Capítulo 4

2745 Words
A decisão estava tomada, Ally havia deixado um papel me dando total direito de tomar decisões por ela, e eu iria salvar a vida dela, fazer a cirurgia era a melhor decisão, por mais que perdesse a memória, ela estaria viva. A cirurgia seria no dia seguinte, às três horas da tarde, Dr Dênis não me prometera que ela acordaria depois da cirurgia, afinal ela ainda estava em coma e poderia ficar assim por dias, meses ou anos, ninguém sabia ao certo quando ela acordaria, no documento Ally me pedia para desligar os aparelhos quando desse o prazo de seis meses, e a decisão dela deveria ser respeitada e assim eu o faria. Agora eu estava indo ver ela, ela estava em um quarto já, então podíamos visitar ela, avisei a todos, mesmo que quisesse ela só para mim. Minha mãe traria Katie depois que eu visse Ally, caso ela não estivesse com muitos aparelhos, como pediatra sabia que era importante mostrar a verdade, quando nossa filha chegasse aqui eu diria pra ela que a mãe estava dormindo e com um dodói na cabeça. Chegamos ao quarto 309, e lá estava ela, deitada na cama, entubada para o meu desespero, Katie não poderia vir, Dr Dênis me deixou na porta do quarto e voltou para uma emergência. Entrei para dentro do quarto e fechei a porta precisava de privacidade, arrastei a cadeira até a lateral da cama e me sentei ao lado, eu havia trabalhado no trauma nos EUA, e o jeito que as pessoas ficavam depois de acidentes, ou como os familiares lidavam, era torturante um dos motivos pelos quais escolhi pediatria, ainda assim a pior parte era conversar com os pais. Segurei na mão de Ally e simplesmente desabei, no dia da minha volta, tudo isso acontece, dois anos separados, tanto tempo sem nos ver, éramos grudados, eu precisava dela, ela não podia morrer, nossa filha precisava dela, eu não saberia o que fazer se ela partisse. - Ally, por favor, eu preciso de você, fui um i****a, não devia ter escutado meu irmão, eu devia ter confiado no meu sentimento, confiado que nós dois seríamos bons namorados, afinal quem me conhecia melhor que eu mesmo? Você. Eu sinto muito por magoar você, eu pensei em você todos os dias que vivi nos EUA, sei que não parece, porque estou noivo, mas eu pensei, quando as coisas iam m*l no hospital, ou quando perdi minha paciente preferida, era você que eu precisava para conversar, eu cometi um erro, não perdi minha licença médica por um detalhe, e era a sua voz me dizendo que eu havia feito certo, que mesmo fazendo o que fiz, que era dar o tratamento digno que a menina merecia, você iria me dizer que eu fui o i****a mais sensato da história. Eu queria conversar com você, e nossos filhos, perdi tudo, o primeiro ano, a sua gravidez, esse seu tumor, você deixou tudo em minhas mãos, mas volte, Katie precisa da mãe, eu amo você, eu preciso de você. Disse em meio às lágrimas, ela podia não responder, mas sei que me escutava. Depois de uns vinte minutos ali sentado ao seu lado, minha mãe bateu a porta, sem Katie para meu alívio, ela entrou e segurou a mão dela, não disse nada, ficou em silêncio total vendo minha cara, quando éramos adolescentes ela vivia dizendo que Ally e eu ficaríamos juntos, talvez ela tivesse razão. - Como ela está? Vai fazer a cirurgia? Perguntou minha mãe chegando ao meu lado. - Sim, amanhã à tarde, preciso que fique com Katie, não vou sair do hospital. Disse me levantando. - Katie tem escola amanhã de tarde, eu levo e busco ela, como você está? Perguntou minha mãe . - Eu não sei, foram tantas coisas em tão pouco tempo, eu não posso perder ela. Disse segurando as lágrimas. - Ally é forte, passou por muitas coisas, vai passar por essa também. Disse ela. - Quem está com Katie? Perguntei. Bryan e Bia, Gus não quis vir, ele está magoado porque ela deixou