Capítulo 3

1627 Words
Capítulo 3 MAYA NARRANDO Depois que o sub falou que eu começava no dia seguinte, eu só fiquei parada por uns segundos, sem saber direito o que fazer com essa informação. Era como se meu corpo tivesse entendido antes da minha cabeça que alguma coisa aqui tinha mudado de vez. — Bora — Breno falou do meu lado . Eu assenti e saí com ele. O caminho de volta pareceu mais curto do que o de ida, mas não porque eu tava tranquila. Pelo contrário. Minha cabeça tava cheia, pesada, girando coisa demais ao mesmo tempo. — Tu vai ficar de boa — ele falou enquanto a gente subia. — Só faz o que mandarem e não inventa. — Eu não vou inventar nada — respondi, mais seca do que eu pretendia. Ele deu um meio sorriso. — Relaxa… ninguém entra lá sabendo tudo. Eles vão te ensinar endolar. Eu não respondi. Porque não era sobre isso. Não era sobre aprender. Era sobre estar ali. E eu ainda não tinha processado direito. A gente chegou perto da minha casa e ele parou. — Tu tem o que comer agora? Eu fiquei quieta. Ele entendeu na hora. — Vem. — Não precisa... — Vem, Maya. Não era pergunta. Eu fui. A gente desceu um pouco mais até um barzinho simples, daqueles que ficam no meio da viela, com mesa de plástico, televisão ligada alta e cheiro de gordura no ar. Eu sentei. Ele pediu dois pratos sem nem perguntar. Quando a comida veio, eu tentei manter a postura. Não consegui. A fome falou mais alto. Eu comi rápido demais. Rápido o suficiente pra perceber no meio que tava rápido demais. E desacelerar. Mas já era. Ele não falou nada. Só ficou aqui. — Valeu — murmurei depois de um tempo. — Fica tranquila. Silêncio. — Tu não queria isso, né? — ele perguntou, olhando pro prato. Eu respirei fundo. — Não. — Mas vai. Olhei pra ele. — Eu não tenho opção. — Eu posso te ajudar, e tu não vai. — Não Breno. É só por um tempo depois eu saio. — Não era orgulho, era precaução. Eu não queria depender de mais ninguém. Ele assentiu. E não falou mais nada. Depois disso, ele me deixou em casa. Eu entrei, fechei a porta e fiquei parada por um tempo. Só parada. Sentindo. Sabendo. Eu ia voltar lá. E dessa vez não como visitante. ( ... ) Eu quase não dormi. Na verdade, eu nem sei se isso pode ser chamado de dormir. Foi mais, fechar os olhos por algumas horas e ficar rodando pensamento dentro da cabeça. Cada vez que eu tentava relaxar, vinha aquela sensação estranha no peito, como se alguma coisa tivesse mudado de lugar dentro de mim e eu ainda não tivesse entendido exatamente o quê. Talvez fosse medo. Talvez fosse vergonha. Ou talvez fosse só a consciência de que, depois dessa decisão, não tinha mais como voltar pro que eu era antes. Se é que eu ainda era alguma coisa. Quando amanheceu, o corpo tava pesado. A cabeça também. Mas a fome falou mais alto, como sempre. Levantei devagar, sentindo o chão gelado nos pés. A casa ainda tava do mesmo jeito, escura, silenciosa, vazia. Eu nem tentei fingir que isso não me afetava. Não tinha mais pra quem fingir. Lavei o rosto com a água que ainda restava, prendi o cabelo num coque mäl feito e vesti a roupa mais simples que encontrei. Nada chamativo. Nada que chamasse atenção. Instinto. Como se eu ainda quisesse me esconder. Antes de sair, parei por um segundo na porta. Respirei fundo. E fui. O caminho até a boca parecia mais curto do que no dia anterior. Ou talvez eu só estivesse menos presente, andando no automático, tentando não pensar demais. Mas não adiantava. Cada passo lembrava. Cada passo pesava. Quando cheguei, o movimento já tava rolando. Gente entrando e saindo, vapor em posição, arma visível, olhar atento pra tudo. Era organizado. Muito mais do que eu imaginava. Não tinha bagunça. Não tinha descontrole. Tinha ordem. E isso, de um jeito estranho, me deixou mais tensa. Porque ordem significa regra. E regra significa consequência. Breno já tava aqui. Me viu chegando e fez um gesto com a cabeça. — Chegou cedo. — Achei melhor. Ele deu um meio sorriso, daqueles que não chegam nos olhos. — É melhor mesmo. Um dos caras se aproximou. O mesmo do dia anterior. Olhou pra mim de novo, daquele jeito avaliando. — Vem. Eu fui. Sem perguntar. Sem hesitar. Ele me levou até um canto mais afastado, onde tinha uma mesa improvisada e algumas coisas organizadas em cima. — Tu vai ficar aqui — ele falou. — Não inventa, não mexe no que não é pra mexer e não sai do teu lugar sem alguém mandar. Assenti. — Qual seu nome mesmo? — Maya. — Beleza, Maya. Se fizer direito, ganha. Se fizer merdä… — ele deu de ombros. — Nem preciso falar. Não precisava mesmo. — Logo alguém vem te ensinar a