JULIANA
Enfim chegou a tal hora que eu ia pra casa de um filho da mãe e completo desconhecido, tudo por que meu pai não sabe comandar a própria vida e se afundou em dívidas. Ontem recebemos uma visita, pouco depois de me avisar que eu ia embora quebraram o vidro da sala com um tijolo e deram alguns tiros no portão da garagem que é a parte fechada da casa, sorte que eu tava arrumando as coisas no quarto e não estava na sala, senão teria pegado em mim, esse foi só um dos alertas deles dizendo que ele tinha que pagar a dívida dele, no tijolo tinha um bilhete colado com fita falando pra ele pagar por que da próxima vez seria na cabeça dele, no caso eu iria junto ne ou aconteceria coisa pior comigo.
Eu já tinha meio que aceitado isso depois de chorar a noite toda, e também de ficar sem me alimentar o dia todo enquanto faxinava, já que quem fazia comida aqui além de mim, e meu pai não quis fazer nada pra mim, nem se preocupou comigo, só chegou em casa nessa madrugada depois de jogar um monte e se escafedeu pro quarto dele. Quando saímos de casa ele nem se importou com o fato de que eu estava morrendo de medo e chorando pra caramba.
** MOMENTO QUE CHEGAMOS NO GALPÃO **
Juliana – pai me deixa ir esses homens me olham como carne
Lucas - cala a boca garota, você é meu bilhete premiado e eu preciso de você agora sorrindo. Vamos sorria, __ ele falava entre os dentes.
Eu só chorava, e olhava ao redor vendo tudo aquilo e querendo que fosse um pesadelo
Juliana - pai eu nao to bem, eu acho que vou... desma...
Cai no chão gelado e só uma pessoa veio me socorrer, um homem que eu tinha visto todo misterioso que não esboçava nenhuma reação, nem a de pena e nem a de desejo; ele só me encarou o tempo todo que eu estava ali e as vezes falava alguma coisa com o amigo do lado dele, acho que era alguma espécie de segundo dele, pela autoridade que ele exercia só podia ser o dono de algum morro.
Fulano - você ta bem garota?
Juliana - nao, você ta vendo o circo de horror que é isso aqui? e ainda pergunta se eu to bem? me larga eu to indo embora e pai vai se fuder seu desgraçado do caramba. __falei super grossa com o cara que não tinha nada a ver com a paçoca e com o projeto de pai
Lucas - não filha espera aí poxa, você precisa se apresentar pra eles, temos que dar continuidade a isso
Sai do galpão que a gente tava e fui andando até chegar em casa, que tava toda trancada, então tive que usar o meu meio pra quando ele me deixava de castigo e eu queria um pouco de ar, que era bem fácil: pular a janela do meu quarto; eu sempre descia e ia ate a pracinha da esquina quando eu era mais nova ate ele aparecer com o fio de ferro pra me bater e eu saia correndo pra voltar pro meu quarto, por um segundo eu me sentia livre e era bom.
Eu tava meio tonta ainda pelo nervoso e a queda mas consegui subir e me tranquei no quarto, ele conseguiu me alcançar e viu que eu tinha pulado a janela e bateu na porta, gritou e ameaçou do lado de fora, mas eu nao abri, ia ficar aqui até o fatídico dia que eu teria que sair da vida dele ou morrer e infelizmente ou felizmente nunca mais ver essa cara ridícula dele, ele só interessava pelo que eu poderia fornecer pra ele, no caso dinheiro; e eu já não aguentava mais isso, vivia com ele por que não tinha pra onde ir.
Eu o amava como o pai que ele um dia foi, mas hoje esse homem na minha frente não é e nem pode ser chamado de pai, isso é um monstro que não tem limites e nem um tiquinho de senso e nem se importou que eu não estava feliz com aquilo tudo, realmente só se importava com a vida dele, por que se ele não pagasse a dívida seria morto, e mesmo que eu não quisesse que ele batesse as botas a gente ainda tinha outras opções sabe, sei lá trabalhar e pagar a dívida, fazer um empréstimo, sumir no mundo, não sei. TUDO menos vender a filha dele, que por sinal era a única que ele tinha e ele ainda tinha a ousadia de fazer isso.
Infelizmente eu tinha deixado a minha bolsa lá no galpão com a minhas coisas tudin de mais importantes como objetos de higiene pessoal, meu secador e chapinha; e uma malinha pequena com minhas roupas, nunca tive a oportunidade de ter muita coisa por que ele nao comprava e também não me deixava trabalhar pra conquistar minhas coisas, então eu usava as coisas velhas mesmo.
Teve uma vez que eu encuquei em fazer alguma coisa da minha vida, o que eu decidi é que eu queria ir pra faculdade, mas ele só deixou eu fazer a distancia, então não tinha por que comprar nada pra sair de casa bonita e tal, ele ate me deu um notebook mas era monitorado sempre e os únicos sites que abriam era os da faculdade e se eu quisesse fazer alguma pesquisa tinha que ser em livros ou na web com a supervisão dele. Quando me formei não pude ir fazer a colação de grau com meus colegas de turma que eu nem conhecia pessoalmente e nem na formatura que fizeram eu não pude ir. Era essa a vida que eu tinha, praticamente... praticamente não ne, eu era prisioneira dentro da minha própria casa, e agora tratada como mercadoria.