tudo em suas mãos. Disse minha mãe chegando perto de Ally. - Ele está agindo como uma criança mimada, ele acha que é fácil decidir por a vida dela em risco? Perguntei com raiva. - Ele está assim porque ela confia mais em você, do que nele, que é namorado dela e que ficou ao lado dela. Disse minha mãe e eu automaticamente olhei para a mão de Ally agora sem a aliança. - Fomos melhores amigos por anos mãe, não meses, eu conheço ela melhor que ele. Disse passando a mão no cabelo, olhei para o relógio e a hora da visita havia terminado. - Te espero lá embaixo. Disse minha mãe passando a mão no braço de Ally e saindo do quarto. - Por favor Ally, volte, precisamos de você, eu te amo. Disse dando um beijo em sua testa e saindo quarto. O corredor do hospital parecia longo demais, eu sentia um peso, eu não queria perder minha melhor amiga, me culparia pelo resto da vida, deixei nossa amizade escoar pelos meus dedos como se fosse água por causa de besteira, poderíamos ter vivido uma ótima vida juntos, se Ally estivesse comigo nos EUA muita coisa não teria acontecido. Entrei no elevador do hospital e fechei os olhos, tentaria pôr um sorriso no rosto, Katie não poderia me ver assim, ela precisava que fosse forte, para estar ao seu lado, cheguei ao térreo e abri o melhor sorriso do mundo quando vi Katie, ela era a cara da mãe. Quando cheguei perto ela se jogou para o meu colo e eu a abracei. - Vamos para casa filha? Perguntei. -Sim. Disse ela. - Vai ir para a casa de Ally? Perguntou Bryan. - Sim, ela queria isso, amanhã de manhã levo Katie para você mãe. Disse olhando para minha mãe. - Vai saber se virar sozinho? Perguntou Bia. Sim, afinal sou o pai dela. Disse pegando a bolsa de Katie. - Qualquer coisa não hesite em nos ligar. Disse Bia dando um beijo em Katie. Saímos do hospital, minha mãe iria com Bryan para casa e eu e Katie pegamos um táxi, eu aprenderia a me virar com ela, chegaria em casa daria a janta, um banho e ai colocaria ela para dormir. No carro ela ficou empolgada com as luzes da cidade que seu sorriso era contagiante. Chegamos em casa e Katie ja fora para os seus brinquedos na sala, tirei as marmitas que Ally tinha congelado no freezer e fui brincar um pouco com ela, Katie era criativa com os blocos, dando um olhada na sala vi uma mochila cor-de-rosa de unicórnio, resolvi que olharia o que havia dentro e como suspeitava era a mochila de Katie ir para a escola, coloquei tudo de volta e deixei a mochila por perto. Esquentei nossa comida no microondas e sentei Katie em sua cadeirinha, depois que entreguei sua comida ela comecou a comer, me sentei ao seu lado sem fome alguma, mas comi para ela não jantasse sozinha, depois de alguns minutos na mesa meu celular tocou, eu havia passado o dia inteiro sem mexer nele. Ligação on - Suzana. Disse quando atendi. - Porque não responde minhas mensagens Vithor. Disse ela. - Estava ocupado com a Ally, seja rápida, estou jantando com minha filha. Disse olhando para Katie agora comendo um brócolis com a mão. - Eu não acredito Vithor, acreditou que a menina é sua filha. Disse ela irritada. - Sim, porque? Algum problema, aliás são gêmeos. Disse sorrindo. - Resolva isso, ou elas ou eu. Disse Susana e desligou o telefone. Ligação off -Minha escolha esta feita. Disse fazendo carinho no cabelo de Katie. E estava feita mesmo, minha filha era mais importante para mim, e Ally precisava de mim mais do que nunca agora, terminamos de jantar, coloquei Katie para brincar fui lavar a louça, depois de tudo pronto fomos para o banho coloquei a banheira para encher e levei Katie para o seu quarto, separei o que eu achava que era um pijama e a fralda dela, eu daria um jeito, seria um bom pai. - Katie vamos tomar banho? Perguntei. Ela não me respondeu, mas deixou