Capitulo 2

987 Words
— Traz as visitas — ordenei. Os soldados abriram os sacos de estopa. De dentro, saíram dezenas de ratos de esgoto, daqueles imensos, famintos e raivosos, junto com três cobras Caninanas que a gente tinha capturado na mata do alto do morro. Jogamos tudo em cima do corpo dele, amarrado no chão. Os ratos, sentindo o cheiro do sangue e do sal, começaram a roer as extremidades do moleque, arrancando pedaços das orelhas e dos dedos enquanto ele se contorcia, mudo, emitindo apenas um som de agonia que parecia um bicho sendo abatido. As cobras se enrolavam no pescoço dele, dando aquele bote seco na carne viva. — Prepara o micro-ondas — falei, a voz saindo fria como o aço do meu AK. Eles empilharam os pneus em volta do verme, cobrindo os ratos, as cobras e a carne humana numa torre de borracha e morte. O desespero nos olhos dele era a única coisa que me dava algum tipo de satisfação. Eu não sinto prazer, eu sinto o dever cumprido quando limpo o meu morro dessa sujeira humana. No Comando Vermelho, o certo é o certo, e o errado é cobrado no rigor do fogo. — Joga o suco — mandei. O cheiro da gasolina invadiu o lugar, misturado com o cheiro do lixo e do sangue. O Dentinho tentava gritar, mas só saía uma espuma vermelha da garganta mutilada. Eu peguei o isqueiro, olhei praquela massa de pneus, animais e traição, e joguei a chama. O fogo subiu alto, um clarão que iluminou a tarde cinzenta do Rio igual um sol n***o. O som do corpo estalando no calor, os ratos fritando e a borracha derretendo era música pros meus ouvidos calejados de guerra. Eu fiquei ali, parado, sentindo o mormaço no rosto, vendo a traição virar fumaça n***a que subia pro céu pra avisar a cidade inteira quem é que manda aqui. — Recolhe o que sobrar de osso e joga pros porcos lá do fundo — falei pro Coveiro, sem nem olhar pra trás. — E avisa na geral, no radinho de ponta a ponta: quem estiver em contato com a milícia ou com os canas, o destino é esse aqui. O Trovão não perdoa, o Trovão apaga a existência. Subi de volta pro bunker, sentindo a adrenalina baixar e o ódio habitual tomar conta da mente. No corredor, cruzei com uns moleques novos da boca, eles abaixaram a cabeça na hora, o medo exalando dos poros. É assim que tem que ser. Respeito pelo medo é o único que dura nessa vida de cão que a gente leva. Entrei na minha sala, joguei o fuzil em cima da mesa de ferro e peguei uma garrafa de whisky. Tomei um gole puro, sentindo a garganta queimar, mas a queimação não era nada perto do que ainda tava por vir. Recostei na cadeira de couro, o perfume de pneu queimado ainda grudado no meu nariz. Foi quando a porta foi aberta com um chute. Era o Coveiro. Ele tava com o radinho no peito dando sinal de prioridade total. — Trovão, a cúpula do CV tá em linha. Os conselheiros já tão no ponto, só te esperando lá no Paiol do Inferno. O papo é reto e é sobre a expansão da milícia na base do morro. Eles querem saber se tu tem braço pra segurar essa bronca ou se vão precisar mandar o bonde de reforço. Eu dei um último gole na garrafa, senti o fogo subir pro cérebro e me levantei. No meu mundo, reunião com a cúpula nunca é pra tomar café; ou é pra planejar a chacina ou pra cobrar a postura de quem tá no topo. E eu não nasci pra ser cobrado por ninguém. Saí do bunker cercado por uma escolta de doze soldados, todos com o rosto coberto por balaclavas de caveira, fuzis com luneta de precisão e carregadores emendados. A gente caminhava pelas vielas e o silêncio era de cemitério. Onde o Trovão passa, até o vento pede licença. O morador se tranca, o vapor gela a espinha e o radinho silencia por respeito absoluto. Chegamos no Paiol do Inferno, um galpão subterrâneo camuflado por uma oficina de fachada cheia de carcaça de carro e óleo. O cheiro lá dentro era uma mistura de óleo diesel, pólvora velha e o mofo da umidade que brota da rocha. Quando entrei, a fumaça de charuto formava uma névoa que m*l dava pra ver quem tava sentado na mesa. Lá tavam eles: os donos de outros complexos, os caras que decidiram que o Rio é o tabuleiro deles. Homens com o corpo riscado de tiro e a alma vendida pro crime. — Trovão na área — anunciou o Coveiro, batendo a coronha do fuzil no chão pra avisar que o dono da casa chegou. Os olhares se voltaram pra mim. O silêncio durou uns dez segundos, um teste de autoridade que eu venci sem nem piscar. Caminhei até a mesa central, uma chapa de aço bruta cheia de furos de bala e marca de facão, onde tavam espalhados mapas da cidade, fuzis desmontados e tijolos de cocaína pura com o selo da facção. — Sentem aí, família — disse o Cajá, o conselheiro mais velho, um velho carcomido pela cadeia. — O Trovão chegou, e o cheiro de carne queimada veio junto. Soubemos do churrasco de traíra que tu fez lá embaixo. A disciplina tá em dia, mas o problema agora é maior que um moleque X9. Eu sentei com a marra de quem sabe que ninguém ali tem peito pra me peitar. — O certo é o certo, Cajá. No meu comando, rato não cria asa. Agora desembucha logo: qual é a meta da vez? Quem é o próximo que a gente vai varrer do mapa pra manter o império de pé? Porque se for pra derramar sangue, meu estoque tá cheio e meu ódio tá no ponto.
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