Anjo Bêbado

978 Words
Você já deve ter ouvido falar de depressão pós bebedeira, não é? Essa é minha primeira desde que vim para a terra. Explico: Tudo começou depois que eu saí da casa da Rosa depois de ter dado uma p***a de um selinho nela. A gente poderia ter feito muito mais se eu não tivesse apagado a memória dela. E eu não teria apagado a memória dela se o Caim não tivesse falado merda. E o Caim não teria falado merda se a p***a da Luz não tivesse caído. E tudo isso volta em mim... A Luz não teria caído se um belo dia eu não tivesse apresentado meus pensamentos à ela. Pobre Luz, ela tem razão de querer me matar. Eu tô jogada na sarjeta com uma garrafa de bebida na mão. Não tenho pra onde ir, não quero ver o Caim, não quero saber da Luz, não quero ver a Rosa. Eu não quero ver ninguém porque eu sou uma p***a de uma fodida que tudo que toca, estraga. Bebi gole por gole até perder a sobriedade. Eu falei tanta bobagem comigo mesma, pra quem quisesse ouvir... Eu xinguei Deus por ter me feito como sou, exigi explicações, mas ele me ouviu? Mais uma vez, não. Quando eu terminei a garrafa, percebi que daquela felicidade infame que eu tive por talvez uma hora, só sobrou a p***a de um vazio imenso que sempre esteve dentro de mim. E aí eu lembrei da Rosa. A primeira vez que eu dormi abraçada com ela, eu senti aquele vazio diminuir. Fazia tanto tempo que eu não sentia isso... Talvez uns cinco anos. E aí, a memória dela teve que ser apagada e ela não se lembra mais disso. Eu não sei se eu deveria reconquistá-la, não sei se deveria me afastar. Eu sou a p***a de um anjo caído e ela é uma adolescente normal com desafios como o vestibular. Eu vou embora? Eu fico? Eu não sei. Eu me enfraqueci desde o momento que botei os olhos naquela garota. Acabei dormindo na rua, mesmo. Entendi naquele momento que os humanos sofrem, sofrem mesmo, por coisas pequenas e grandes. Por palavras, atos e às vezes por simples mensagens mandadas no momento errado. Lembro-me que a cada aula no paraíso, começávamos pedindo a proteção de Deus e, eu, esperava de verdade que algum dia ele protegesse a gente. Eu queria que ele existisse e se importasse, porque seria melhor e mais fácil. Quantas vezes eu olhei para o infinito dizendo: Deus, eu preciso mesmo de força pra não fazer essa merda, você pode me ajudar? E resposta sempre foi o silêncio. Agora que a sobriedade está voltando, eu estou triste. Triste porque dói fazer o que é certo. Eu sempre soube, mas dói. A Rosa em algum tempo jamais lembrará que eu existi, mas como a gente esquece uma garota como ela? Eu vou realmente ter que esquecer? Essa é a decisão correta? Por que diabos minha vida não veio com uma p***a de um script? Oh, espere... Ela veio com um script. E eu surtei. Um dia, eu vou entender o propósito de tudo isso. Mas não hoje. Hoje eu tô bêbada demais, triste demais e com muita saudade de alguém que nem lembra quem eu sou direito. É f**a. É extremamente f**a. - Billie! - Era a voz do Caim. Como ele me achou? - Sai daqui, seu filho da p**a! - Eu saí andando para longe dele, com muito ódio. - Não. Não fica com raiva! Eu tava tentando proteger você de você mesma! Você não pode continuar perto da Rosa, você vai surtar! Vai ser arrastada para o Limbo! Eu uni o útil ao agradável, querida! - Você é louco. Você decidiu por mim se eu ia continuar com a Rosa? É sério? Você é muito i*****l. - Girei meus olhos. Caim se aproximou de mim, e colocou a mão no meu ombro. - O que você fez com a Luz? - Convenci ela a não matar nem eu nem você por enquanto. Então, ela tá solta. Por enquanto também. Toma cuidado com ela, ela pode aparecer a qualquer momento e f***r com tudo. - Olhei para a cara dele, com nojo. - Não entregou ela pra quem a encomendou? - Ele negou com a cabeça. - Não posso acreditar, porque você mentiu pra mim. Como vou acreditar depois das mentiras? - Eu menti pra te proteger. E aprendi a minha lição. Então... É melhor você confiar em mim, porque além de mim, não há ninguém nessa terra ou céu que se importaria com um anjo caído. Eu não queria que você fosse arrastada pro Limbo, Billie. Gosto da sua companhia. Gosto da nossa parceria... - Ele suspirou. - Não sei de consigo te perdoar. A Rosa não lembra de quase nada do que vivemos. Isso é tão triste. Corta meu coração. - Respirei de forma profunda. Ele apenas demonstrava culpa em seu rosto. - Vai passar. Eu juro que vai. E você, se mantenha longe dela... Sua vida será melhor. - Como eu vou me manter longe da Rosa? É como se algo sobrenatural estivesse me empurrando até ela! Eu preciso... Preciso estar por perto. - Ele negou com a cabeça. - Você tá confusa. Amanhã, quando estiver mais calma e menos bêbada, eu te explico tudo com calma. Um humano e um anjo caído não podem se relacionar, como eu disse. E eu espero que você tenha entendido o motivo, ontem. - Ainda estou tentando entender o porquê. Mas talvez minha racionalidade grite desde o início, que é errado, mas eu não dei ouvidos. - Caim cruzou os próprios braços como se estivesse com frio. Eu também. - E aí você vai contra a sua racionalidade e acaba na sarjeta. - Concordei com a cabeça. - É. Infelizmente. Talvez amanhã o dia seja melhor. Talvez.
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