O morro tá num veneno que só Deus pra ter piedade, porque eu não tenho nenhuma. O sol tá rachando o asfalto, mas aqui na crista da Tormenta o clima é de gelo, aquele frio de necrotério que arrepia até a alma do capeta quando ele resolve subir o escadão com a gente. Eu tava no alto da laje, o suor descendo igual óleo de motor pelo rosto, mas o fuzil tava soldado na mão — um AK-47 blindado, com o pente de 60 pronto pra cuspir o inferno na cara de qualquer verme que desse um passo em falso na minha direção. No radinho, o chiado era aquela estática maldita, até que a voz do meu gerente de contenção rasgou o ar igual navalha em carne mole.
— Trovão na escuta... o pacote tá no ponto do sacrifício, patrão. O verme tá aqui se desmanchando em bosta e mijo, implorando pela vida. A gente já passa o cerol agora ou espera o senhor descer pra dar o veredito?
— Segura esse lixo aí, p***a. Ninguém encosta a mão nesse desgraçado antes de mim. Quero sentir o cheiro do medo desse rato de perto, quero ver a cor do sangue de traíra antes de mandar pro colo do sete pele — eu rosnei pro rádio, sentindo o sangue pulsar na têmpora com a força de uma marreta batendo em ferro frio.
Desci as escadarias do Morro da Tormenta no passo do mestre, cada batida da minha bota no concreto era um trovão anunciando que o juízo final tinha chegado pros moradores. Quando o Trovão desce com o semblante fechado, o morro inteiro silencia. É o tribunal do crime abrindo a sessão, e no meu tribunal não tem advogado de porta de cadeia, não tem recurso e a sentença é sempre definitiva, escrita com sangue e fogo. O Comando Vermelho aqui não é colônia de férias; é gestão de guerra, e eu sou o general mais sanguinário que já pisou nesse chão maldito.
Cheguei no setor do lixão, um lugar onde até os urubus têm nojo de pousar. No meio de um círculo de fuzis, amarrado com arame farpado de cerca de fazenda, pra que cada movimento rasgasse a pele até o osso, tava o "Dentinho". Um moleque que a gente criou no leite com pera, deu o radinho, deu a moral, deu a dignidade, e o desgraçado resolveu que era uma boa ideia passar a visão da nossa logística e das nossas rotas de fuga pra milícia safada do morro vizinho. Pior que X9 de cana é o traidor que vende o irmão por um punhado de nota suja pros milicianos de farda azul.
Eu parei na frente dele, o cano do meu fuzil ainda quente do teste de tiro. O moleque tava se tremendo todo, uma poça de mijo verde de medo se formando debaixo dele.
— Trovão, pelo amor de Deus, chefe! Eles pegaram minha mãe, eu tive que falar! Foi na pressão, patrão! — O verme soluçava, o rosto já era uma massa de carne esponjosa de tanta porrada que levou da contenção.
Eu dei um riso seco, sem um pingo de alma, e acendi um cigarro, soprando a fumaça de nicotina direto na ferida aberta no rosto dele.
— Tua mãe, seu bosta? Tu usa o nome da coroa pra esconder tua fraqueza de homem? No meu morro, a gente morre, a gente é triturado, mas não entrega a família. Tu vendeu a segurança de mil famílias, de mil crias, por causa do teu medo de homem frouxo. Tu é um câncer, Dentinho. E o que a gente faz com o câncer? A gente arranca fora pra não espalhar a podridão.
Fiz um sinal e os moleques trouxeram um arsenal de maldade pura: um balde de sal grosso, um galão de ácido sulfúrico que a gente usa pra limpar as peças de metal e dois sacos de estopa que se mexiam sozinhos, um barulho de arranhão vindo de dentro que dava arreio.
— Já que tu gosta de abrir a boca pra falar demais, vamo ver se tu aguenta o silêncio eterno agora — eu disse, puxando uma faca de caça rambo, aquela que eu mantenho sempre amolada no couro pra momentos de lazer como esse.
Sem aviso, enfiei a mão na boca dele, puxando a língua pra fora com uma força que quase deslocou a mandíbula do infeliz. O grito dele foi abafado pela minha mão suja de pólvora. Com um movimento lento e c***l, eu fui serrando a língua dele, sentindo os nervos se soltando, e joguei o pedaço pros vira-latas que rodeavam o lixão. O sangue jorrou na minha camisa, mas eu nem pisquei.
— Agora tu não passa visão pra miliciano nenhum, seu verme — sussurrei no ouvido dele, enquanto ele engasgava no próprio sangue borbulhante.
Mas eu tava só começando o espetáculo. A crueldade aqui é a única linguagem que esse bando de rato entende. Se eu for bonzinho, amanhã tem outro querendo me vender por preço de pinga. Joguei o balde de sal grosso em cima dos cortes profundos do arame farpado e vi o desgraçado ter uma convulsão de dor, os olhos quase saltando pra fora das órbitas.