Eu não disse uma palavra. Só continuei com aquele sorriso de lado, sentindo a adrenalina subir como um veneno doce. Dei um leve aceno de cabeça pro Coveiro, que tava encostado na penumbra da entrada. Ele já sabia o que fazer. O Coveiro puxou um tablet tático, desses que a gente rouba de carga de luxo, e jogou o sinal direto numa tela de TV de 50 polegadas que tava pendurada no fundo do galpão.
— Presta atenção no telão, seus bosta — minha voz saiu baixa, quase um sussurro, mas calou todo mundo.
O vídeo começou a rodar. A imagem tava nítida, gravada por um dos meus olheiros. No vídeo, a mãe do Dentinho aparecia sentada num bar, rindo alto, bebendo cerveja gelada com dois milicianos conhecidos da área sul. Não tinha sequestro, não tinha tortura, não tinha ameaça. Ela tava era passando a visão dos nossos acessos pro inimigo, vendendo o próprio filho e a nossa facção por uns trocados e proteção. O Dentinho não tentou salvar o sangue dele; ele tentou era garantir a mamata da velha enquanto enterrava a gente.
O silêncio que ficou no galpão depois que o vídeo acabou foi ensurdecedor. O Piche engoliu em seco, e o Cicatriz ficou pálido, a cor sumindo do rosto mais rápido que fumaça no vento. O Coveiro caminhou até mim, num passo fantasmagórico, e deslizou uma faca de combate de aço damasco pra minha mão, por debaixo da mesa. O metal tava frio, sedento por carne.
Eu me levantei devagar, sentindo cada músculo do meu corpo pronto pro abate. Comecei a caminhar em volta daquela mesa de aço, o barulho das minhas botas no chão de ferro soando como a marcha fúnebre.
— E aí? — perguntei, passando a ponta da faca de leve na borda da mesa, produzindo um som metálico que dava arrepio. — Quem mais aqui tá contra a minha gestão? Quem mais acha que eu tô "errando a mão"?
Passei por trás do Cajá, que nem respirava. Passei pelo Cicatriz, que baixou os olhos pro chão. Continuei andando até parar exatamente atrás do Piche. Ele tentou fazer menção de se levantar, mas a minha mão esquerda desceu como uma prensa no ombro dele, cravando os dedos no osso, forçando o corpo dele contra a cadeira.
— Tu tava com pena do traidor, Piche? — sussurrei no ouvido dele, sentindo o cheiro do suor frio que brotava da nuca do maluco. — Tu acha que eu sou o quê? Um amador? No Morro da Tormenta, eu vejo até o que o d***o tenta esconder.
Antes que ele pudesse abrir a boca pra pedir clemência, eu agi. Com uma rapidez que ninguém ali conseguiu acompanhar, passei o braço pelo pescoço dele, puxando a cabeça do Piche pra trás. A faca de combate brilhou na luz fraca do galpão antes de entrar fundo, de orelha a orelha.
O som foi horrível o rasgar da carne, o gorgolejar do sangue jorrando pela traqueia cortada. O Piche se debateu, as mãos arranhando a mesa de aço enquanto o líquido quente espirrava na minha camisa e no rosto do Cajá. Eu não parei. Com um ódio que vinha lá do fundo da alma, continuei o serviço, serrando o osso do pescoço com a força de quem tá arrancando uma erva daninha.
Em segundos, eu separei a cabeça do tronco. O corpo do Piche caiu no chão como um saco de batatas vazio, o sangue se espalhando num tapete vermelho pelo chão do Paiol. Eu segurei a cabeça dele pelos cabelos, sentindo o peso morto, o sangue ainda pingando grosso no meu braço.