Capítulo 2
MAYA NARRANDO
⌛Dias atuais…
O morro não para. Nunca parou. E nunca vai parar.
Não importa quem morreu, quem ficou pra trás, quem tá se afogando por dentro, no dia seguinte o som sobe, a criança corre descalça na viela, o vapor passa armado como se fosse rotina, o baile começa, o cheiro de comida sobe das casas. A vida continua como se nada tivesse acontecido.
Só que aconteceu.
Pra mim, aconteceu.
E eu fiquei sozinha.
O enterro do meu pai foi simples. Simples até demais pra alguém que passou a vida inteira tentando fazer tudo certo. Vieram alguns vizinhos, gente que conhecia ele de anos, dois homens do movimento que apareceram mais por respeito antigo do que por qualquer outra coisa. Ninguém ficou muito tempo. Ninguém nunca fica.
Eu também não falei muito. Não tinha o que falar. Fiquei parada olhando o caixão como se isso fosse mentira, como se em algum momento alguém fosse abrir e dizer que confundiram, que não era ele. Mas ninguém abriu. Quando fecha… acabou.
Eu não chorei alto.
Não sou disso.
Só senti aquela coisa apertando por dentro, esmagando devagar.
Como se o ar tivesse mais pesado.
Como se respirar fosse mais difícil do que devia.
Quando acabou, as pessoas foram indo embora.
Uma a uma.
Cada uma voltando pra própria vida.
E eu fiquei.
Parada.
Sem saber exatamente o que fazer depois.
Porque ninguém te ensina o que vem depois.
A pior parte não foi o enterro.
Foi voltar pra casa.
Porque aí não tinha mais gente, não tinha mais movimento, não tinha mais barulho. Só silêncio. E o silêncio dentro de casa é pior do que qualquer grito.
A cadeira dele ainda tava no mesmo lugar. O chinelo encostado na porta. O copo na pia. Tudo igual. Só ele que não tava.
Eu sentei no chão da cozinha e fiquei aqui. Não na cadeira. No chão mesmo. Como se isso fizesse mais sentido. Como se o corpo soubesse que não tinha mais estrutura pra ficar de pé.
Os dias começaram a passar, mas não de um jeito normal. Eles passavam pesados. Arrastados. E junto com eles vieram as contas.
Primeiro foi a comida. O pouco que tinha na geladeira. Eu fui economizando como dava, tentando fazer durar mais um dia, mais uma noite, mais qualquer coisa. Até acabar.
Depois foi a luz.
Cortaram sem aviso.
Eu cheguei em casa e só não tinha mais.
Simples assim.
A escuridão entrou como se sempre tivesse estado aqui.
Eu tentei. De verdade.
Desci o morro atrás de emprego. Fui em mercado, padaria, bar, qualquer lugar que tivesse uma porta aberta. Falei com gente que nem me olhou direito. Perguntaram experiência, pediram indicação, inventaram desculpa. Sempre tinha um motivo pra não me aceitar.
Sempre tinha um “não”.
Volta outro dia.
Depois a gente vê.
Já tá cheio.
Não dá.
Eu perdi a conta de quantas vezes ouvi isso.
Voltar pro morro depois disso era pior. O corpo cansado, a cabeça cheia e aquele sentimento de que você não serve pra nada grudado na pele. O sol queimando, a fome apertando, e a vida dos outros seguindo normal.
Porque pra eles tava tudo normal.
Só pra mim que não.
A comida acabou de vez numa terça. Eu lembro porque foi o dia que meu estômago começou a doer de verdade. Não era só fome. Era um vazio que parecia rasgar por dentro.
Eu bebi água pra enganar.
Não engana.
Na quarta eu já acordei fraca. Na quinta, levantar da cama parecia esforço demais pra pouca coisa. E mesmo assim eu levantei. Porque ficar parada não ia mudar nada.
Mas também não mudou quando eu fui.
Sair para procurar emprego, quase desmaiei de fome. Mas novamente só recebi não. Voltei para o morro com o estômago vazio e a cabeça pesada.
O sol queimando a pele.
A vergonha grudando mais do que o calor.
No dia seguinte fui de novo.
E de novo.
E de novo.
Sempre não.
Eu comecei a andar mais devagar.
A falar menos.
A evitar olhar nos olhos das pessoas.
Porque todo “não” vai tirando um pedaço de você.
Pequeno.
Mas vai.
Foi na sexta que ele apareceu.
