⌛5 anos antes...
Dezoito anos quando assumi o morro.
Não foi eleição, não foi herança, não foi ninguém me passando o posto com discurso bonito. Foi a vida me colocando num lugar que eu não pedi e eu decidindo que, já que tava aqui, ia ser do meu jeito.
O Gordo, que mandava antes de mim, morreu numa sexta-feira. Sábado de manhã dois aliados já tavam se pegando pelo ponto, a vida é assim sempre tem alguém esperando você cair pra pegar o que é teu. Domingo à noite eu chamei todo mundo na laje, falei o que precisava ser falado, e quem teve problema comigo teve problema comigo de verdade. Mas resolvi na hora. Meti bala.
Ninguém mais teve problema.
Aprendi rápido que comando não é sobre quantos você já matou. É sobre como você entra num ambiente. É sobre o silêncio que vem antes de você falar. É sobre as pessoas saberem, sem você precisar explicar nada, que você não é o tipo que ameaça duas vezes.
Cinco anos depois, o morro era meu de verdade.
Não só o movimento, o morro inteiro. As vielas, as lajes, os becos, as histórias que corriam de boca em boca. Quando tinha problema entre morador, vinham falar comigo. Quando faltava gás, quando o caminhão de água não subia, quando algum otáriö de fora achava que podia chegar desrespeitando, vinham falar comigo.
Eu não era bonzinho. Não me enganava achando que era. Mas tinha ordem. E ordem, no morro, vale mais que bondade.
No morro, nada acontece por acaso.
Nada.
Quando dá rüim sempre tem dedo de alguém. Sempre tem um filho da putä olhando de longe, vendendo informação, achando que nunca vai dar nada.
Mas sempre dá.
E naquele dia deu. A cinco anos atrás.
FLASHBACK ON ...
Naquela noite de quinta-feira eu tava na laje com Rastaquera e Índio, os dois mais velhos que eu tinha.
Rastaquera com trinta e dois anos, careca, barrigudo, que parecia um tio bêbado, mas tinha olho clínico pra gente que mentia. Índio com trinta, magro, quieto, que falava pouco e quando falava valia ouvir.
Tava quente. Aquele calor pesado de verão carioca que não vai embora nem de noite, que gruda na pele e cansa antes de você fazer qualquer coisa. A gente tomava cerveja e olhava o morro lá embaixo, as luzes, o movimento, o baile que tava começando na quadra.
Tava tudo normal.
— Amanhã o pagamento do Farofa chega — Rastaquera falou, jogando a tampinha de cerveja no chão. — Ele disse que vai mandar pelo moleque novo.
— Qual moleque novo?
— Aquele baixinho, filho da Conceição.
— Confia?
— Conceição é séria. O filho deve ser.
Eu fiz que sim com a cabeça e fiquei olhando pro horizonte. Tinha uma brisa fina que vinha do mar lá embaixo, mäl dava pra sentir, mas dava. Carla falava que era por causa disso que ela não queria morar em outro lugar.
"Aqui a gente tem vista e brisa de graça, Cairo. Lugar nenhum tem isso."
Dei um gole na cerveja.
Ela tava na casa de uma amiga e ia voltar às dez. Já eram nove e meia. Carla era pontual, característica que ela definitivamente não herdou de mim, então em meia hora ela ia atravessar o beco da Amendoeira e chegar em casa, aquecer o que tinha sobrado do jantar, e gritar meu nome laje acima pra saber se eu queria prato.
Tudo normal.
Até que o Índio ficou estranho. Aquele jeito quieto de quem tá ouvindo alguma coisa que os outros ainda não captaram.
Eu conhecia esse quieto.
— Que foi? — perguntei baixo.
Ele não respondeu. Ficou de pé devagar, foi até a beirada da laje, olhou pro lado do beco.
Foi aí que eu ouvi.
Tiros.
Cinco, seis, rápidos, sequenciais, do lado do beco da Amendoeira.
Me levantei antes de processar. As pernas foram antes da cabeça, descendo a escada da laje dois degraus de uma vez, Rastaquera atrás de mim gritando alguma coisa que eu não ouvi direito porque o sangue já tava pesado no ouvido, aquele barulho surdo que vem quando o corpo sabe antes da mente.
Escutei um grito desesperado. E esse grito eu sabia de quem era.
O cheiro de pólvora tava no ar.
Eu parei no meio do beco, o peito subindo e descendo pesado, a arma ainda quente na minha mão.
Silêncio.
Mas não era silêncio de paz.
Era aquele silêncio estranho, pesado, de quando o morro entende que alguma merdä muito grande acabou de acontecer.
— Já confirmaram? — minha voz saiu baixa, mas cortando.
O soldado nem me olhou direito. O moleque tava branco.
