O sol de fim de verão iluminava Monza, mas dentro do consultório médico o clima era pesado. Leticia caminhava devagar, apoiada em Enzo, o semblante cansado e a pele pálida denunciando a sua fragilidade. A gestação, que deveria trazer alegria, parecia sugar as suas forças dia após dia.
O obstetra, Dr. Lorenzo, os recebeu com um olhar sério. Após os exames de rotina, pediu que Leticia se deitasse para a avaliação. O silêncio da sala era quebrado apenas pelo som dos aparelhos. Enzo, ao lado, segurava a mão da esposa, tentando transmitir segurança, mas por dentro estava tomado pela ansiedade.
Depois de alguns minutos, o médico se levantou e fez um sinal para que Enzo o acompanhasse até a sala ao lado. Leticia permaneceu deitada, olhando para o teto, ausente.
— Senhor Mancini… — começou o médico, com voz calma, mas firme. — Estou preocupado. O bebê não está ganhando peso como deveria, e sua esposa está muito debilitada.
Enzo sentiu o coração apertar.
— O que isso significa?
Dr. Lorenzo respirou fundo.
— Significa que não é apenas físico. Ela está apresentando sinais claros de depressão gestacional. É uma condição que afeta cerca de uma em cada dez mulheres. No caso de Leticia, o risco é maior porque a gestação já é considerada de risco e, somado às ausências constantes do senhor devido à sua profissão, a situação pode se agravar.
Enzo ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. O médico continuou:
— Ela precisa de uma rede de apoio. Não basta apenas acompanhamento médico. Precisa de presença, de segurança emocional. O senhor precisa entender que, neste momento, a prioridade não é apenas a carreira, mas também a saúde dela e do bebê.
Enzo passou a mão pelos cabelos, aflito.
— Eu… eu não sabia que podia ser tão grave.
— É grave, sim. — respondeu o médico. — Mas é tratável. Com apoio, acompanhamento psicológico e, principalmente não deixar ela muito tempo sozinha, criar uma rede de apoio o senhor, a família os amigos. E assim podemos evitar que isso se torne algo irreversível.
Enzo assentiu, sentindo o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. A imagem da batida em Suzuka voltou à sua mente: o carro destruído, o impacto, a impotência. Agora, diante do médico, sentia a mesma impotência, mas em uma escala muito maior.
Ao voltar para a sala, encontrou Leticia ainda deitada, o olhar perdido. Ele se aproximou, segurou a sua mão e disse em tom baixo:
— O médico falou que precisamos cuidar de você. — Falou sorrindo e sendo gentil.
Ela desviou o olhar, fria.
— Eu já disse, Enzo. Eu me sinto sozinha.
Ele apertou a mão dela com mais força, tentando transmitir algo que as palavras não conseguiam.
— Eu vou estar aqui. Vou encontrar uma forma, para que você não sinta essa solidão, tudo bem?
O silêncio se instalou novamente, mas desta vez havia uma promessa implícita. Enzo sabia que precisava mudar. A pista, os motores, os troféus… nada teria sentido se ele perdesse Leticia e o bebê.
Mais tarde, após Enzo sair do consultório do Dr. Lorenzo com o coração pesado. As palavras do médico ecoavam em sua mente: depressão gestacional, rede de apoio, presença. Ele sabia que não poderia enfrentar aquilo sozinho. Precisava da família.
Em seu apartamento, pegou o celular e ligou para os pais. Dona Maria atendeu primeiro, com a voz calorosa de sempre.
— Enzo, filho! Como foi no médico?
Ele respirou fundo.
— Mamà… não foi fácil. O bebê está bem, mas o médico disse que a Leticia está muito debilitada. Ele falou em depressão gestacional.
Do outro lado da linha, o silêncio foi breve, antes de Maria responder com firmeza:
— Então vocês precisam de nós. Venham para casa. Aqui vocês terão apoio, companhia, comida feita com carinho… e ninguém vai deixar a Leticia se sentir sozinha, eu prometo.
Antônio, o pai, entrou na conversa.
— É isso mesmo, filho. A família é para esses momentos. Tragam ela para cá, pelo menos até o fim da temporada, ficam aqui em casa.
Enzo sentiu um alívio imediato.
— Eu estava pensando nisso. O médico disse que uma rede de apoio é essencial. E eu… eu não consigo estar presente o tempo todo.
Maria sorriu, mesmo sem vê-lo.
— Então está decidido. Vocês vêm.
Mais tarde, Enzo também ligou para a irmã, Isabella. E com certeza a pequena Sofia, sempre cheia de energia, faria dos dias de Leticia uma festa constante.
Enzo riu pela primeira vez em dias.
— É disso que precisamos, Isa.
Dias depois, Leticia e Enzo chegaram à casa da família Mancini. O ambiente era acolhedor, cheio de aromas familiares e vozes calorosas. Sofia correu até eles, abraçando Leticia com entusiasmo.
— Você não imagina como estou feliz! — disse, quase dançando pela sala. — Eu vou ser a prima divertida do mundo!
Leticia, pela primeira vez em muito tempo, deixou escapar um sorriso tímido. O brilho nos olhos de Sofia, a energia contagiante, quebraram por alguns instantes o muro de tristeza que a envolvia.
Dona Maria trouxe uma bandeja com chá e biscoitos.
— Aqui, minha querida. Você precisa se alimentar bem.
Leticia aceitou, ainda hesitante, mas o gesto a confortou.
Nos dias que se seguiram, a casa da família se tornou um refúgio. Sofia fazia questão de estar sempre por perto de Leticia, inventando pequenas festas, trazendo flores, contando histórias engraçadas, para a barriga e fazendo planos de aventuras que teria com o primo, por que para ela seria um menino.
— Você precisa sorrir, Leti. — dizia Dona Maria, segurando a sua mão. — Esse bebê já sente tudo.
E, aos poucos, Leticia sorria. Não era constante, nem pleno, mas era um começo.
Enzo, ao ver a esposa mais leve, também se permitia respirar. Pela primeira vez em meses, os dois conseguiram passar alguns dias sem brigas e dormir no mesmo quarto. Conversavam sobre coisas simples, caminhavam pelo jardim, e até riam das travessuras e histórias da Sofia.
O peso ainda existia, mas a rede de apoio começava a sustentá-los. O médico estava certo: não era apenas sobre consultas e exames, era sobre presença, calor humano, família.
Naquele lar, entre abraços e risadas, Leticia encontrou um pouco de paz. E Enzo, ao ver o sorriso dela, percebeu que talvez ainda houvesse esperança para eles.