O Piche, um maluco que gerencia o fluxo na Baixada e tem a cara marcada por uma cicatriz de estilhaço de granada, bateu a cinza do charuto no chão e me encarou com aqueles olhos de quem já não tem alma faz tempo. O silêncio no Paiol do Inferno ficou tão denso que dava pra ouvir o estalo da brasa.
— Tu tá perdendo a mão na dose, Trovão — o Piche soltou, a voz rouca parecendo o som de cascalho sendo esmagado. — A gente sabe que disciplina é o pilar da facção, mas tu tá matando geral na crueldade máxima. Se o Dentinho falou a verdade? Se os milicianos realmente pegaram a coroa dele e o moleque só tentou salvar o próprio sangue?
Eu senti o meu sangue ferver, uma pressão subindo pela nuca que fazia minha visão ficar vermelha. Olhei pro Piche como se ele fosse a próxima carcaça no meu lixão.
— Se ele falou a verdade? — repeti, a voz baixa, o que no meu mundo é muito mais perigoso que um grito. — No nosso estatuto, Piche, não tem "se". Ou tu é leal, ou tu é defunto. Se a milícia pegou a coroa dele, ele que viesse falar comigo, que eu mandava o bonde resgatar a velha e picotar os milicianos. Mas o verme preferiu vender a nossa logística. Ele preferiu abrir a guarda do morro pra salvar uma vida e colocar mil em risco.
Me inclinei pra frente, apoiando os punhos cerrados na mesa de aço, sentindo o cheiro de pólvora que exalava da minha própria pele.
— Quem escolhe o lado do medo em vez do lado da família do crime, já morreu por dentro. Eu só fiz o serviço completo. E se tu tá com pena de X9, talvez o teu lugar não seja nessa mesa, cercado de homem de verdade. Talvez tu devesse estar lá embaixo, rezando missa.
O Breu, um dos caras mais sinistros da cúpula, que cuidava do tráfico de armas pesadas e quase nunca abria a boca, soltou uma risada seca que parecia um osso quebrando.
— O Trovão tem a visão dele, Piche. E a visão dele mantém a Tormenta impenetrável. Mas o papo aqui é outro. A gente não tá aqui pra chorar por traidor. A gente tá aqui porque a milícia tá avançando e o asfalto tá virando um tabuleiro que a gente precisa dominar na base do terror.
O Cajá retomou a palavra, ajeitando o corpo cansado na cadeira.
— O Piche tá preocupado com a repercussão, Trovão. Matar é preciso, mas esculachar o corpo igual tu faz atrai atenção que a gente não precisa agora. O governo tá pressionando, os direitos humanos tão latindo. Se tu continuar transformando o lixão num açougue público, os canas vão ser obrigados a subir com o BOPE todo dia pra dar resposta pra mídia.
Eu dei um sorriso de lado, um sorriso que não chegava nos olhos.
— Deixa eles virem. A Tormenta tá cheia de presente pra eles. No meu comando, ninguém entra e ninguém sai sem o meu carimbo. E sobre a crueldade... é ela que faz o vapor não pensar em me vender. É ela que faz o miliciano tremer antes de pensar em subir a ladeira. O medo é a melhor arma que o Comando Vermelho tem, e eu sou o melhor armeiro dessa p***a.
O clima no Paiol do Inferno pesou de um jeito que o oxigênio parecia ter virado chumbo. O Cajá e o Breu trocaram olhares rápidos, sentindo que a corda estava esticada demais, mas sempre tem um infeliz que acha que a língua é mais rápida que o gatilho. Dessa vez, foi o Cicatriz, um cara que comandava uma fatia do tráfico na Leopoldina e sempre teve inveja da minha ascensão meteórica no Comando Vermelho.
— Eu concordo com o Piche! — o Cicatriz gritou, batendo a mão na mesa, fazendo o eco ricochetear nas paredes de pedra. — O Trovão tá errando a mão, perdendo o foco! O Morro da Tormenta é estratégico, mas ele tá agindo como um carrasco descontrolado. Não é só porque ele é o chefe do complexo que ele pode transformar a hierarquia num açougue particular! A gente precisa de lucro, não de mídia em cima de corpo picotado!