— Confirmaram, Cairo…
Eu não respondi na hora.
Porque eu já sabia.
Eu só não queria ouvir.
Ela tava no chão.
Coberta com um pano improvisado.
Como se isso fosse esconder alguma coisa.
Como se isso fosse mudar alguma coisa.
Porrä nenhuma.
Eu dei dois passos pra frente.
Parei.
E não toquei.
Não toquei porque se eu tocasse não tinha volta.
E eu não tava pronto pra aceitar.
Minha irmã.
Minha porrä de irmã.
O maxilar travou.
Forte.
A ponto de doer.
Mas a dor física era o de menos.
O que queimava era outra coisa.
Era saber.
Saber que isso ali não foi acaso.
Não foi bala perdida.
Não foi erro.
Foi entregue.
Eu virei o rosto devagar, passando a língua pelos dentes.
Respiração controlada.
Sempre controlada.
Porque se eu perco o controle alguém morre.
— Quem? — perguntei.
Simples.
Direto.
Sem gritar.
Sem surtar.
Porque eu não sou desses.
Eu não grito.
Eu resolvo.
Silêncio.
Ninguém respondeu.
Ninguém.
Olhei um por um.
Um por um.
E o olhar já dizia tudo:
Tão com medo.
Mas não de mim.
Do que vem depois.
— Eu vou perguntar mais uma vez… — falei, baixo, dando um passo à frente. — Quem?
O vapor engoliu seco.
— A gente tá levantando ainda, Cairo…
Eu ri.
Sem humor nenhum.
— Levantando? — inclinei levemente a cabeça. — Ou escondendo?
— Não, mano, nós tá vendo certinho, só que...
— Só que nada.
Cortei.
Seco.
Porque não tinha “só que”.
Eu passei a mão no rosto devagar, sentindo o suor misturado com a poeira.
A cabeça funcionando rápido.
Rápido demais.
Ligando ponto.
Ligando erro.
Ligando padrão.
Isso é informação.
X9.
Minha língua pressionou o céu da boca.
E foi aí que a certeza veio.
Pesada.
Fria.
Igual uma lâmina encostando na pele.
Tem alguém dentro.
— Tranca o morro — falei.
O soldado arregalou o olho.
— Como assim?
Olhei pra ele.
Só olhei.
E ele entendeu na hora.
— Tranca… tudo?
— Tudo.
Minha voz saiu calma.
Demais.
O tipo de calma que deixa qualquer um mais nervoso do que grito.
— Ninguém entra. Ninguém sai. Ninguém respira sem eu saber.
Agora o jogo virou.
Eu dei mais um passo e dessa vez parei do lado do corpo.
Olhei.
De verdade.
O pano não escondia nada.
Só piorava.
Então eu puxei.
Carla tava de lado, com o cabelo espalhado no calçamento molhado e a mão aberta, a mão pequena que eu conhecia desde que ela tinha desde sempre e me puxava pelo dedo pra mostrar alguma coisa que ela tinha achado importante.
Eu parei.
Não sei por quanto tempo fiquei parado. Deve ter sido segundo, mas pareceu mais. O mundo continuou em volta, Rastaquera chegando, alguém ligando pra um contato, passos, vozes e eu fiquei parado olhando pra ela tentando entender uma coisa que não tinha como entender.
Depois ajoelhei.
Coloquei a mão no ombro dela. Fria. Já fria.
Não tem palavra certa pra isso. Não tem jeito de explicar o que acontece dentro de um homem quando o chão some de verdade. Não é choro, não é grito, é uma coisa mais funda que isso, mais quieta, que desce e fica.
Fica pra sempre.
A mão fechou.
Forte.
Tanto que os dedos estalaram.
— Você morreu por causa de alguém… — murmurei baixo, quase sem voz. — E eu vou achar esse alguém.
Não era promessa.
Era sentença.
Atrás de mim, o movimento começou mais intenso.
Correria.
Ordem sendo passada.
Portão fechando.
Vapor se posicionando.
Arma sendo preparada.
O morro inteiro mudou.
De uma hora pra outra.
Porque quando alguém trai todo mundo paga.
Eu virei de costas.
Sem olhar mais.
Porque olhar demais ia me fazer sentir.
E sentir não ajuda em nada agora. Mandei cuidarem do corpo dela. Mandei pagar tudo de melhor pra ela. E depois dei a ordem.
— Quero nome, endereço, histórico… — comecei, andando devagar pelo beco. — Quero saber quem anda sumido, quem anda gastando mais do que ganha, quem mudou rotina…
Índio veio atrás, anotando tudo na cabeça.
— Já tô vendo isso tudo, Cairo.
— Não tá vendo o suficiente. Porque se tivesse vendo ela tava viva.
