Capitulo 3

2642 Words
Vithor... Antes de ler a carta, sentei na cama com o livro sobre as minhas pernas, na capa tinha o seguinte dizer "Minha família", quando abri o álbum a primeira foto que eu vi fora uma em que eu e Ally estávamos sentados na grama, eu estava abraçando ela e ela rindo, me lembrava desse dia, o sol estava alto, o clima quente, ela havia passado com nota máxima no semestre da faculdade. A próxima foto era o dia em que eu havia passado em medicina, o orgulho que ela sentiu por mim, a felicidade que ela demonstrava, ela sempre esteve junto comigo nos melhores e piores momentos. Passando a página havia uma foto dela com o teste de gravidez positivo, ela estava feliz, eu já não duvidava mais que Katie pudesse ser minha filha, meu maior arrependimento agora era saber que eu não estava presente em nenhum desses momentos. Na outra página mostrava Ally grávida, acima da foto dizia que ela estava com 2 meses, ela estava ainda mais linda com a gravidez, mais iluminada, passei a mão em seu rosto, eu não podia imaginar que aquilo estava acontecendo comigo, como eu podia, perdi tantos momentos preciosos. As fotos eram uma ordem cronológica dos meses da sua gravidez, na foto dos cinco meses Ally estava com uma cara de assustada em meio a balões cor-de-rosa e azuis e um varal escrito Vithor Jr e Katie, na foto de seis meses ela mostrava dois ultrassons, eram gêmeos, por isso Gus falou “Seus filhos”, mas onde estava o menino, precisava de respostas, então liguei para Bryan. Ligação on... - Bryan. Disse quando ele atendeu o telefone - Tudo bem com Katie? Perguntou ele preocupado. - Sim, ela está dormindo. Disse olhando para a foto. - Então o que seria? Perguntou ele calmo. - Ally teve gêmeos? Perguntei sem rodeios. - Você está com um álbum na mão? Perguntou ele. - Sim. Disse para ele. - Tinha uma carta nele? Perguntou ele. - Sim e tem meu nome nela. Disse pegando a carta. - Leia a carta, ali vai ter tudo o que você precisa saber. Disse ele e desligou o telefonne. Ligação off Peguei a carta, tive que ficar uns bons minutos criando coragem para ler ela, mas decidi que precisava abrir a carta e ler de uma vez. "Vithor... Você deve estar com um álbum em mãos, certo? Esse álbum mostra um pouco da nossa família, as minhas fotos grávida, algumas fotos nossas, a foto do meu quinto mês de gravidez é muito especial, descobri que teria um casal de gêmeos, sei que você já deve estar formado, e que provavelmente vai ficar chateado comigo, mas iniciei o pré natal dos gêmeos muito tarde, eu sinto muito, mas eu não tinha força para nada depois que você foi embora. Se esta lendo a carta e porque algo me aconteceu, e você, quase que do nada ganhou uma filha e um apartamento, peço que cuide de Katie em minha casa, não tenha medo de mexer em minhas coisas, e tudo bem sua mulher mexer também, afinal você é o pai de Katie. Mas agora voce deve estar se perguntado onde está nosso filho, os gêmeos nasceram prematuros de 36 semanas, ficaram um mês na UTI Neonatal, eram saudáveis, mas o pulmão ainda precisava terminar de se formar, você é médico entende melhor que eu dessas coisas, eu estava atrás do computador quando você contou de seu noivado, foi isso que causou o parto. Foi o mês mais intenso da minha vida, ficar no hospital com os gêmeos me fez uma mãe mais forte, eu não podia ficar com eles dia e noite, então voltava para casa, eu já havia ouvido histórias, mas nunca imaginei que fosse acontecer comigo, Vithor Jr fora roubado no dia que ganhou alta, a enfermeira que o levou me fez passar por louca dizendo que só havia tido a menina, mesmo comprovando com as ecografias