Capítulo 1
Heloísa
Aliso o tecido sobre os ombros largos de Julian, meus dedos trabalhando com precisão há muito praticada. A lã preta e rica cai com perfeição, moldando-se ao corpo dele — uma prova silenciosa dos padrões impecáveis da Elegance, e do legado que herdamos. Ao meu lado, está meu avô, Salvador Saldano. — também conhecido como Sr. Salva — com seus modestos 1,65m praticamente vibrando de energia, apesar da idade avançada.
— Julian, meu rapaz — diz ele, o rosto enrugado se contorcendo num sorriso travesso — você vai arrasar no funeral. Bem, não literalmente. O coitado do Valentino já cuidou dessa parte.
Lanço um olhar de advertência para Sr. Salva, mas Juliano Guilhermino — Julian — apenas ri, os cabelos grisalhos brilhando sob a luz enquanto ele balança a cabeça.
— Cala a boca, seu velho p****e. Romero manda lembranças.
— Diga a ele que ainda estou esperando aquela revanche da última noite de pôquer — brinca Sr. Salva, piscando para mim.
Não consigo conter o sorriso. Apesar da idade, o charme do Sr. Salva permanece intacto. Os homens da vizinhança o respeitam não apenas por seu talento com a agulha e a linha, mas pela forma como sempre tratou todos com dignidade — independentemente de sobrenomes ou lealdades.
— Como está se sentindo, Sr. Guilhermino? — pergunto, voltando à formalidade com gentileza.
Julian dá de ombros enquanto admira seu reflexo no espelho triplo.
— Como um sonho, Heloísa. Seu avô te ensinou bem. — Ele sorri. — Você tem talento, menina.
Sr. Salva sorri orgulhoso e dá um tapinha no meu braço.
— Igualzinho à mãe dela. Ah, Sher... Valentino sempre teve bom gosto pra música e pra mulher.
Sinto uma pontada no peito ao ouvir a menção à minha mãe, mas engulo a emoção.
— Vamos verificar o comprimento da manga — murmuro, alcançando o punho de Julian.
Nesse instante, o sino da loja toca. Viro-me, esperando ver a Sra. Rossi, mas quem entra é Giovanni Barrone, e sua presença preenche o ambiente como uma tempestade prestes a explodir.
— Don Barrone — diz Sr. Salva, com a voz perdendo o tom leve. — O que podemos fazer por você?
Os olhos de Giovanni se estreitam ao encontrar Julian.
— Pensei que te encontraria aqui, Guilhermino. Don Lucchese mandou seu cachorrinho prestar homenagens?
Julian se tensa sob minhas mãos.
— Agora, Giovanni — ele começa, mas me adianto.
— Don Barrone — digo, firme, colocando-me entre os dois — estamos no meio de uma prova. Se quiser marcar um horário, posso…
— Guarde isso, Heloísa — corta ele.
Sinto a mão de Sr. Salva no meu ombro, tentando me conter.
— Agora, Giovanni — diz meu avô, com a voz calma, mas com um tom de aço que raramente usa — seu pai sempre foi bem-vindo aqui. E você também. Mas temos regras. Nada de negócios na loja. Se quiser conversar com Julian, faça isso lá fora.
Giovanni sorri, irônico.
— Você acha que estou aqui por causa do Julian? Velho, sua mente corre mais do que o seu cabelo.
Sinto o sangue subir ao rosto. Me afasto da mão de Sr. Salva e dou um passo à frente, a raiva queimando sob a pele.
— Como ousa falar com ele assim?
Ele me encara de cima, com seus 1,85m de presença ameaçadora. Os olhos cinzentos e frios contrastam com a aparência de seu pai. Giovanni Barrone, com pouco mais de trinta anos, é temido por sua crueldade — um abismo em relação à compaixão de Rogério.
— Cuidado, garotinha — ele diz, a voz baixa e cortante. — Você está falando com o novo Don agora.
— Heloísa — Sr. Salva adverte, mas estou tomada demais pela fúria.
— Seja ele quem for, não vai desrespeitar meu avô aqui dentro — digo, encarando-o.
Giovanni estreita os olhos.
— Engraçado você mencionar a loja — diz ele, calmo demais. — Porque é por isso que estou aqui. Está na hora da Elegance começar a pagar por proteção, como todo mundo.
Sr. Salva toca meu braço de novo, tentando me acalmar.
