- Quem vai ser o primeiro a apresentar o poema? Alguém se habilita? - Um silêncio mortal invadiu a sala. Os humanos tem tanto medo de apresentações... Qual o problema deles? - Billie, podemos começar com você?
- Pode ser. - Falei e dei os ombros. A aula de literatura é boa, eu gosto da arte escrita dos humanos. Existem humanos fascinantes.
Me posicionei na frente da sala com o caderno em mãos. Eu estava vestindo um short preto bem largo, tênis preto e branco e um moletom preto com touca. Tirei a touca na hora de apresentar.
A única pessoa que conheço nessa sala, além da professora, é a Ellen. E a Ellen é insuportavelmente boa em literatura. Ela pode ser burra em exatas e chata, mas escreve muito bem.
O tema da poesia era: Perguntas. Tínhamos que encaixar várias perguntas em uma poesia. E lá fui eu.
"Por que me deixou,
Por onde andou
Ou é um erro que o estado em que estou?
É legítimo criar e abandonar?
É legal entristecer seus filhos
Com o abandono e sumiço?
Onde é que você está?
Como se sente quando te procuro?
Vou para o limbo por questionar.
O que vai aprender com seus erros?
Ou insiste em acreditar que nunca errou?
A criação é um pesadelo, o mundo acabou
Não há esperança em lugar nenhum
As rosas que criou hoje tem espinhos
Por que ferir, por que existir?"
A professora abriu um sorriso quando terminei de declamar a poesia. Aplaudiu, assim como toda a sala. E aí, uma sequência de alunos começou a tomar coragem e falar, vez após vez, suas poesias.
Quando o sinal tocou, Ellen veio até mim com calma, como se quisesse falar comigo sem me atormentar.
- Sua poesia foi tocante, Billie. Não achei que você pudesse ser profunda, mas... Você é. Talvez eu esteja enganada sobre você. - Suspirei ao ouví-la.
- Você tá errada sobre muitas coisas, Ellen. Principalmente na forma como você trata as pessoas. Você não precisa ser uma otária para ser respeitada... Entende? - Ela cruzou os braços.
- Eu não gosto de ser assim o tempo todo, mas se eu não sou, as pessoas sobem em cima de mim. - Ela resmungou.
- Não. Se você for legal e tratar as pessoas com respeito, elas terão respeito por você. E se você admitir que está errada nesse comportamento... O respeito fica ainda maior. Acredite. - Falei. Ela fez um bico de insatisfeita consigo mesma.
- Você acha?
- Tenho certeza. Você não é má, Ellen. Só tá perdida e precisa de ajuda. - Depois que falei isso, saí. Ellen veio andando atrás de mim como uma p***a de uma sombra.
- Olha, eu acho que a gente começou com o pé errado. Você é bem diferente das pessoas com quem você anda. Senta comigo hoje no intervalo. - Abri um sorriso ao olhar pra ela. Mas era um sorriso irônico.
- Tá falando da Rosa? - Ela respirou fundo.
- Não só dela. Os meninos... Todo mundo é tão perdedor. - Ela girou os olhos.
- Você subestima as pessoas e se superestima. Na minha cabeça, a única perdedora que temos entre todos eles é você. Com licença, Ellen. - Virei o corredor. Não, eu não vou ser sua amiga, seja lá o que você esteja planejando, Ellen.
Entrei na aula de história. A Rosa já estava com a cara enfiada no livro. Ela ama história, talvez até siga nesse ramo, pelo que sei. Sentei na carteira atrás da dela e falei baixinho.
- Oi, linda. - Ela sorriu ao me ouvir e virou pra trás, para me olhar.
- Oi. Vi você conversando com a Ellen hoje. O que ela queria? - Girei os olhos.
- Ficou impressionada com uma poesia que escrevi e quis virar minha amiga. Mas já dei um fora nela. Não gosto que maltratem você. - Rosa ficou vermelha. - Ficou com vergonha do que eu disse? Eu falei algo errado?
