Na manhã de domingo, Dona Maria chegou ao St. Thomas’ Hospital com o coração cheio de alegria. A notícia da gravidez de Leticia havia iluminado sua alma, e ela não pensou duas vezes antes de pegar o primeiro voo para Londres. Caminhou pelos corredores com passos apressados, ansiosa para ver a nora e compartilhar sua felicidade.
Ao entrar no quarto, encontrou Leticia deitada, pálida, com o semblante vazio. A bandeja de café da manhã repousava intacta sobre a mesa lateral; ela m*l havia tocado na comida. Maria se aproximou com um sorriso caloroso, tentando trazer vida ao ambiente.
— Minha querida, que surpresa maravilhosa! Você vai ser mãe!
Leticia ergueu os olhos lentamente, sem brilho.
— É… foi uma surpresa. — respondeu, a voz baixa, quase distante.
Maria puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, segurando a mão da nora.
— Você não imagina a felicidade que trouxe para nossa família. Um bebê… o primeiro neto! Vai ser uma bênção.
Leticia apenas assentiu, sem emoção. O olhar perdido no teto denunciava sua ausência.
As horas passaram, e juntas assistiram à corrida pela televisão do quarto. O som dos motores ecoava na tela, mas Leticia parecia indiferente. Maria, por outro lado, vibrava a cada volta, tentando envolver a nora.
— Olha só o Enzo, que piloto! Ele vai correr não só por ele, mas por vocês dois… e pelo bebê.
Leticia manteve o semblante vazio, sem reagir.
— Talvez… — murmurou, sem convicção.
Maria não desistia. A cada momento, buscava palavras de incentivo.
— Você precisa se cuidar, Leticia. Esse bebê vai precisar de você forte.
— Vai ser uma nova fase, cheia de alegria.
— Enzo vai ficar radiante quando segurar essa criança nos braços.
Mas nada parecia penetrar a barreira que envolvia Leticia. O choque da descoberta, somado ao peso da briga e ao desmaio, a deixava ausente, como se estivesse em outro mundo.
Maria suspirou, apertando a mão dela com carinho.
— Eu sei que está difícil agora, mas você não está sozinha. Eu estou aqui, e Enzo também. Esse bebê vai unir vocês ainda mais.
Leticia desviou o olhar para a tela, onde o carro de Enzo cruzava mais uma curva.
— Espero que sim… — disse, num tom frio, quase mecânico.
Maria percebeu a distância, mas manteve o sorriso. Sabia que precisaria de paciência para alcançar o coração da nora. E naquele quarto de hospital, entre o silêncio de Leticia e a esperança de Maria, a corrida que acontecia na televisão parecia simbolizar a própria vida deles: cheia de voltas inesperadas, curvas perigosas e a necessidade constante de seguir em frente.