que eu tirasse toda a roupa suja, coloquei a roupa no cesto que havia em seu quarto, e a levei para o banheiro, tirei sua fralda e desliguei o chuveiro, a diversão foi garantida na banheira, ela amava água, seus produtos de banho ficavam no banheiro, junto com sua toalha, minha melhor amiga era prática em relação a isso, o que foi muito bom. O banho fora fácil, vestir ela que fora complicado adivinhar como eram colocadas as roupas e a fralda, eu podia estar um pouco atrapalhado, mas minha filha parecia não se importar, minha filha, era estranho dizer ou pensar nessas palavras, era incrível ver o quanto elas mexiam comigo. Fazer Katie dormir fora muito tranquilo, deixei sua luz ligada na tomada e a babá eletrônica ao lado do berço. Agora era a minha vez de tomar um banho, mas só naquele momento me liguei que não havia trazido minhas roupas para a casa de Ally. Conhecendo ela e seu estilo deveria ter roupa masculina em seu armário, ou seja, alguma roupa para mim, dependendo da ocasião ela usava até cueca masculina, e ela ficava sexy. Abri as portas de seu guarda roupa e vi um vestido vermelho bem justo pendurado em um cabide, eu lembrava daquele vestido, ela usara em sua formatura da faculdade, o vestido vermelho justo e um batom deslumbrante, passar a mão no vestido era como passar a mão nela. Continuei minhas buscas e como previ ela tinha roupa masculina, inclusive uma das camisetas era minha, ao pegar as roupas lembrei do dia em que ela levou essa camiseta para casa, foi o dia que ela caiu na calçada e que depois caiu um temporal e ela ficou toda molhada, rimos muito naquele dia, que via nosso relacionamento de fora achava que éramos namorados. Dei uma olhada em Katie e fui para o banho, depois de um longo banho, me deitei na cama de Ally e peguei meu telefone eram dez horas da noite, havia umas trinta mensagens de Suzana e umas ligações perdidas dela, quando fui largar o telefone e pegar os papéis do processo do roubo do meu filho, minha aliança de noivado refletiu, lembrar que esse dia fora o que causara o parto de Ally me fez tirar o anel e guardar na carteira, isso já não me bastava mais, eu já tinha uma família. Acordei com um bebê chorando e sério, jurei que tudo o que eu tinha passado era um sonho. Sai da cama e fui para o quarto de Katie, quando cheguei lá ela estava sentada no berço chorando muito, peguei ela no colo e tentei em vão lhe acalmar. - Ok você venceu, agora me diga o que você tem? Perguntei para ela. - Mamãe. Disse e recomeçou a chorar. - A mamãe não está, meu amor. Disse sentando ela no trocador e olhando sua fralda, estava suja e eu me atrapalhava para trocar a fralda. - Papai. Disse ela olhando para mim, e como Ally havia dito, seus olhos eram iguais aos meus. - Ok, vamos tentar, já que agora sei que sou seu pai e que vamos passar muito tempo juntos. Depois de meia hora, consegui trocar a fralda dela, confesso que aquilo era fácil, só parecia complicado. Peguei Katie no colo e fui para o quarto de Ally, olhei no relógio e marcava exatamente quatro horas da manhã, e eu estava caindo de sono. Me deitei com Katie na cama de Ally, fiz carinho até ela adormecer e acabei dormindo abraçado com ela. Acordei eram 8 horas da manhã com alguém me ligando, olhei no visor e vi que era um número desconhecido. Ligação on - Alô. Disse. - Oi é o senhor Vithor? Perguntou uma voz feminina. - Sim. Disse olhando para Katie. - Sua esposa Ally, esta reagindo e provavelmente vai acordar, precisava que o senhor viesse aqui. Disse a moça. - Em 40 minutos estarei ai. Disse e desliguei. Ligação off Sai da cama lentamente para não acordar Katie e fui para o banheiro lavar o rosto e ajeitar o cabelo, depois de uns 10 minutos voltei para o quarto e Katie continuava dormindo, acordei