Decepção

1311 Words
Tristeza, decepção, dor, melancolia. Senti todas as sensações quando deixei a Rosa apagada na cama dela, sabendo que ela não lembraria de quem eu sou. Eu não acredito que o Armagedom tá vindo e eu tô pensando nessa humana e no nosso não-relacionamento. Sequer falei algo sobre sentimentos com ela, foi apenas carnal... Por que eu me importo tanto? Cheguei em casa e Caim já estava colocando algumas coisas no carro. Seria uma viagem de duas horas até o local que Luz iria cair. Entramos no carro, e ele foi dirigindo. Eu estava com os pés no banco, olhando para o lado de fora, pensando por que diabos eu tinha que ter feito sexo com essa garota a noite inteira, porque afinal, não existe a menor possibilidade de eu esquecê-la, mas ela vai me esquecer. - Billie? - Caim me tirou do meu mundo paralelo onde eu estava. - Billie... Olha, eu sei que parece r**m, mas você fez o que era preciso. Nenhum ser humano, quer dizer, quase nenhum ser humano aguenta saber sobre a existência de seres sobrenaturais. - Por que me sinto tão m*l, Caim? Eu não queria que ela me esquecesse... Não queria que ela esquecesse a noite de ontem... - Suspirei. Caim também. - Você gosta dela. E não adianta negar. É isso que acontece quando um anjo caído se envolve com um humano. Sempre, sempre vai dar errado. - Ele parecia triste. - Já se apaixonou por um humano, Caim? - Ele soltou uma risada. - É óbvio. E foi bem mais complicado, porque eu não sou um anjo caído... Eu sou um demônio. Vendi minha alma para Lúcifer antes de morrer, e em troca, ele me deixou viver até o mundo deixar de existir. - Ergui as sobrancelhas. - Uau. E você se apaixonou por quem, exatamente? - Ele soltou uma risada. - Andrej. Eu estava na Alemanha, na época da segunda guerra mundial. Quase morreu em batalha. Era um capitão exemplar... A alma mais linda que já vi. Mas escolheu lutar pelo lado errado. - Abaixei meu rosto. Lembro-me da aula de história, e essa época foi tensa. - Eu sinto muito. - Falei. - Não sinta. O Andrej virou demônio também. Só que agora a gente se odeia. Porque é isso que acontece, quando você é um demônio... Não há lugar para o amor. - Agora, Caim realmente estava triste. - E no meu caso, se eu amar alguém, sou arrastada para o limbo. Não é muito diferente, no final das contas. - Ele concordou com a cabeça. - Ao menos você descansaria eternamente no limbo. - Ele estacionou o carro. - Chegamos. Em alguns minutos, nossa anjinha estará conosco. Eu e Caim saímos do carro. Corremos atrás do vulto que vinha do céu com uma velocidade imensa. Quando Luz colidiu com a terra, senti um pequeno tremor nos pés. Cheguei correndo o mais rápido que pude, e assim que me aproximei dela, arregalei os olhos. Ela estava tão... Diferente. - Luz! O que diabos você fez? - Ela me olhou com ódio. Eu dei um passo para trás. - Sua p*****a! - Ela avançou em cima de mim e eu tentei me defender do poder dela com minhas asas. Até que consegui, apesar de estar definhando na terra há mais tempo. - Eu vim matar você, sua vaca! Por que você tinha que colocar aquele monte de dúvidas na minha cabeça, Billie? - Eu não fiz nada! Ei! Eu não tenho culpa se você também duvidou do paraíso! - Ela me jogou um raio de luz que quase, quase me queimou. Por sorte, tenho Caim do meu lado. Esse filho da p**a é um guerreiro de marca maior. Não demorou muito até Luz estar acorrentada com as correntes que Caim trouxe. Pra falar a verdade, eu nem vi como foi. Só sei que em determinado momento, eu