Capítulo 1 – Imã de problemas
Adden Montecchio é um ex-fuzileiro naval, atualmente afastado das forças armadas. O último combate deixou marcas profundas em sua alma: seu comandante foi morto após um atraso na formação da equipe. Adden tentou salvá-lo a todo custo, mas não conseguiu chegar a tempo.
Hoje, ele busca uma vida estruturada e isolada no campo. Vive de suas colheitas e só vai à cidade quando estritamente necessário. Para manter a forma de seus 1,98m de altura, forte e másculo, montou uma academia caseira. Carrega no corpo várias medalhas de combate, uma pele morena bronzeada por cicatrizes e tatuagens, e no rosto, um olhar sério e frio de quem não tolera injustiças. Mestre em camuflagem e combate corpo a corpo, Adden é o tipo de homem que protege quem ama com a própria vida.
Apesar de querer uma rotina pacata, longe de complicações, ele parece um ímã para problemas. Não tem família — seus pais morreram em uma emboscada no passado —, mas seu mundo gira em torno de Rebecca, sua filha de criação de 8 anos. A menina vive com a mãe, Samanta, que desistiu do amor que sentia por Adden devido à antiga vida cigana e instável dele. Mesmo distante, ele garante que nunca falte nada para a pequena.
Instalado há pouco tempo na região do Brooklyn, Adden adotava um lema rígido: "O que ninguém sabe, ninguém estraga". Mas o silêncio do seu refúgio foi quebrado pelo toque do celular.
Do outro lado da linha, a voz de Lorenzo, seu antigo contato, foi direta:
— Nova missão para você, tenente. Precisamos que se infiltre como guarda-costas na casa de um poderoso chefão que está até o pescoço com as organizações da máfia.
A ordem de Lorenzo veio acompanhada de detalhes técnicos:
— Seu objetivo é proteger uma mulher de aproximadamente 1,70m e 70kg. Branca, cabelos pretos até a cintura e olhos azuis marcantes. O nome dela é Yacemim Castelli. Ela é esposa de um dos sócios que estamos investigando, um homem chamado Gustavo Volkon, que aparentemente faz de tudo para não expor seus negócios sujos. Fachada perfeita. Para o público, Yacemim comanda uma ONG beneficente que apoia mulheres vítimas de violência doméstica.
O que Adden não imaginava é que a teia de segredos era ainda mais profunda: Yacemim também estava disfarçada, jogando o próprio jogo para colocar os mafiosos — e quem cruzasse seu caminho — atrás das grades. Restava saber se os disfarces resistiriam quando o clima entre os dois começasse a esquentar.
Nos dias atuais, o som de ferro batendo ecoava pela casa de campo. Adden malhava intensamente enquanto ouvia os áudios de Lorenzo com as instruções táticas e as rotas de extração. Naquela mesma noite, haveria um jantar de gala na mansão do mafioso. O momento perfeito para Adden se apresentar e plantar as escutas eletrônicas.
Um bipeecoou no visor do aparelho. Lorenzo havia encaminhado a foto de Yacemim. Adden interrompeu o exercício, pegou o celular e encarou a imagem com atenção por longos segundos. Logo em seguida, jogou o aparelho de lado com irritação e pressionou o ponto eletrônico em seu ouvido, abrindo o canal direto com o superior.
— p***a, Lorenzo! Tá de s*******m com a minha cara?! — esbravejou, a voz rouca de raiva. — Eu tenho certeza absoluta que ela também é uma agente. Eu não protejo espião disfarçado e você sabe muito bem disso!
A resposta do outro lado veio fria, cortante e sem espaço para discussões:
— Adden, ela está prestes a ser descoberta. É por isso que eu liguei para você. Essa é uma missão de resgate, vida ou morte. Ou você entra lá e salva a vida dela, ou deixa ela para ser estraçalhada pelos lobos. É isso o que você quer?