ela e troquei a sua roupa e a fralda, depois fui para a cozinha e fiz sua mamadeira. - Minha menina está com fome? Perguntei sentando com ela no sofá. - Sim. Disse ela concentrada no desenho. - Vou deixar você olhando TV e vou fazer algumas coisas. Disse na esperança que ela entendesse. - Mamãe. Disse ela. - Você vai ver ela hoje, ela está dodói. Disse entregando a mamadeira para ela. - Ah. Katie resmungou e começou a tomar a mamadeira, a deitei no sofá e fui para o quarto de Ally. Quando cheguei lá me deparei com os álbuns, a carta e os papéis do processo ao lado do meu celular, precisava urgentemente marcar uma hora com o advogado. Eu não havia reparado, mas, no quarto tinha um aparador com várias fotos, uma delas era de Ally, com um vestido florido lendo um livro, outra mostrava Katie pequena num vestido verde água, uma das fotos era minha, aquela foto fora tirada no dia em que eu havia me crismado, naquela época Ally tinha 16 anos e eu 13, todos haviam avisado de que não poderíamos tirar fotos na hora em que o bispo nos crismasse, mas ela tirou discretamente e depois eu morria de rir do jeitinho dela. Voltei a realidade com Katie chorando, saí do quarto correndo e voltei para a sala, quando cheguei lá encontrei ela sentada no sofá e ela não estava chorando. -Vamos ver a mamãe. Disse e Katie ergueu os bracinhos para que eu a pegasse. Desci até a rua e peguei um táxi, fui direto para o hospital, eu precisava ver ela e hoje mesmo tentaria descobrir algo relacionado ao nascimento dos gêmeos. - Olá eu sou o Vithor. Disse para a recepcionista. - O doutor lhe espera na sala dele. Disse ela, então a enfermeira me levou até o doutor. - Doutor Dênis, o senhor Vithor chegou. Disse ela ao abrir a porta. - Entre. Disse o médico, entrei e sentei na cadeira e pus Katie em meu colo. - Então doutor, como ela está? Perguntei sem rodeios. - Durante a noite reagiu, ela pode acordar a qualquer momento e isso será ótimo, porém temos que contar a ela da cirurgia. Disse ele cruzando os braços. - Eu contarei, a escolha foi minha, ela já estará sem os aparelhos? Queria que nossa filha visse a mãe. Disse abraçando Katie. - Sim, vimos uma melhora notável, mas as notícias em relação ao tumor não são boas. Disse ele colocando a tomografia contra a luz, o tumor era realmente grande e era em uma área complicada. - A cirurgia será difícil, certo? Perguntei receoso. - Sim, mas creio que ela perderá apenas a memória mais recente, a memória de curto prazo, já a de longo prazo fica nessa área, então a chance é melhor, mas há um problema. Disse ele largando a tomografia e cruzando os braços. - Qual Doutor? Como disse sou médico pediatra, mas algumas coisas entendo. Disse olhando para ele. - Ela poderá entrar num coma profundo, e pode passar muito tempo sem acordar, você sabe a decisão dela. Disse ele olhando para Katie. - Sim, eu sei, desligar os aparelhos depois de seis meses. Disse quando uma enfermeira entrou no consultório. - A paciente do 309 acordou e chamou pela filha. Disse ela sorrindo. - Ótimo, já tiraram os aparelhos? Perguntou ele levantando da cadeira. - Sim Doutor. Disse a enfermeira e saiu. Querem ver ela? Vocês vão ter muito o que conversar. Disse o Doutor Dênis. Levantei da cadeira com Katie em meus braços e o segui em direção ao quarto de Ally, como era difícil estar ali, sabia que ela não gostaria de me ver. Afinal sua última lembrança era eu dizendo que ela estava mentindo sobre termos uma filha, e agora estou aqui com ela em meus braços pronto para contar para a mãe dela, que eu havia decidido fazer uma cirurgia arriscada. Tudo naquele hospital me deixava nervoso, eu amava ela, havia feito coisas erradas, mas tentaria consertar as coisas.
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