Ele tava aos berros descendo as escadas querendo que eu fosse logo que a gente ja tava atrasado pra se encontrar com aqueles nojentos, nao queria ir, poxa eu já tinha saído correndo de lá, ele ia me fazer voltar pra lá? Só que ele jurou que se eu demorasse mais 5 minutos ele ia vim aqui e quebrar todos os meus dentes fazendo o meu “valor baixar”, eu pensei em deixar esse mostro vim e me arrebentar toda, mas pensei na recuperação das outras vezes que ele me bateu e desisti dessa ideia. Desci as escadas bem devagar olhando cada cantinho que tinha sido parte do meu lar durante toda a minha infância adolescência juventude e agora como mulher, que no auge dos seus 25 anos devia estar mesmo era vivendo a vida, mas nao, estava aqui sendo vendida pelo pai.
Lucas - bora garota eu não tenho a vida toda não e nem eles, olha já a hora que é, e você ainda deu aquele showzinho de desmaio e sair correndo, tenho cara de o****o por acaso? Devia ter escolhido um lugar mais longe ou ter te vendado
Juliana - pai o senhor vai fazer isso mesmo comigo? viu a cara deles pra mim? Eles vao me virar do avesso usar todos os buracos que eu tenho e fazer mais ainda
Lucas - já tô fazendo Juliana e você acha que eu ligo?
Juliana - e não imagina o que eu tô pensando sobre isso ?
Lucas - eu não, você é minha filha e eu posso fazer o que eu quiser com você.
Juliana - não pode e sabe disso, filha é uma coisa, você tá me tratando como um objeto.
Lucas - eu que pago suas contas, roupas, comida e todo o demais.
Juliana - não paga não, eu nem compro roupa, e que contas???
Lucas - não compra mas já tive que comprar você se lembra ? E a faculdade?
Juliana - quando eu era uma criança seu ridículo, agora eu não compro mais p***a nenhuma e nem posso sair de casa c****e. E a faculdade eu tinha bolsa de estudos seu merda, a única coisa que você arcou foi o único caderno de 20 matérias que durou todos os 4 anos.
Lucas - olha aqui você vê se me resp... ___ nem deixei ele terminar, dei um tapa na cara dele e logo senti de volta como ele tinha me prometido e ainda aquele cortizinho na boca como sempre por causa do impacto.
Juliana - você quer respeito mas tá fazendo isso comigo, isso que é querer respeito pai? Não pera, senhor Luis por que pai você não é e quando eu puder eu vou tirar seu nome, não quero ter mais nenhum vínculo com você seu podre.
Lucas - que bom por que depois que ele te levar você não vai existir mesmo. Vai ser só mais uma de suas mulheres.
Juliana - então você sabe o que ele vai fazer comigo e nem se importa se eles me fizerem de esposa, de prostituta, que vendam meus órgãos? Por que é quase certeza que é isso que eles vao fazer. Você acha isso um pouco normal?
Lucas - calma Juliana, normal talvez não, recorrente eu acho que sim, mas não é desse jeito. Os pais simplesmente chegam no dono de algum morro por aí e fala- quer comprar minha filha; ou - tenho essa divida contigo posso pagar com minha filha ? No meu caso não devo pra nenhum deles, e achei interessante ter esse evento e reunir todo mundo, mostrar pra eles o que os meu serviços quem sabe.
Juliana – que serviços?
Lucas – não te interessa, e acho que la você não se sairia bem, por isso to te leiloando.
Juliana - você age tão normal com isso que eu até me assusto, você não pensou nem um pouco em mim como filha, só como um objeto que pode ser vendido.
Lucas - não fique assustada, no final vai dar tudo certo e você filha vai valer muito dinheiro pro papai.
Juliana - vai pro inferno vai
Lucas - depois de você.
Ele aponta pra porta e me pega pelo braço me fazendo passar por ela e entrar no carro a força e sem chance de me defender, essa sensação é horrível, queria ta agora em posição fetal na minha cama, mas a vida real pra mim é essa, só quero que acabe o mais rápido possível.
Nesse momento eu percebi que não valia nada pra esse homem, que eu só fui um fardo muito grande pra ele, assim como minha mãe, se ela não tivesse se matado eu não sei como ela seria tratada hoje, talvez bem pior do que eu sou tratada, esse homem que simplesmente serviu apenas para me destruir, me tratar como nada e me largar por aí, finalmente eu entendi o meu propósito de vida, que era o de bode expiatório e ele me usaria para sanar suas dívidas, só que tem um porém: ele só tinha a mim e na cabeça dele com essa venda ele ia conseguir pagar todas as dívidas que ele tem, mas e quando ele fizer mais dívidas e elas forem acumulando, o que ele vai fazer? Um novo filho e vender ? Não tem lógica nada disso não tem lógica isso que ele fez, fico repetindo isso na minha cabeça batendo ela no vidro até chegarmos no galpao dinovo que estava cheio de carros em volta, realmente ele tinha feito sucesso com isso, quanto será que eu valia pra ter esse monte de gente? Alguns seriam só curiosos ou iriam tentar me comprar alguém? Seja lá o que fosse, eu estava prestes a descobrir.