As palavras ecoaram na mente do ex-fuzileiro. Automaticamente, a imagem do seu antigo comandante morrendo em combate invadiu seus pensamentos. O peso da culpa e o fantasma do passado falaram mais alto. Ele não cometeria o mesmo erro duas vezes.
Adden desligou o canal de comunicação e caminhou até a sua suíte master para se aprontar. Vestiu um terno sob medida bem cortado, mas combinou com sapatos sociais confortáveis — caso precisasse entrar em ação. Penteou o cabelo castanho-escuro, que mantinha sempre no corte militar, e aparou a barba baixa. Por fim, ajustou o ponto eletrônico imperceptível no ouvido.
Ele partiu em sua moto preta de alta cilindrada. O motor era modificado: uma máquina extremamente possante, mas que corria sem fazer barulho nenhum. Ao estacionar próximo à propriedade, tirou o capacete e o prendeu no veículo. Ele sabia que se qualquer curioso tentasse mexer ou tirar algo do lugar, o sistema de segurança integrado causaria uma explosão na certa.
Ao se aproximar da mansão, Adden olhou para cima e congelou por um segundo. No segundo andar, recortada contra a iluminação da sacada, estava uma mulher vestindo um longo vermelho. Só podia ser ela. E estava deslumbrante.
— Vou ter bastante trabalho por aqui... — murmurou Adden em voz alta.
No ponto eletrônico, Lorenzo soltou uma risada baixa.
— Daqui a pouco você vai ter companhia para o jantar. Boa sorte, tenente.
Adden começou a passear discretamente pelos salões da mansão para verificar o perímetro e mapear as saídas de emergência. Foi quando, vindo do andar de cima, o som de vozes alteradas e gritos abafados chamou sua atenção.
— Eu já falei para você que não vou ficar com uma sombra atrás de mim! — a voz feminina da Yacemim ecoou, ríspida. — Eu sou livre e sei me cuidar sozinha!
— Você está me desafiando, Yacemim? — a voz grossa de Gustavo Volkon rosnou em resposta. — Quando eu falo uma coisa, está falada e acabou. O homem já está aqui na casa!
Yacemim rebateu com firmeza, avisando que na primeira oportunidade fugiria daquela prisão dourada. O silêncio que se seguiu foi quebrado por um som seco e estalado: um tapa violento no rosto de Yacemim. A força do impacto foi tamanha que ela caiu no chão.
Escondido nas sombras do corredor, Adden ouviu a agressão. Seus punhos se cerraram com tanta força que as articulações dos dedos ficaram brancas. O sangue ferveu, mas o instinto profissional o obrigou a se conter; intervir ali destruiria a missão antes mesmo de começar. Ele respirou fundo, esperando o mafioso sair do quarto pisando firme.
Assim que o corredor ficou limpo, Adden entrou no aposento. Yacemim ainda estava no chão, tentando se recuperar. Ele se aproximou com passos silenciosos, parou diante dela e estendeu a mão robusta. No rosto, ostentava seu característico olhar frio e gelado.
— Quer uma ajuda? Parece perdida... — disse ele, a voz grave ecoando no quarto.
Yacemim ergueu os olhos azuis cor de gelo, recusou a mão estendida e levantou-se sozinha, limpando o canto da boca.
— Está perdendo o seu tempo — desdenhou ela, encarando-o com arrogância. — Não preciso de proteção.
Em um movimento rápido e calculado, Adden deu um passo à frente, segurou-a firme pelo braço e a pressionou de leve contra a parede, encurralando-a. O perfume dela era inebriante, mas o foco dele permanecia intacto.
— Você não tem escolha — sussurrou ele, fixando os olhos nos dela. — E eu não vou deixar ninguém morrer hoje. Então, vai se acostumando comigo. Prazer, meu nome é Adden Montecchio... e eu vou ser o seu guarda-costas.
Aquelas palavras entraram cortando direto no orgulho e no ego de Yacemim. A guerra fria entre os dois estava apenas começando.