Foram dias longos. Dias que eu jamais pensei que viveria. Desde a noite em que me escondi naquele beco e vi Carlinhos atirar em Pardal, algo dentro de mim quebrou. Não era apenas o horror de ver um homem morrer na minha frente, não era só o sangue que manchava o chão. Era a certeza de que eu tinha visto o que não deveria. E, por isso, eu estava marcada. Eu não sabia quando, nem onde e isso dava pavor. Nos três dias que seguiram, tentei manter uma rotina. Trabalho, casa, ônibus lotado. O mesmo ciclo de sempre. Mas havia algo diferente agora. Algo que me acompanhava como uma sombra. O barulho dos passos no asfalto soava mais pesado do que antes. As conversas sussurradas na rua, os olhares atravessados na fila do ônibus, até o silêncio parecia mais ameaçador. Eu sentia. Eu sabia.