estava escondida embaixo das minhas próprias asas e no outro, Luz estava acorrentada. - Tudo sob controle! - Caim gritou. Eu me aproximei dela e de Caim. - Não acredito que você tentou me matar! Sua v***a sem coração, você era minha melhor amiga! - Dei-lhe um chute no estômago. A vaca nem gemeu. Minha força realmente não era como antes. - Você destruiu minha vida no paraíso! Por sua culpa, cada passo que eu dava lá, eu duvidava de tudo! Eu tive que fazer alguma coisa! Me solta, caramba! - Ela se debatia amarrada nas grandes correntes de Caim. - Nem pensar, bonequinha. - Caim retrucou. - E aí você teve a brilhante ideia de usar O ÚNICO LIVRO DO UNIVERSO que é proibido para os anjos, sua i*****l? Hein? Não sabe que trouxe o caos para a terra por causa da sua burrice? - Ela arregalou os olhos. - Do que você tá falando, sua maluca? Foi Jesus quem abriu o buraco pra eu me jogar! Eu conversei com ele! - Arregalei os olhos, e olhei para Caim. Ele estava coçando a parte de traz da cabeça. - Mas que c*****o está acontecendo, Caim? - Eu olhei confusa. - Eu precisava capturar sua amiga. Sozinho eu não conseguiria, e eu sabia que você não ajudaria... A menos que fosse o fim do mundo. Meu sangue ferveu. Eu perdi a Rosa a troco de literalmente uma das caçadas do Caim. - Você me fez perder a Rosa! VOCÊ ME FODEU, CAIM! - Meu corpo queimava. E aí... Eu fugi. Abri minhas asas e fugi, para o único lugar na Terra onde eu gostaria de estar. Eu pousei algumas ruas antes da casa da Rosa, e caminhei chorando até a casa dela. Meu corpo inteiro doía. Eu senti a dor da traição do meu amigo Caim, senti o ódio da minha amiga Luz... E aqui estou eu, parada, em frente a casa da Rosa. Tudo que eu queria era abraçá-la e beijá-la como fiz na noite anterior. Rosa saiu pela porta e estava com um saco de lixo na mão. Quando ela me viu... Ela sorriu. - Oi, Billie! Espera, ela disse meu nome? Ela realmente disse meu nome? - Rosa... - Meu coração estava acelerado. Ela jogou o lixo no lixo e depois veio até mim, com um sorriso nos lábios. - Tive um sonho super esquisito com você. - Ela soltou uma risada. Quer entrar um pouco? - Eu não sei... Eu não sei se eu devo. Por Deus, você lembra do que fizemos ontem? - Ela soltou uma risada. - Claro que eu lembro! Você me ensinou Física. - p***a! Ao menos... Ela lembra de mim! - É, não foi bem ontem, acho que você tá meio confusa com os dias. Mas... É. - Ela pegou meu braço e começou a me arrastar para dentro da casa dela. - Preciso te contar sobre o sonho. Acho que ia acontecer algo tipo o fim do mundo... E você era um anjo caído. Foi tão maluco! - Ela ria. Meu Deus. Eu tô realmente muito, muito enfraquecida. O encantamento do esquecimento no protegido não funcionou por completo... E eu não sei se isso me conforta, ou me preocupa. Entramos no quarto de Rosa, e assim que ela fechou a porta do quarto, eu a puxei pelo braço, fazendo-a parar na minha frente. Eu sei que ela sente o mesmo que eu, eu sinto isso. Levei as duas mãos até o rosto dela e inclinei meus lábios até os dela, pressionando-os com delicadeza. Encostei minha testa na dela, e ela, sem entender, se manteve ali parada. - Billie... - Ela abriu um sorrisinho. - Não fala nada. Eu tive um dia péssimo. Eu só preciso de você comigo, Rosa. - Ela sorriu mais uma vez. - Claro... Eu estou aqui. - Ela me olhava com aqueles olhos enormes. Acho que é a primeira vez que agradeço por ser mais fraca do que normalmente sou.
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