endola. Ele falou e saiu. E eu fiquei. Aqui. Pela primeira vez. Dentro. De verdade. No começo, eu tentei não olhar muito. Fiquei focada no que me mandaram fazer, prestando atenção em cada detalhe, tentando não errar nada. As mãos ainda estavam um pouco trêmulas, mas eu controlava. Respirava fundo, contava mentalmente, fazia do jeito que me ensinaram. O tempo passou estranho. Rápido e lento ao mesmo tempo. Eu sentia os olhares. Não diretos. Mas sentia. Gente passando, observando, tentando entender quem eu era, de onde eu tinha surgido. Normal. Eu faria o mesmo. Mas ninguém falava nada. E isso era pior. O silêncio sempre é pior. Eu tava concentrada, tentando não pensar em mais nada além do que tinha que fazer, quando o ambiente mudou. Não foi barulho. Não foi movimento brusco. Foi sensação. Como se o ar tivesse ficado mais pesado. Como se todo mundo tivesse ficado mais atento ao mesmo tempo. Eu percebi antes de ver. E foi isso que me deixou mais alerta. Levantei o olhar devagar. E foi aí que eu vi. Ele. O dono do morro. Cairo. Eu reconheci na hora. Todo mundo reconhece. Não precisa apresentar. Não precisa explicar. Ele só é. Alto, postura firme, corpo musculoso daquele jeito que não é exagerado, mas impõe. Tatuagem aparecendo no braço, barba marcada, expressão fechada. Cabelo nevou. Ele não falou nada. Nem precisava. Passou pelos homens como se isso tudo já estivesse sob controle antes mesmo dele chegar. Porque tava. Porque era dele. Eu abaixei o olhar na mesma hora. Instinto. Mas foi tarde. Porque eu senti. Senti quando ele olhou. Não foi rápido. Não foi distraído. Foi direto. Pesado. Parado. Em mim. Meu corpo travou. Sem motivo aparente. Mas travou. Continuei fazendo o que tava fazendo, tentando manter o movimento das mãos normal, tentando não demonstrar nada. Mas eu sabia. Ele ainda tava olhando. Isso incomodava. Muito. Não era um olhar comum. Não era aquele tipo de olhar de homem que seca, que mede, que imagina. Era diferente. Era como se ele estivesse analisando. Como se estivesse me desmontando por dentro. Sem tocar. Sem falar. Só olhando. E isso me deixou desconfortável de um jeito que eu não sabia explicar. Eu levantei o olhar por um segundo. Só um. E me arrependi na hora. Porque ele ainda tava aqui. Me olhando. Sem piscar. Sem desviar. Sem expressão. E quando nossos olhos se cruzaram eu senti alguma coisa. Não foi atração. Não foi curiosidade. Foi alerta. Como se alguma parte de mim tivesse gritado: Perigo. Desviei na hora. Voltei pro que tava fazendo. Mas agora era impossível ignorar. Meu corpo tava tenso. Meu estômago apertado. E não era fome dessa vez. Era outra coisa. Eu percebi que alguns dos homens ao redor tinham notado. Não o olhar dele exatamente. Mas o fato de ele não tirar o olhar. Um deles passou mais devagar perto de mim. Outro ficou parado mais tempo do que precisava. Silêncio. Observando. Eu não sabia o que era pior. O olhar dele ou o fato de todo mundo perceber que ele tava olhando. Ele não falou nada. Não chegou perto. Não fez nenhum gesto. Mas também não desviou. E isso foi ficando pesado. Minutos. Ou segundos. Eu não sei. O tempo ficou estranho de novo. Até que ele se mexeu. Deu um passo. Depois outro. Passou por mim. Perto o suficiente pra eu sentir. O cheiro. Não era perfume forte. Era mais limpo. Mas marcante. E o corpo dele passou perto o suficiente pra eu sentir o calor. Eu não olhei. Nem tive coragem. Fiquei parada. Fingindo normalidade. Segurando o ar. Até ele passar. E quando passou o ar voltou. Devagar. Mas voltou. Só que a sensação ficou. Grudada. Pesada. Como se ainda tivesse alguma coisa aqui. Eu esperei alguns segundos antes de levantar o olhar. Ele já tava mais à frente, falando baixo com um dos homens. Mas mesmo assim, em algum momento ele olhou de novo. Rápido dessa vez. Mas suficiente. Como se confirmasse alguma coisa. E isso foi pior ainda. Porque eu não sabia o que ele tinha visto. Nem o que tinha decidido. O resto do dia passou estranho. Eu fiz tudo certo. Não errei. Não falei demais. Não olhei demais. Mas isso não saiu da minha cabeça. O olhar. A sensação. Esse peso que não tinha explicação. Quando finalmente acabou, eu saí sem falar com ninguém. Desci o morro mais rápido do que subi. Entrei em casa. Fechei a porta. E encostei nela. Respirando fundo. Tentando entender. Mas não tinha o que entender. Só tinha uma certeza. Eu senti. Do jeito mais claro possível. Ele tinha me observado. De verdade. E alguma coisa dentro de mim sabia que isso não ia passar despercebido.
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