uma conversa

1474 Words
Cerca de quarenta minutos depois do ocorrido, Bárbara e Otávio retornaram ao velório, ambos se juntaram ao lado do caixão, ela ao lado dele, e olhando ao redor, se certificando de que aquela mulher c***l realmente havia ido embora, mas já não havia nem rastro dela ali. O velório seguiu até às quatro da tarde, neste momento, o caixão foi fechado, e levado para o cemitério, onde por última vez foi aberto, para que Bárbara e Otávio pudessem vê-la por última vez, ali as lágrimas se intensificaram, então se pegaram abraçados, apenas compartilhando aquela dor. Quando o enterro acabou, Otávio colocou o braço sobre os ombros de Bárbara, e a guiou até o carro, ela era uma mulher adulta, tinha dezenove anos, mas ele sentia que ela precisava daquele cuidado. – vou te levar pra casa, ok. – ela assentiu e perguntou. – você vai embora hoje? – tinha medo de como a solidão faria m*l naquele primeiro instante. – não, vou te levar pra casa, você vai descansar e depois conversaremos sobre. – ela assentiu, então encostou a cabeça na janela do carro, Ao chegarem a casa de Bárbara, ela seguiu em silêncio para o quarto, ele suspirou, o ar era pesado, naquele momento se respirava tristeza, então foi para o quarto que havia passado a noite, ele sentou na cama e colocou o rosto entre suas mãos, estava sem eixo, mas sabia que precisava se centralizar, agora tinha que ser um apoio para Bárbara. Em seu quarto, após um banho, Bárbara pegou seu celular, e lá estava a resposta de Guilherme, as duas tarde ele viu as mensagens dela e a respondeu com certa preocupação, lhe dizendo que sentia muito por não ter estado com ela naquele momento, mas que estava voltando o mais rápido possível, ela o respondeu com uma mensagem simples que apenas dizia que iria descansar. Com o cansaço acumulado, Bárbara acabou adormecendo, seu corpo encontrou uma forma de tirar ela daquele sofrimento por umas horas, ela praticamente apagou. A rua começou a ficar movimentada como em toda manhã, vizinhos conversando, carros passando, o carteiro tocando campainhas, ela acordou sentindo o sol entrar pela janela, por um instante pensou que, tudo aquilo havia sido um pesadelo, mas ao ver o vestido preto que havia usado no dia anterior jogado em um canto qualquer do quarto, se deu conta de que era real, um suspiro escapou de seus lábios, ela sentou-se na cama, em seguida levantou-se cuidadosamente, e foi para o banheiro, onde tomou um banho frio, tentando aliviar a tensão e o medo que sentia, agora estava sozinha, era isso que pensava. Bárbara saiu do quarto e caminhou em direção a cozinha, seu plano era preparar café da manhã, mas ao se aproximar, viu Otávio de pé a frente da pia, com as mangas da camisa dobradas, lavando a louça. – bom dia. – disse ela. – bom dia, como se sente? – ele perguntou ao ver o rosto abatido dela. – não sei dizer, deixa isso aí, eu lavo. – disse ela, ele suspirou, então a respondeu. – não se preocupe, já estou terminando, preparei café da manhã, senta e come um pouco, ontem você não comeu nada. – ela assentiu com a cabeça, em seguida sentou-se, vendo a mesa bem arrumada, ao meio um bolo com cobertura de chocolate, ela cortou uma fatia, estava tão fofinho que chegava a desmanchar. – que cheiro gostoso. – ela elogiou. – espero que goste, é minha receita especial. – Otávio era dono de uma rede de restaurantes, havia começado sua carreira aos dezoito anos, trabalhando de auxiliar de cozinha em um restaurante, onde aprendeu com o chefe muitas receitas, receitas essas com qual abriu sua primeira lanchonete e anos depois transformou em um restaurante, e aos trinta e três, contava com doze restaurantes espalhados pelo país. – nossa, que delícia, desmancha na boca. – disse ela enquanto preparava mais uma garfada e ele sorriu, não só pelo fato de ter conseguido agradar com seu bolo, mas também porque ela estava enfim se alimentando. – E você, já tomou café da manhã? – ainda não. – Então senta aqui e come comigo ou vou te deixar sem bolo. O silêncio pairava enquanto eles comiam, ele olhava atento, apenas esperando ela terminar pra dar início