O silêncio pesou.
E ele entendeu.
— Vou apertar geral — ele falou.
— Não.
Parei.
Virei só o rosto.
— Não quero barulho.
Ele franziu a testa.
— Então como?
— Eu quero medo.
Simples assim.
— Medo?
— Medo.
Voltei a andar.
— Quero que esse filho da putä saiba que eu sei que ele existe, mas não saiba quando eu vou chegar.
Silêncio.
— Porque quando eu chegar… — minha voz baixou ainda mais — não vai ter tempo de pedir nada.
O ar ficou pesado.
De verdade.
Até o vento pareceu parar.
Eu parei no fim do beco.
Olhei o morro de cima.
As casas.
As luzes.
As pessoas que nem sabiam ainda o que tava acontecendo de verdade.
E aqui eu tive certeza.
Isso aqui mudou.
Pra sempre.
Porque agora não é mais só comando.
Não é mais só dinheiro.
Não é mais só território.
Agora é pessoal.
Passei a mão no pescoço devagar.
Respirei fundo.
E sorri.
Sem humor nenhum.
— Pode se esconder… — murmurei, baixo. — Pode correr… pode rezar…
Fechei os olhos por um segundo.
E quando abri já não tinha mais nada aqui dentro além de uma coisa.
Frieza.
— Eu vou te achar. E quando eu achar…
Minha mandíbula travou.
— Eu vou fazer você desejar ter morrido antes dela.
Atrás de mim, Índio soltou:
— Cairo…
Parei.
Sem virar.
— Fala.
Ele hesitou.
Por um segundo.
Só um.
— E se for alguém nosso?
Silêncio.
Meu olhar ficou fixo lá na frente.
Sem piscar.
Sem mexer.
Sem nada.
E foi aí que eu respondi.
— Então vai morrer pior.
Porque traição eu não perdoo.
E nesse momento sem saber ainda o nome, sem saber o rosto. Eu já tinha começado a caça.
E alguém no morro. Já tava morto.
Só não sabia ainda.
Não me lembro do restante da noite.
Não chorei. Não sou esse tipo.
Sentei na cadeira da cozinha, no escuro, e fiquei quieto até o sol nascer.
Foi nesse silêncio que eu entendi uma coisa.
Realmente esse ataque não foi acaso. O rival não invade sem informação, não é assim que funciona. Eles vieram pelo beco da Amendoeira porque sabiam que ela ia estar ali. Sabiam o caminho. Sabiam o horário.
Alguém contou.
Alguém daqui dentro. Pra ter entrado tão fácil e despercebido.
FLASHBACK OFF...
Rastaquera confirmou dois dias depois, sentado na minha frente com aquela cara de quem não queria estar tendo essa conversa.
— Não foi acidente, Cairo. Eles sabiam onde ela ia estar. Tem X9 dentro do morro mesmo.
Eu não me movi.
— De dentro quanto?
— De dentro mesmo. Alguém que conhece a rotina. Conhece os caminhos. Conhece você.
Fiquei olhando pra ele por um tempo sem falar nada. Deixei isso descer devagar, alguém que pisava no meu chão, que me chamava de chefe, que talvez tivesse chegado pra velar o corpo da Carla com a cara lavada e a consciência suja.
Senti aquela coisa fria no peito que eu já conhecia. Não era raiva, raiva passa. Era outra coisa. Mais quieta, mais firme, mais perigosa.
— Descobre quem é.
Rastaquera assentiu e saiu.
Levei três dias pra aceitar que não ia ser rápido.
O filho da putä era esperto. Não tinha gasto suspeito, não tinha comportamento diferente, não tinha nada que gritasse culpado. Quem vende informação há tempo sabe se esconder. Sabe olhar nos seus olhos. Sabe apertar sua mão.
Então eu comecei do zero.
Passei a observar todo mundo. Os leais, os não tão leais, os que tinham motivo óbvio, os que não tinham motivo nenhum aparente. X9 não tem cara, pode ser o mais quieto ou o mais falado, o que chora no enterro ou o que fica seco.
Todo mundo virou suspeito.
Todo mundo mesmo.
E eu tive paciência, que é a única coisa mais perigosa que a raiva num homem como eu.
Carla tinha um sorriso que enchia qualquer lugar que ela entrasse.
Eu não penso nisso.
Não posso.
Se eu parar pra pensar nisso, não consigo fazer o que precisa ser feito. Então eu guardo, fecho, empurro pra um lugar fundo onde não atrapalha.
Um dia eu encontro esse X9.
E quando eu encontrar, não vai ter conversa. Não vai ter choro, não vai ter explicação que resolva, não vai ter misericórdia nenhuma .
Vai ter só o acerto .
Do meu jeito.