e com as certidões de nascimento, ela simplesmente sumiu com nosso filho, e luto a muito tempo procurando por ele. Eu sei que se sente culpado com isso, mas não se sinta, não tínhamos como prever, seu filho era a sua cópia, ele era perfeito, na minha agenda que está na sala tem o nome e o número do advogado que cuida desse caso, por favor, não desista de procurar por ele. Ainda temos Katie e ela precisa muito de você, ela tem o seu gênio, é esperta, independente, e ama cor-de-rosa, o apartamento e a minha metade do restaurante vão ficar de herança para Katie. Sua familia me apoiou muito, em tudo, sua mãe foi uma ótima pessoa para mim e ainda melhor como avó. Bryan e Bia foram ótimos também, e Gus me apoiou muito também, você era tudo para mim, se você quiser conhecer seu filho, há um quartinho, onde guardo meus livros, tem um álbum com fotos dele e outro com fotos de Katie, a casa e sua, explore ela. Foi muito doloroso, chegar em Porto Alegre e descobrir que você havia ido embora, foi uma decepção muito grande para mim, afinal, algumas semanas antes estávamos prometendo um ao outro de ficarmos juntos, as coisas mudaram tão rapidamente, eu senti nossa amizade se acabar aos poucos e escorrer pelas minhas mãos como água, então você se foi, e eu fiquei com algo que era seu, fui o mais forte que pude por eles. Mas eu mudei muito como pessoa depois dessa decepção, me tornei outra mulher. Katie sabe exatamente quem é o pai dela, por mais que Gus se fez presente em nossas vidas desde que ela nasceu, sempre contei a ela sobre você, e sobre nossa história, o único detalhe que escondo dela e sobre o irmão, às vezes acho que ela sabe tem um irmão, mas não consigo tocar no assunto com ela, afinal ela é tão pequena. Sobre o restaurante, Gus faz tudo sozinho, fique tranquilo, afinal cozinhar nunca foi o seu forte, apenas saiba que metade de tudo aquilo é de Katie e que quando ela fizer dezoito anos poderá fazer o que quiser com a metade dela. Gus, foi uma peça chave para muita coisa depois que você se mudou, mas saiba que eu ainda amo você. Descobri o tumor na cabeça recentemente, foi difícil, mas quando você estiver lendo essa carta quero que seja forte por Katie, eu posso não ter sobrevivido a doença, mas ficarei muito contente de onde quer que esteja, porque sei que vai estar com nossa filha, afinal você é o guardião legal dela, os exames que estão na pasta marrom são meus, pode olhar. Eu sempre amei você, me desculpe, por não tentar mais, por não ter conversado com você sobre o tumor, mas nada mais pode ser feito, eu te amo, como melhor amiga e como mulher, eu queria ter ficado com você, mas não foi possível. Eu te amo, para sempre sua Ally.” Quando terminei a carta, meus olhos estavam cheios de lágrimas, ela tinha um câncer, precisava contar isso ao médico dela, mas antes precisava desabar, afinal ela estava em coma, e não havia nada que eu pudesse fazer. Fui ate o quarto e peguei o álbum de nosso filho, a primeira foto era, ela com os gêmeos, ainda dentro do hospital, ela passou por tanta coisa, eu preciso que ela volte, preciso concertar tudo e nossa vida, achar nosso filho, eu ainda não podia acreditar que isso havia acontecido, a certidão dele estava no meio do album, os papeis do processo também. Estava tão concentrado lendo os papéis do processo que quase não escutei Katie chorando quando acordou, cheguei o mais rápido que pude no quarto dela e a peguei no colo. - Papai está aqui. Disse calmamente. - Mamãe. Disse ela. - Mamãe não está, então o que acha de vermos a vovó? Perguntei para ela. Deixei Katie no quarto brincando e fui no quarto de Ally