BEATRIZ NARRANDO
As vezes eu não gostava muito de ser esposa de um dono de morro, todo o preconceito que tinha sobre ele e as acusações não só em questão de lei, mas questao de ética também como: que ele ia me trair, que não era um bom homem pra mim, que logo que eu engravidasse ele ia me largar; aí eu engravidei e vieram as loucas de plantão que não sabem guardar a língua dentro da boca: aí que quando você parir ele não vai querer ficar com você, que ele vai achar que você ta gorda, ou larga lá em baixo, vai ficar com uma novinha. E isso era tudo coisa que magoava e ate demais sabe, a questão é que eu era a esposa do dono do morro, só que eu não era tao boazinha como algumas que nem se envolvem com o movimento, muito pelo contrário, em diversas torturas eu que comandava por ter uma técnica que fazia a pessoa pedir pra ir pro inferno sem passar pelo juízo final.
Quando adotamos a nossa menina Aurora sabíamos que as críticas iriam aumentar, mesmo ele sendo quem ele era as pessoas não guardavam a lingua dentro da boca e falavam pelas nossas costas, nenhuma delas tinha coragem suficiente pra vir e falar alguma coisa pra mim, ate por conta de que eles já sabiam do meu temperamento, quando eles vinham tirando com a minha cara muitas vezes eu fiquei quieta por que meu marido resolvia, mas meu amoooor tinha vezes que o bagulho era comigo e só comigo.
Então quando essas mulheres vieram com essas graças mesmo gravida eu ainda fiz algumas calarem a boca, não eu não matei nenhuma delas, só falar m*l de mim não era motivo de matar, mas só um chega pra la, alguns dedos quebrados, uma costela trincada, um braço, olho roxo, só isso e mais umas coisinhas que é melhor nem falar.
Ficar sem ele foi a coisa mais difícil que eu tive que aguentar, uma parte de mim se foi junto com ele quando o achei caído no chão do nosso quarto, eu não tive reação alguma aquele dia a não ser gritar, gritei desesperadamente e chamei o nome dos meus filhos que vieram correndo o mais rápido que puderam, imagina uma menina de 11 anos ter que amparar a mae por que ela não conseguia ficar em pe e nem parar de chorar, meu filho foi tao incrível, não sei de onde ele tirou tanta força, pegou o pai no colo e colocou dentro do carro e levou ele pro postinho que tinha ótimos médicos que nós contratamos justamente pra momentos como esse; mas o que disseram la foi o mesmo que eu já tinha visto, ele realmente tinha ido embora, tinha me deixado com uma menina pra cria e um homem pra ensinar o que lhe faltava de sabedoria sobre o morro.
O Brenno tem sido incrível comigo e com o morro esses meses, ele ajuda todo mundo, da cesta básica pra quem mais necessita, ouve os pedido dos moradores e tenta cada dia ser melhor, não é só por que é bandido que vai ser r**m ne. O lucro daqui aumentou muito com esse garoto no poder e eu fico feliz e orgulhosa dele, é claro que em algumas coisa eu também tenho minha palavra e dou uns toques nele, mas nada demais, esse menino nasceu pra ta onde ele ta hoje. Só me resta ser a melhor mae que eles podem ter e continuar fazendo o meu dentro da favela, fiquei viúva mas o meu trabalho continua, ou você acha que num tem uns n**o que num precisa dum corretivo enquanto o dono do morro ta ocupado ? Rapaz, isso é o que mais tem, e o pior é que mesmo sabendo o que vai acontecer eles não acordam pra vida não e continua querendo passar a perna na gente achando que nois é b***a.
Depois dessa nossa perca nós mudamos muito, e muito mesmo, a Aurora parece que amadureceu mais rapido, fica mais no quarto com a cara em livros, e quase não fala mais comigo, é triste por que a gente sempre foi de conversar muito, a casa era barulhenta principalmente quando ele chegava em casa, hoje o Lion chega em casa e vai pra cozinha comer alguma coisa e passa pra me dar um beijo na testa, da uma batidinha na porta da aurora dizendo oi e segue pro quarto dele pra descansar, eu já quis fazer alguma coisa pra mudar essa situação mas sempre que quero sair pra pegar um drive thru ou um piquenique eles falam que estão ocupados. Eu sei que eles se sentem sozinho, mas poxa, eu também to e não queria ver nossa família assim, todo mundo pra um canto da casa, eu sinto tanta falta do Giovanni Samuel, tanto quanto eles; foram quase 31 anos que a gente viveu junto, ele foi o primeiro amor de uma garota de 15 anos que poucos anos depois tiveram sua maior riqueza, o primeiro bebe.
Eu acho que nunca teria como esquecer o que a gente viveu e o sofrimento seria perpetuo, a dor do luto que agora existia ali dentro da nossa casa não iria ir embora tao cedo, mas de uma coisa eu sei, a gente acostuma com isso, acostuma com a falta, a dor, o chamar e perceber que a pessoa ano esta mais ali, o conquistar algo e correr pra contar pra ele mas ele não estar mais ali, tudo isso é acostumavel, tolerável, menos as lagrimas, isso você não acostuma por que uma hora ou outra elas vao insistir em rolar e você vai ficar puto por que não queria chorar sempre que se lembrasse dessa pessoa. Essa era a vida de quem tinha perdido alguém recentemente, mas a vida não podia parar ne, tinha que seguir em frente, sair por ai com um sorriso falso no rosto e enganar a si mesmo com o: eu estou bem.
Eu tinha ouvido um boato das bocas fofoqueiras do morro dizendo que tinha um filho duma quenga que aquilo não pode ser chamado de pai nunca... diziam que ele queria leiloar a filha dele pra algum morro, e o que pagasse mais levaria ela pra casa. Gente sera que ele não tinha consciência do que ele tava fazendo? Entregar a filha dele de bandeja pra algum louco pervertido que ia acabar com a vida dela, ia fazer ela de gato e sapato e quando ela não servisse mais pra satisfazer o desejo dele já era ela. Ia ser descartada como um objeto, além de ser tratada pior que tratam animal peçonhento, ela ia praticamente existir de quatro numa cama pra esse homem infeliz que desse o lance maior. Que coisa horrível esse ‘’PAI‘’ tava fazendo, eu não entendia o que se passava na cabeça dele pra tomar essa atitude, ou na cabeça dela quando ele disse que ia fazer com ela, eu fiquei chateada e quase chorei, fiquei pensando na minha menina e quando a mae dela a descartou, imagina se tivesse vendido a troco de alguma coisa, meu deus quero nem pensar.
Se eu trombasse com esse cara eu juro que eu tinha uma coisa bem legalzinha pra ele aprender a ser um homem de verdade ou finalmente deixar de ser já que algumas coisinhas dele iam sumir tipo umas bolas e você sabe o que mais, mas eu não podia fazer nada por que ele nem morava na minha favela, ele era do asfalto, mas se algum dia ele pisasse os pés aqui, esse dia eu estaria preparada pra ele.