a um assunto importante, quando ela enfim terminou, ele deu início. – precisamos conversar. – sobre? – sobre a sua situação, quero que venha comigo, morar em minha casa. – ela franziu a testa, eles m*l se conheciam, mas ela sabia o motivo daquilo, sabia que devia ser pedido de sua mãe. – Otávio, não precisa, eu não sou nenhuma criança, posso me virar. – você tem alguma economia? – não. – tem trabalho? – não. – ela respondeu encolhendo os ombros. – está na faculdade ou algo do tipo? – não, mas eu sou uma mulher adulta, dou meu jeito. – Bárbara, sozinha, sem ensino superior vai ser difícil encontrar emprego, eu quero te ajudar. – quer mesmo? Foi minha mãe que pediu, não foi? – sim, ela pediu. – Otávio… – Bárbara, não seja orgulhosa. – ela soltou um longo suspiro, então disse. – não é orgulho Otávio, eu sei que vai ser difícil e que talvez eu não dê conta sozinha, mas Otávio…mal nos conhecemos, não acho que eu deva entrar na sua vida assim, já me metendo na sua casa, na sua rotina, olha, eu sei que minha mãe pediu, mas eu prefiro me virar com meus problemas e me sentir sozinha, do que estar na vida de alguém por pura obrigação, não quero ser um peso pra você. – você não é, e nunca será um peso, mas uma obrigação sim, eu poderia apenas ir e deixar você passar por tudo sozinha, mas eu não vou fazer isso, podemos não nos conhecer muito, mas essa responsabilidade é algo que eu quero assumir, pela minha irmã, e porque sinto que você precisa e merece, eu quero verdadeiramente te ajudar, é genuíno, mas entendo perfeitamente que pense assim. – eu não sei… – pensa na sua mãe, lá você pode ter um futuro melhor, um apoio, um teto que jamais vai faltar. – ela soltou um longo suspiro, sabia que aquilo era tudo que precisava naquele momento para se reerguer. – tudo bem, eu vou com você, mas eu juro que não vai ser algo permanente, eu não quero ser uma encostada, eu vou estudar, vou encontrar um emprego e vou dar um jeito na minha vida. – ele sorriu brevemente, ela queria construir sua vida, assim como ele havia feito a quatorze anos atrás. – você tem experiência com alguma coisa? Ou já tem planos para o que quer estudar? – não tenho experiência, nunca trabalhei, meu sonho é cursar psicologia, eu passei no vestibular de uma faculdade daqui, mas foi justo na época que minha mãe descobriu o câncer e eu deixei de lado pra cuidar dela. – disse ela, que falava com certa empolgação, mas quando lembrou de sua mãe, se encolheu um pouco. – passou de primeira? – sim, e em uma ótima posição, eu sei que um dia vou conseguir, pode não ser agora, mas eu vou. – e você tem o principal pra conseguir tudo isso Barbara, você tem desejo, seus olhos brilham quando fala do que quer para o futuro, eu pago sua faculdade. – disse ele a deixando sem palavras, ela analisou bem a postura dele, sua expressão, buscando algo que indicasse que era de bom grado, ou apenas um ato de pena. – por que? – porque penso que, pessoas como você, que tem desejos, sonhos concretos e vontade de um futuro melhor merecem uma oportunidade boa, tão boa quanto sua vontade de crescer. – ele falava com orgulho, como se aquele sonho fosse parte dele, Bárbara percebeu, vendo a sinceridade nos olhos dele, aceitou. – tudo bem, eu aceito, e quando você vai? – volto amanhã, pela manhã, já acertei tudo com o helicóptero que vem me buscar, mas se achar necessário ficar um pouco mais, eu mando que venham lhe buscar em outro momento. – helicóptero? – ela questionou surpresa. – sim. – então foi assim que você chegou tão rápido ontem, caramba… – disse ela em um tom engraçado, ele sorriu, então disse. – e então? – o que? – prefere ficar um pouco mais, ou quer ir comigo amanhã? – ela parou, pensou um pouco, ela sentia ter de deixar pra trás a casa a qual havia vivido com sua mãe, mas sentia medo do que sentiria ali sozinha, medo, solidão, então deu sua resposta. – eu vou amanhã com você, acho melhor eu já ir arrumando minhas coisas. – disse ela, seu rosto mais uma vez foi tomado por tristeza, então ela levantou-se e foi em direção a seu quarto.
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