Capítulo 19 – Três Meses Depois

1198 Words
Três meses haviam se passado desde o colapso de Leticia em Londres, mas o tempo não trouxe serenidade. Pelo contrário, cada dia parecia acrescentar mais peso ao coração dela e de Enzo. O bebê, que deveria ser o elo de união, tornara-se paradoxalmente um motivo de tensão constante. A gestação, considerada de risco, exigia consultas médicas frequentes, repouso e cuidados redobrados. Por recomendação dos médicos, Leticia não acompanhava mais Enzo nas corridas, e essa ausência a corroía por dentro. O que antes era rotina estar ao lado dele nos boxes, vibrar com cada volta, sentir o cheiro de combustível e o calor da pista. Agora se transformara em solidão. Ela passava os dias em casa ou no hospital, cercada por silêncios e pensamentos que a consumiam. O som dos motores, que antes era música para seus ouvidos, agora chegava apenas pela televisão, distante, sem a emoção de estar presente. Enzo, por sua vez, estava brigando pelo título e mergulhava cada vez mais no mundo das corridas. Reuniões, treinos, entrevistas, compromissos sociais exigidos pelos patrocinadores… tudo o afastava ainda mais dela. E cada ausência dele era sentida por Leticia como uma ferida aberta. A insegurança crescia, alimentada não apenas pela distância, mas também pelas mensagens constantes da prima Giulia, que fazia questão de minar sua confiança no marido. A vida deles havia se tornado um verdadeiro inferno. O que antes era paixão e cumplicidade, agora se resumia a discussões intermináveis e silêncios pesados. O bebê, que deveria ser o elo de união, parecia ampliar a distância entre os dois. Cada consulta médica, cada recomendação de repouso, cada ausência de Enzo por causa das corridas era transformada em motivo de ressentimento. Leticia, fragilizada pela gestação de risco, sentia-se cada vez mais insegura. O corpo não respondia como antes, e a mente estava tomada por dúvidas e medos. A cada ligação com Enzo, a voz dela carregava uma mistura de cobrança e desespero. — Você não entende o que eu passo. — dizia, com lágrimas contidas. — Eu acordo sozinha, vou às consultas sozinha, durmo sozinha. Do outro lado, Enzo tentava manter o foco na carreira, mas também estava exausto. As corridas exigiam dele disciplina, concentração e força mental. E, ao mesmo tempo, a pressão de ser marido e futuro pai o esmagava. — E você não entende o que eu carrego. — respondia, a voz firme, mas cansada. — Eu tenho a equipe inteira que depende do meu resultado, a imprensa em cima, a cobrança por resultados dos patrocinadores… e agora vocês dois. Eu to me esforçando Leticia, mas você só vê o que falta. As palavras se chocavam como carros em alta velocidade. Nenhum dos dois conseguia frear. O que eles tinham antes que parecia inabalável agora estava coberto por sombras de insegurança e cansaço. Leticia se tornava cada vez mais vulnerável às mensagens da prima Giulia, que fazia questão de minar sua confiança. Cada foto enviada, cada comentário m*****o, era como gasolina jogada no fogo. — Olha como ele sorri ao lado daquela repórter… — dizia Giulia, nas suas visitas semanais. E Leticia, já fragilizada, absorvia cada insinuação como a única verdade. Enzo, por sua vez, sentia-se sufocado pelas cobranças dela. Não havia espaço para respirar. Quando estava na pista, o peso da responsabilidade o consumia; quando estava em casa, o peso das brigas o esmagava. O piloto que sempre controlava tudo agora se via impotente diante da própria vida e estava perdendo o foco. As noites eram longas e frias. Muitas vezes, dormiam em quartos separados, incapazes de encontrar um ponto de paz. Leticia acariciava a barriga em silêncio, tentando se conectar ao bebê, mas sentia que o vazio ao seu redor era maior do que qualquer esperança, e as vezes pensava consigo que aquele bebe estava causando a desunião deles. Enzo, no quarto ao lado, encarava o teto, perguntando a si mesmo se teria forças para sustentar tudo aquilo, e que talvez tenha se precipitado em casar com ela. O inferno cotidiano não era feito apenas de gritos e acusações, mas também de silêncios que doíam mais do que palavras. O bebê crescia, mas a relação deles encolhia. O que deveria ser um momento de alegria se transformava em um campo de batalha emocional, onde ambos estavam cansados, inseguros e cada vez mais distantes. A chuva caía pesada sobre Monza quando Enzo finalmente chegou em casa, após o Grande Prêmio de Suzuka. O corpo ainda doía do impacto: naquela corrida, ele havia perdido o controle na curva 130R, uma das mais rápidas e perigosas do circuito. O carro bateu contra a barreira de proteção, destruindo parte da asa dianteira e obrigando-o a abandonar a prova. A derrota ainda ecoava em sua mente, misturada ao peso das últimas semanas. Ao abrir a porta, encontrou Leticia sentada no sofá, pálida, com o celular nas mãos. O olhar dela estava perdido e o rosto vermelho de tanto chorar, e a dor que ela carregava era visível em seu olhar. — Recebi mais uma mensagem da Giulia. — disse, mostrando a tela com os olhos marejados, nem dando tempo para ele. Enzo suspirou, cansado, jogando as chaves sobre a mesa. — Oi Leticia eu estou bem, obrigado por perguntar. — Sua voz estava carregada de mágoa e raiva. — Você precisa parar de dar atenção a ela. Leticia ergueu o olhar, ferido. — Como, Enzo? Ela me lembra todos os dias que você não está aqui. Que eu estou sozinha. Ele se aproximou, tentando conter a raiva que crescia junto com o cansaço. — Eu corro porque é minha vida, eu sou um piloto caso não se lembre, eu tenho contrato. Mas também corro de volta para você, para o nosso bebê, p***a LETICIA. Leticia balançou a cabeça, lágrimas escorrendo. — Eu não sinto isso. O silêncio se instalou, pesado como a chuva que batia contra as janelas. Enzo não soube o que responder. O peso da responsabilidade, da carreira e agora da paternidade o esmagava. Ele havia perdido em Suzuka, e por sorte saiu ileso da batida, mas a sensação era de que estava perdendo muito mais fora da pista, e ele estava esgotado. Naquela noite, cada um foi dormir em silêncio, em quartos separados. O bebê crescia dentro de Leticia, mas a relação deles parecia encolher a cada dia. O que deveria ser um momento de alegria se transformava em um campo de batalha emocional. Leticia, deitada, acariciou a barriga, sentindo o pequeno movimento dentro de si. O coração apertava, mas ela murmurou em lágrimas: — Eu vou lutar por você. Mesmo que eu esteja sozinha, eu preciso reagir a tudo isso. No quarto ao lado, Enzo encarava o teto, o som da chuva misturado ao eco da batida em Suzuka. Ele fechou os olhos, exausto, e murmurou para si mesmo: — Eu preciso ser forte. Mas será que consigo? Três meses haviam passado desde o colapso de Leticia, e tudo o que eles haviam vivido até ali estava em xeque. O bebê era uma promessa de vida, mas também estava sendo um teste c***l. Entre corridas, brigas e inseguranças, o futuro permanecia incerto, como uma pista molhada cheia de curvas perigosas, onde qualquer erro poderia ser fatal.
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