— Agora, Giovanni, você sabe que não é assim que funciona. Seu pai entendia...
— Meu pai — ele cospe a palavra — está morto. E os acordos morreram com ele.
— Isso não é verdade — insiste Sr. Salva. — A Elegance trabalha com toda a La Familia. Não tomamos partido, não causamos problemas. Em troca, somos deixados em paz.
— Paz? — Giovanni zomba. — Você quer dizer privilégio. Esses dias acabaram, velho.
Posso ver Sr. Salva lutando por uma saída diplomática. Mas Giovanni não está aqui para conversar — ele quer mostrar poder. Quer nos esmagar.
— Seu pai respeitava o que fazemos aqui — digo, tentando manter a voz firme. — Para a comunidade. Para todos.
— Meu pai era fraco — rosna Giovanni. — Eu não sou. Aprendam isso rápido, ou essa lojinha pode virar escombros.
Sr. Salva se endireita, com os olhos acesos de desafio.
— Não vamos pagar proteção, Giovanni. Nunca fizemos isso, e você sabe.
O silêncio cai como uma lâmina. Giovanni avança e, sem aviso, desfere um soco no queixo de Sr. Salva. Meu avô cambaleia, caindo pesadamente.
— NÃO! — grito, indo para cima de Giovanni, mas ele me agarra pelos ombros e me joga contra a parede.
Minha cabeça bate com força. O ar escapa dos meus pulmões. O rosto dele paira sobre o meu, olhos em chamas.
— Acha que é especial, garota? Acima da lei?
Um clique. Arma engatilhada.
— Chega, Giovanni — diz Julian, a voz como uma lâmina afiada. — Afaste-se. Agora.
Giovanni congela. Julian está com a arma apontada para ele.
— Aqui é território neutro — continua ele. — Todos conhecem as regras. Afaste-se da moça.
Giovanni me solta e dá um passo atrás. Minhas pernas fraquejam. Sr. Salva está no chão. Julian o ajuda a levantar.
— Tudo bem — digo, ofegante. — Nós… vamos dar o dinheiro.
— Heloísa! — Sr. Salva protesta.
— Só nos dê alguns dias — insisto, encarando Giovanni.
Um sorriso c***l aparece.
— Vinte mil. Em dinheiro. Até terça-feira.
Meu coração despenca.
— Isso é impossível — começo, mas ele me corta:
— Não pra mim. Pra você? Melhor descobrir como. Ou da próxima vez, não serei tão gentil.
Ele olha para Sr. Salva, depois para Julian. Em seguida, se vira e sai da loja, o sino tocando com ironia.
Assim que a porta se fecha, minhas pernas cedem. Deslizo pela parede, sentindo o chão fugir debaixo de mim.
— Heloísa, querida... você está bem? — pergunta Sr. Salva, ajoelhando-se ao meu lado.
Assinto, tonta. Mas meu coração bate como um tambor. Vinte mil dólares. Em três dias.
Julian cospe no chão, furioso.
— Aquele verme... vai destruir tudo. Sem honra, sem regras. Isso vai acabar em guerra.
Sr. Salva cai pesadamente numa cadeira, parecendo mais velho do que nunca. Esfrega o maxilar inchado.
— Os tempos estão mudando — murmura.
— Isso não está certo — diz Julian, guardando a arma. — O Don Lucchese precisa saber disso.
Eu me levanto, cambaleando.
— Precisamos terminar o terno, Sr. Guilhermino.
— Heloísa , querida... esqueça isso. Você precisa de descanso.
— Não — digo, firme. — Por favor. Deixe-me terminar.
Julian troca um olhar com Sr. Salva, que acena levemente.
Volto ao trabalho com as mãos trêmulas. O silêncio da loja é denso, e a paz de minutos atrás parece um sonho distante. Cada ponto que Carlo, cada dobra que ajusto, é um fio me segurando no presente.
— Pronto — digo enfim. — Tudo estará pronto até quinta-feira.
Julian assente, vestindo-se em silêncio. Enquanto ele e Sr. Salva conversam baixinho, penso apenas no tique-taque do relógio.
Terça-feira está chegando.
E eu não sei como vamos sobreviver a ela.
