NARRADO POR TROVÃO O ódio é um motor que não engasga, parceiro. Ele trabalha no seco, queima o peito por dentro e empurra o sangue com a força de um pistão desregulado que não conhece o significado de trégua. No dia seguinte, a favela da Tormenta não acordou com o raio do sol nascendo por trás da montanha ou com canto de passarinho; o morro acordou sob o comando do crime, com o som seco, metálico e sincronizado do ferrolho de mais de duzentos fuzis sendo puxados ao mesmo tempo por toda a extensão da nossa comunidade. Era o despertador do Comando Vermelho avisando pro asfalto que o inferno tinha sido liberado e que a cobrança ia ser feita na carne. O ar daquela madrugada tava pesado, abafado, carregado com aquela eletricidade maldita e densa que antecipa o rastro de sangue, o desespero de