pegar seus exames, pela data ela havia descoberto a poucos meses, e como ninguém havia me falado sobre, acho que ela escondeu de todos, voltei para o quarto e minha pequena estava brincando com um urso de pelúcia. Peguei ela, seu urso, os exames e sua bolsa, precisava conversar com minha mãe e com Gus, por mais que o detestasse, eles estavam namorando. Saímos de casa e pegamos um táxi, era incrível ver o quanto Ally tinha planejado caso ela morresse, pela rápida olhada nos exames seria possível remover o tumor, mas havia riscos, isso era o que me incomodava, a perda da memória era um desses malefícios da cirurgia, ela esqueceria tudo. Katie estava quieta brincando com o ursinho no carro, precisava de um para mim urgentemente, não gostava de levar ela em um carro sem a cadeirinha, como era estranho ter uma filha, como Suzana iria reagir a isso, eu não tinha a mínima ideia, Katie é tudo para mim agora, se minha noiva não quiser aceitar ela, não me casarei com ela. Chegamos a casa de mãe por volta das cinco horas da tarde, eu precisava conversar com eles e para minha surpresa todos estavam ali, Gus, Bryan e Bia. - Oi filho, chegou. Disse minha mãe dando espaço para que entrasse. - Preciso conversar com vocês, tem algo sobre a Ally que vocês não sabem. Disse colocando Katie no chão e ela foi correndo para os braços de Bia. - Pela sua cara é sério, ocorreu algo? Perguntou Gus, que estava sentado no sofá. - Com ela não, mas, olha não é uma conversa para termos na frente da minha filha, Bia você pode cuidar dela? Perguntei. - Vou dar uma fruta para ela. Disse Bia levando Katie pela mão para a cozinha. - O que há de tão grave? Perguntou Bryan. - Ally tem um tumor de estágio três na cabeça. Disse rapidamente. - Como assim? Faz quanto tempo que ela sabia disso? Perguntou minha mãe aflita enquanto me sentava na cadeira. - Há alguns meses, ninguém sabia? Perguntei chateado. - Não, a única coisa que todos sabiam era da carta e o álbum. Disse Bryan. - Todos menos eu. Disse Gus cruzando os braços. - Isso é indiferente Gus, eu preciso ir no hospital levar esses exames, mas a cirurgia tem riscos, porém deixar o tumor lá pode m***r ela. Disse nervoso. - Quer nossa opinião? Perguntou Gus. - Sim. Disse olhando para ele. - Quais riscos? Perguntou minha mãe. - Perda de memória, algumas funções motoras, não sou neurologista pra dizer ao certo. Disse. - O que dizia na carta? Perguntou Bryan. - Somente coisas para mim, a carta seria entregue se ela morresse da doença. Disse olhando para Gus. - Sim, foi isso que ela nos pediu, se ela morresse, mas não sabíamos do câncer. Disse - Bryan caminhando até a janela. - Preciso de ajuda, você namora com ela Gus, Bryan você é padrinho de Katie e você, mãe, era importante para ela, preciso de ajuda. Disse olhando de um por um. - Vithor resolva você, aliás não quero me sentir culpado depois. Disse Gus se levantando. - Culpado pelo o que? Perguntei me levantando também. - Se deixar o tumor ela vai morrer, se tirar ela perde a memória, de qualquer jeito perdemos ela. Disse ele caminhando para os lados. - Preciso falar com o médico dela, mas quero ajuda de vocês. Disse olhando para minha mãe e Bryan. - Todas as opções são ruins, Vithor. Disse minha mãe à beira das lágrimas. - Acho que se pudesse optaria por fazer a cirurgia, mas porque ela não fez assim que descobriu? Perguntou Bryan. - Talvez por medo, ela sabia dos riscos e o médico atestou que era inoperável. Disse olhando para Gus que continuava andando de um lado para o outro. - Vai criar um buraco aí, se continuar assim. Disse minha mãe para Gus. - Acho incrível que estávamos