- Não, Billie. É só que... Você é... Especial. Você fala coisas e faz coisas que as outras pessoas não fazem. Pelo menos não pra mim. - E essa vontade que eu tô de beijar essa menina no meio da sala de aula, é normal?
O dia passou de forma chata, disfuncional e quando percebi, já eram seis da tarde. Eu tava deitada e esparramada na minha cama esperando o dia acabar.
- Billie? - Caim entrou no meu quarto. Por ser um anjo, mesmo caído, meu quarto é organizado até.
- Sim. - Respondi, ainda olhando para o teto.
- Você tem visita. - Eu? Eu tenho visita?
E aí, a Rosa entrou pela porta. Ela tava vestindo um vestido rodado azul, desses que ela usa pra trabalhar na floricultura, e uma botinha marrom.
Eu me sentei na cama e a olhei, enquanto Caim fechava a porta.
- O que tá fazendo aqui? - Não, eu não me sinto confortável com ela no meu quarto, ou com ela em qualquer outro lugar sozinha comigo, depois que a gente quase foi pra cama.
- Eu vim te ver. Acho que eu fiquei com saudade de passar um tempo... A sós com você. Você parece que tá me evitando essa semana... - Ela se sentou do meu lado, na cama. - Você não tá me evitando, né?
- Na verdade, Rosa... Eu tô. - Mentir não é comigo. Eu sou péssima nisso. - Olha, a culpa não é sua. Eu sou uma... Pessoa... Complicada. - Respirei de forma profunda. Ela me olhava como se eu estivesse falando a maior bosta de todas.
- Eu acho que você não é uma pessoa complicada. - Rebateu. - Tá me evitando por causa do beijo?
- Sim. Não tá certo. Eu deveria te proteger e... Deixar você viver sua vida, não ficar beijando você no seu quarto. - Ela soltou uma risada. Tá, faria sentido se ela soubesse que era para eu ser o anjo da guarda dela, mas ela não sabe.
- Você não tem que me proteger, Billie. Mas eu acho muito fofo que você queira. - Ela sorriu pra mim. - Se não quer mais ficar comigo, tudo bem. Eu quero ficar perto de você, estar perto de você faz com que eu me sinta tão bem... Não quero perder isso.
- Então, é melhor assim. - Falei. Eu me deitei na minha cama, e ela deitou logo em seguida, de frente pra mim. Perigosamente perto. De propósito, eu sei.
- O que você fazia quando estava na sua cidade antiga? Você nunca me contou. - Ela falou. Levou uma das mãos até as correntes do meu pescoço, e ficou as dedilhando e olhando, enquanto esperava minha resposta.
- Eu fazia muitas coisas. Cuidava dos animais, estudava, fazia olaria, pintura, tocava instrumentos... - Ela ergueu a sobrancelha e me olhou.
- Você era uma pessoa bem ocupada. Sente falta? - Ela encarou meus olhos.
- Um pouco. Eu sinto falta da minha amiga Luz... Às vezes até do professor Moisés, que era um saco. - Nós duas rimos. - Mas tem uma pessoa que eu sinto falta mais do que todos.
- Quem? - Ela estava ansiosa pela resposta.
- Meu irmão mais velho. - Eu não podia falar o nome dele. Imagina se ela soubesse que eu e Jesus somos irmãos? Que eu admiro o filho preferido de Deus?
- Ah, Billie... Eu sinto muito. Por que você não vai visitar seu irmão um dia desses? - Eu dei uma risada triste. Triste mesmo.
- Não posso visitar meu irmão. Aquela cidade não me comporta mais, princesa. Um dia, quem sabe, meu pai... - Esqueci, por um momento, que Caim age feito meu pai. - Padrasto. Quem sabe um dia meu padrasto me perdoe... E me aceite de volta. Ou ao menos me deixe ver meus irmãos.
Rosa levou uma das mãos até meu rosto, o afagando com carinho. Ela me olhava com aquele sentimento humano que eu admiro, mas que poucas pessoas realmente tem: Empatia.