Tento me livrar do efeito que ele teve sobre mim, mas é inútil. Mesmo de volta ao trabalho, cercada por tecidos e costuras, sua presença ainda me persegue como um perfume persistente. Repasso nossa interação repetidas vezes, perguntando a mim mesma quando verei Don Damian Lucchese novamente — e o que acontecerá quando esse momento chegar.
O sino da porta toca outra vez, fazendo meu coração disparar. Instintivamente, ergo os olhos, cheia de esperança, esperando ver Don Lucchese. Mas minha expectativa se desfaz no mesmo instante em que Giovanni entra, com os olhos brilhando de malícia e os lábios curvados num sorriso venenoso.
— Ora, ora — ele diz devagar, os dedos deslizando por uma arara de ternos como se escolhesse sua próxima vítima. — Se não é a pequena Heloísa. Sozinha hoje?
Engulo em seco, forçando firmeza na voz.
— O que posso fazer por você, Don Barrone?
Ele ri, mas o som é vazio, cortante.
— Ah, querida... acho que você sabe muito bem por que estou aqui. — Ele pega uma tesoura de alfaiate e a examina como se fosse uma arma. — Seria uma pena se algo acontecesse a essas mãos talentosas.
Minhas mãos se cerram involuntariamente ao lado do corpo, em uma mistura de medo e raiva.
— Eu... tenho parte do dinheiro pra você — digo, odiando o leve tremor em minha voz.
Giovanni arqueia as sobrancelhas, simulando surpresa.
— Parte? Eu pedi vinte mil. Todos eles. Cada centavo.
Respiro fundo, tentando manter a compostura.
— Eu... só consegui doze mil até agora.
O rosto dele se fecha em um instante, a expressão se tornando gélida.
— Doze? Eu disse vinte, sua i*****l.
Vinte mil.
Eu queria desesperadamente que Sr. Salva estivesse por perto. Ou até mesmo Don Lucchese. Qualquer um que pudesse servir de barreira entre mim e a raiva fervente que se aproxima nos olhos de Giovanni.
— Eu não tenho tudo — repito, com a voz quase um sussurro. — Você sabia que vinte mil era impossível. Você sabia que eu poderia falhar.
Giovanni estreita os olhos, sua expressão agora um aviso sombrio.
— Eu te dei um número. Não é culpa minha se você é incompetente demais pra conseguir.
Ele dá um passo à frente, e instintivamente recuo, sentindo meu corpo esbarrar na bancada atrás de mim. A tensão no ar é densa como fumaça, e minha solidão na loja nunca foi tão evidente.
— Por favor — tento uma última vez, mantendo a voz o mais estável possível. — Podemos negociar. Os doze mil agora, e o restante em parcelas. Algum tipo de acordo...
— Acordo? — Giovanni repete, zombando. — Isso aqui não é uma mercearia, querida. Você não está fazendo prestação num sofá.
— Eu realmente não tenho mais — insisto, meus olhos indo até a porta, silenciosamente implorando por um milagre.
Sem aviso, sua mão se lança e agarra meu braço com força.
— Você acha que pode brincar comigo? — ele rosna, me sacudindo como se quisesse me quebrar por dentro. — Acha que pode me enganar?
Meu coração dispara, e tento me soltar, mas o aperto dele só se intensifica.
— Por favor, Giovanni, eu — começo, mas não termino.
O tapa vem rápido e brutal, estalando na minha bochecha e me fazendo cambalear para o lado. A dor explode quente, e sinto o gosto metálico do sangue na boca. Grito, mais por pavor e revolta do que por dor, e acerto um soco em seu peito com o punho fechado. Ele se esquiva com facilidade, rindo, antes de agarrar meu pulso e torcê-lo com crueldade.
— Acha que é valente, hein? — murmura, os olhos incendiados de prazer perverso. — Uma pequena selvagem...
Tento chutá-lo, desesperada, mas ele bloqueia o golpe e me empurra contra a parede com brutalidade. O pânico toma conta, dominando todos os meus sentidos enquanto ele se aproxima, sua presença sufocante, seu rosto uma máscara de fúria.
— Você não é nada, Heloísa. Nada.
A porta se escancara com um estrondo.
Don Damian Lucchese entra como uma tempestade — olhos de fogo, expressão assassina. Sua presença domina o ambiente num segundo, como uma sombra que engole toda a luz.
— Solte-a, Giovanni — ele ordena, com a voz tão fria quanto a lâmina de uma faca. Mortal. Inegociável.