juntos, namorando e ela deixa Katie e a vida dela nas suas mãos Vithor? Depois de tudo. Disse Gus, ele parecia chateado. - Você sabe que éramos melhores amigos e você que arruinou tudo. Disse para ele. - Eu? Quem fodeu com ela foi você. Disse ele apontando o dedo para mim. - Eu sei que transamos, mas ela teve nossos filhos. Disse chegando perto dele. - Você fodeu com tudo Vithor, e seu filho que está desaparecido, como você explica isso, eu a vi sofrer, eu a abracei em todos os momentos. Disse Gus. - Olha, Gus, você sempre quis ela, e o único jeito que achou para que isso acontecesse, era separando nós dois. Disse cada vez mais perto, eu iria socar a cara dele. - Sim, eu tinha ciúmes de vocês, pronto falei, caramba Vithor, você tinha a mulher perfeita. Disse parando diante de mim. - Eu a amava, e o sentimento era recíproco, o que ninguém sabe é que no dia da festa Daniel queria ela e eu enlouqueci, estávamos bêbados, mas lúcidos o suficiente para sabermos o que iríamos fazer. Disse passando a mão no cabelo nervoso. - Mas você foi um covarde. Disse Gus fechando as mãos. - Não Gus, lembra da noite que você foi no meu quarto? Dizendo que eu iria estragar minha amizade com ela e que namoro a distância era difícil? Que me encorajou a ir e deixar ela? Perguntei furioso. - E você foi, se a amasse teria ficado. Disse ele. - Meninos… Disse minha mãe - Eu iria levar ela comigo seu i****a. Disse dando um soco no meio do nariz dele. - Vithor, Gus, chega. Disse Bryan ficando entre nós. - Não, você estragou nossas vidas. Disse olhando para Gus. - Faça a cirurgia, ela vai esquecer de tudo, recomece com ela, mas se você for embora de novo ela não vai ter o meu abraço. Disse Gus tocando a aliança dos dois em meu peito e saindo da casa. Minha mãe e Bryan ficaram quietos por um tempo, é claro ninguém sabia dessa parte da história, eu não me orgulhava de ter escutado meu irmão, mas era passado. Eu já havia resolvido que iria fazer a cirurgia, conversaria com os médicos do hospital hoje mesmo, antes de ir fui na cozinha dar um beijo em Katie que brincava alegremente com Bia, depois me despedi de todos, peguei os exames e fui levar para os médicos olharem. Tomar aquela decisão foi difícil, e no caminho mudei de ideia várias e várias vezes. Mas eu precisava chegar lá decidido do que faria. Quando cheguei ao hospital pedi para falar com o Dr Dênis, o neurologista, mostrei os exames que havia encontrado, os laudos, as biópsias, tudo. Enquanto analisava ele apenas ficou quieto, decidi que ficaria calado, eu podia ser médico, mas minha especialização era pediatria e não neurologia. - Vithor, realmente é um tumor complicado, vou solicitar novos exames, esses são de três meses atrás. Disse ele colocando os exames na mesa. - Eu li os laudos, sou especializado em pediatria, mas algumas coisas eu entendi, umas delas é que o médico que a atendeu disse que era inoperável. Disse cruzando os braços. - Ele pode ser retirado sim, há riscos, o maior deles é dela perder a memória recente, de uns 3 anos atrás. Disse o médico calmamente. - E se não operar? Ela morre. Disse olhando para ele. - Sim, ela morre. A perda de memória pode sim ter reversão. Mas ela pode perder a memória totalmente, pelo local que o tumor está, minha recomendação, faça a cirurgia. Disse ele se encostando na cadeira, Dênis aparentava ser um pouco mais velho que eu somente pelos grisalhos misturados com os fios castanhos. A decisão é minha, certo? Mesmo não sendo parente direto. Disse nervoso. Sim, seu nome está aqui, então qual a sua decisão? Vai fazer a cirurgia ou não?
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