Capitulo 5

1203 Words
Caminhei até o centro da mesa, chutei um maço de dinheiro pra longe e joguei a cabeça do Piche em cima da chapa de aço. Ela rolou um pouco e parou de frente pro Cicatriz, com os olhos arregalados e a boca ainda entreaberta num grito que não saiu. — Alguém mais quer dar palpite na minha disciplina? — rosnei, limpando o sangue do rosto com a mão suja, olhando fixamente pro Cicatriz e pro resto da cúpula. — O Comando Vermelho é união, mas quem questiona a minha autoridade com base em mentira de X9 vira exemplo. Eu sou o Trovão, p***a! Eu sou a lei dessa p***a! O Cajá ficou estático, a fumaça do charuto dele paralisada no meio do ar, enquanto o Cicatriz parecia um boneco de cera, com o suor escorrendo pelas têmporas. O sangue do Piche ainda tava quente, escorrendo pelos vãos da mesa de aço e fazendo um som de goteira no chão de ferro — tique, taque, tique, taque a contagem regressiva pra próxima alma que eu ia mandar pro inferno. Eu não tava satisfeito. A crueldade pra mim é um vício, e quando o sangue sobe, a sede só aumenta. Olhei pro Cicatriz, que tentava esconder as mãos tremendo debaixo da mesa. Ele achou que o show tinha acabado com a cabeça do Piche, mas o Trovão não faz performance curta. — Tu tá muito calado, Cicatriz — soltei, a voz saindo como um rosnado vindo direto das entranhas. — Tu não era o cara que tava gritando agorinha sobre "açougue particular"? Pois eu vou te mostrar como funciona a logística de um verdadeiro carniceiro do Comando. Fiz um sinal pro Coveiro. Ele já sabia. O maluco se enfiou num canto escuro do galpão e voltou arrastando um latão de ferro de 200 litros, daqueles que a gente usa pra sumir com as provas. O cheiro que exalava dali era de decomposição química, algo que ardia o nariz e fazia os olhos lacrimejarem. — Traz o convidado, Coveiro — ordenei, sentando na mesa, bem do lado da cabeça do Piche, que ainda me encarava com aquele olhar de peixe morto. Dois soldados da minha elite entraram arrastando um maluco que ninguém ali conhecia, mas que eu sabia bem quem era. Era o "Magrão", o segurança particular que o Piche usava pra fazer as pontes com os fornecedores da Baixada. O cara tava com um saco de estopa na cabeça, amarrado com arame farpado nos pulsos e nos calcanhares. Arranquei o saco da cabeça dele com tudo, levando junto um pedaço de couro cabeludo. O Magrão tentou gritar, mas a boca dele tava costurada literalmente costurada com linha de anzol grossa. Os pontos tavam inflamados, cheios de pus e sangue seco. — Esse aqui era o braço direito do teu chapa ali — apontei para a carcaça no chão. — E sabe o que eu descobri? O Piche não tava com pena do Dentinho por causa da coroa. O Piche tava era usando o esquema do moleque pra desviar a nossa mercadoria pro lado da milícia. Eles tavam vendendo a nossa cocaína, com o nosso selo, e botando o lucro no bolso deles pra comprar apartamento na Barra. O galpão gelou. Cajá fechou o olho, sabendo que a merda era muito mais profunda. — Cicatriz, chega aqui — chamei, num tom que não aceitava recuo. — Tu quer falar de hierarquia? Então tu vai me ajudar a aplicar a disciplina. O maluco levantou como se tivesse uma arma apontada pras costas. Caminhou até mim, as pernas bambas. Eu peguei um alicate de pressão de cima da mesa e entreguei na mão dele. — O Magrão aqui tem muita informação. Mas como ele usou a boca pra trair o Comando, a gente vai começar a extração pelos lugares que ele usou pra contar o dinheiro. Cicatriz... arranca cada unha da mão desse verme. E se tu hesitar, eu arranco o teu dedo com o meu dente. O Cicatriz, tremendo igual vara verde, segurou a mão do Magrão. O primeiro grito veio abafado, um som de agonia que parecia um animal sendo esfolado vivo, enquanto o Cicatriz puxava a primeira unha. O som da queratina se soltando da carne viva fez o Cajá desviar o olhar. Eu não. Eu tava ali, assistindo de camarote, sentindo o cheiro do medo e da dor. — Continua! — gritei, dando um tapa na nuca do Cicatriz. — No CV, a gente não tem pressa pra matar. A gente tem pressa pra fazer sofrer! Depois que as dez unhas tavam espalhadas pelo chão, misturadas com o sangue do Piche, eu me levantei. Peguei um galão de ácido que tava do lado do latão. — Agora o prato principal. Chutei o Magrão pra dentro do latão de 200 litros. Ele caiu lá dentro, o barulho do osso batendo no ferro ecoou no galpão. O bicho tava vivo, se contorcendo, a boca costurada impedindo ele de implorar. — Cajá, tu falou de mídia, falou de direitos humanos... — comecei a despejar o líquido corrosivo devagar, começando pelos pés do maluco. — Sabe o que a mídia nunca vai ver? O que acontece no Paiol do Inferno. Porque aqui, a gente não deixa rastro. A gente deixa pó. O som do ácido reagindo com a carne humana era um chiado constante, como carne fritando na chapa quente. O cheiro era insuportável cabelo queimado, gordura derretendo e o vapor químico que subia. O Magrão se debatia dentro do latão, as mãos sem unhas batendo freneticamente contra o metal, um clanc, clanc, clanc desesperado que foi diminuindo conforme o ácido subia e derretia os tendões dele. Eu olhei pro Cicatriz, que tava quase vomitando. — Isso é gestão, Cicatriz. Isso é manter a ordem. Se tu acha que eu erro a mão, é porque tu nunca teve a coragem de enfiar a mão na merda pra manter o teu trono limpo. Virei o resto do galão de uma vez. O chiado aumentou, um vapor denso cobriu o latão e, em poucos minutos, o silêncio voltou a reinar. Só sobrou uma gosma escura e fumegante no fundo do balde. Voltei pra cabeceira da mesa, pisei no pescoço do corpo do Piche só pra sentir a resistência da carne e sentei. Limpei a faca de damasco na toalha de mesa e apontei a ponta pro Cajá. — Agora a gente vai falar de guerra. A milícia perdeu dois contatos importantes hoje: o Piche e o Magrão. Eles vão estar cegos na divisa. É lá que o meu bonde entra destruindo. Eu quero as armas pesadas que o Breu tá escondendo. Quero os lança-rojão e as ponto-50. Vou derrubar o caveirão da milícia e vou incendiar a sede deles com todo mundo dentro. O Cajá limpou a garganta, a voz agora num tom de submissão total. — Tu tem o que precisar, Trovão. O Conselho tá contigo. A Tormenta é tua, e a guerra também. — Ótimo. Cicatriz, limpa essa mesa. Usa a tua camisa pra tirar o sangue do Piche, que eu quero ver o mapa limpo. E depois, some com esse corpo. Se sobrar um pedaço de osso, o próximo a entrar no latão de ácido é tu.
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