Eu tava sentada na escada da minha casa, sem energia nem pra fingir que tava bem, quando ouvi meu nome.
— Maya?
Levantei o rosto e demorei um pouco pra reconhecer.
Breno
Da escola.
Ele tava diferente, mais velho, mais marcado. Mas ainda tinha aquele jeito tranquilo de quem nunca quis problema com ninguém.
— Caralhö, quanto tempo — ele falou.
— É.
Foi o que saiu.
Ele me olhou melhor. E eu vi na cara dele o momento exato em que ele percebeu.
Ninguém precisa perguntar muito quando vê.
Mesmo assim ele perguntou.
— Tu tá bem?
Assenti.
Mentira.
Ele ficou meio sem jeito, coçou a nuca e falou que tinha ficado sabendo do meu pai. Eu só confirmei com a cabeça. Não tinha muito o que dizer sobre isso.
A gente ficou em silêncio por alguns segundos até ele perguntar o que eu tava fazendo agora.
— Tentando arrumar algum emprego.
— Conseguiu?
Balancei a cabeça.
Não.
— Que merdä Maya. Mas tu tem comida? Tem as coisas pra viver até arrumar algo?
— Pior que não e já tentei de tudo, tudo mesmo. Tô quase indo pro puteirö.
— Eu posso...
— Não Breno, eu preciso arrumar algo. — Falei interrompendo ele.
Ele ficou me olhando como se estivesse pensando em alguma coisa. E tava.
Eu percebi antes dele falar.
— Lá na boca tá precisando de gente.
Meu corpo travou na hora.
— De quê?
— Endola.
Eu fiquei quieta.
Muito quieta.
Porque isso aqui não era só uma sugestão.
Era uma linha.
E eu sempre fiquei do lado de cá.
Meu pai fez questão disso a vida inteira.
E eu obedeci.
Até agora.
Meu estômago roncou alto. Tão alto que eu senti vergonha na hora. Aquela vergonha que sobe e queima por dentro.
Ele desviou o olhar. Eu também.
— Paga bem — ele falou. — Mais do que qualquer coisa aqui em cima.
Eu passei a mão no braço devagar, sentindo a pele quente, o corpo fraco, a cabeça pesada.
Boca.
Eu sempre evitei.
Sempre.
Mas agora eu não tinha mais nada.
— Eu não sei… — murmurei.
— Eu sei que é fodä — ele falou. — Mas tu tá sem opção, Maya. E não quer meu dinheiro.
Sem opção.
Essa palavra ficou na minha cabeça.
Girando.
Pesando.
Olhei pra dentro da minha casa. Escura. Vazia. Sem comida. Sem luz. Sem ninguém.
Voltei o olhar pra ele.
— Onde é?
Ele só disse:
— Vem.
Eu levantei.
Não porque queria.
Mas porque precisava.
A gente desceu o morro em silêncio. Cada passo parecia mais pesado que o outro. Como se eu soubesse que, depois dali, não tinha mais volta.
E talvez não tivesse mesmo.
Mas antes de me levar pra boca, ele me levou para almoçar, depois tomamos sorvete.
— Bora? — Ele falou assim que terminamos.
Quando a gente chegou na boca, eu senti na pele que esse não era meu lugar.
Gente armada. Movimento constante. Olhares atravessados.
Mas também senti outra coisa.
Necessidade.
Breno falou com um dos caras, que me olhou de cima a baixo, avaliando. Depois mandou eu esperar.
Meu coração acelerou.
Não só de medo.
De tensão.
Ele voltou.
— O Rastaquera quer falar com ela.
Breno me olhou.
— Relaxa.
Não relaxei.
Eu fui.
Entrei.
O ambiente era mais fechado, mais pesado. O ar parecia diferente aqui dentro.
Ele tava sentado, olhando como quem não perde nada.
— Nome?
— Maya.
— Já trabalhou nisso?
— Não.
Ele me analisou por alguns segundos.
— Sabe onde tá se metendo?
Eu sabia.
Mas ao mesmo tempo não.
— Sei.
Mentira.
Ele continuou me olhando. Em silêncio. Como se estivesse decidindo alguma coisa.
— Tem certeza?
Meu estômago roncou de novo.
Eu engoli seco.
— Tenho.
E foi nesse momento que eu entendi, mesmo sem saber tudo ainda.
Que eu tinha acabado de entrar num lugar que não ia me deixar sair fácil.