempre. E você precisa de proteção.
— Damian...
— Por favor. Me deixe fazer isso. Pela minha paz de espírito.
Ela hesita, depois assente. — Obrigada, Don Lucchese. Eu... eu agradeço.
— Me chame de Damian. Se posso te chamar de Helô, é justo.
Ela sorri, mas estremece. Meu maxilar se contrai.
— Deixe-me fazer algumas ligações.
Ligo para Julian. — Cancele tudo. Hoje não posso. Não, não pode esperar.
Durante o dia, atendo ligações, dou ordens, ameaço e negocio. Mas meus olhos sempre voltam para Helô.
Às 3h30, o sino toca. Sr. Salva entra com uma menina loira de olhos azuis e mochila nas costas. Não deve ter mais de nove anos.
— Don Lucchese! Eu... não esperava...
A menina para e me encara. — Quem é você?
Levanto uma sobrancelha. — Damian. Amigo da sua mãe. E você deve ser Sophia.
— Mamãe não tem amigos como você — ela diz, séria.
— Sophia! — Helô chama, nervosa. — Seja educada. Damian está me ajudando.
Sophia nota os machucados. — O que aconteceu?
— Só um acidente — mente Helô. — Me distraí na oficina.
Sophia não acredita. Vira-se para mim. — Você salvou minha mãe?
— Sim — digo, simples.
Ela assente, satisfeita. Essa garotinha tem personalidade.
— Isso merece uma comemoração — digo. — Jantar. Por minha conta.
— Don Lucchese, isso é... — Sr. Salva tenta.
— Me chame de Damian. E aceite.
— Bella Notte?! — exclama Sophia, empolgada. — Dizem que a comida lá é incrível!
— Como você sabe disso?! — pergunta Sr. Salva, rindo.
— Leio as avaliações do Google!
Rio. — Está decidido.
Saio e falo com Carlo. — Reserva no Bella Notte. Quatro pessoas. Hoje.
— Chefe, eles vivem lotados...
— Não me importa. Faça acontecer.
Depois ligo para Romero. — Coloque o Julian na linha. Precisamos cobrar aquele favor com o Don De Luca.
— Tem certeza, chefe?
— Parece que eu gaguejei?
Logo Julian atende. — Don Damian, com todo o respeito, esse favor...
— Não me importa. Quero segurança na Elegance. Hoje.
— Elegance? — ele repete. Romero silencia.
E eu sorrio, porque até eles entenderam:
Helô agora é prioridade.