Capítulo 17 – A Decisão

930 Words
O quarto do hospital estava silencioso quando Enzo se levantou da cadeira ao lado da cama. O olhar cansado denunciava a noite sem dormir, mas havia algo mais: a corrida em Silverstone o chamava. Ele precisava voltar para acompanhar a equipe e participar das últimas reuniões antes da largada. Leticia, ainda frágil, o observava com calma. — Você vai voltar para o autódromo? — perguntou, a voz suave, mas firme. Enzo assentiu. — Preciso estar lá. A corrida é amanhã. Prometo que volto à noite para ficar com você. Ela respirou fundo, tentando esconder a mistura de sentimentos. — Não, Enzo. Você precisa descansar. Amanhã será um dia longo. Eu vou estar bem aqui. Não quero que se preocupe comigo. Ele a encarou, como se buscasse alguma resistência, mas encontrou apenas serenidade. — Tem certeza? — murmurou, ainda hesitante. — Tenho. — respondeu Leticia, desviando o olhar para o teto. — O médico disse que vou ficar monitorada. Não há nada que você possa fazer além de descansar e se preparar. Enzo passou a mão pelos cabelos, frustrado. — Eu não consigo simplesmente não me preocupar. — Mas precisa. — disse ela, firme. — O bebê está bem, eu estou sendo cuidada. Você tem uma corrida importante. Não pode carregar tudo ao mesmo tempo. O silêncio se instalou por alguns segundos. Enzo se aproximou, segurou a mão dela com cuidado e disse em tom contido: — Eu volto depois da corrida. Leticia apenas assentiu, sem emoção. Ambos estavam frios, distantes, como se a revelação da gravidez tivesse criado uma barreira invisível entre eles. Não havia abraços nem palavras doces, apenas a dura realidade: ela ficaria no hospital, e ele voltaria para a pista. Naquele instante, cada um seguiu seu caminho — ela, para enfrentar a fragilidade do corpo e a descoberta inesperada; ele, para encarar a pressão da corrida e o peso de uma responsabilidade que agora era maior do que qualquer campeonato. No caminho de volta para Silverstone, Enzo dirigia em silêncio, ainda processando tudo o que havia acontecido. O telefone em sua mão parecia pesar mais do que o volante. Respirou fundo e decidiu ligar para os pais. Precisava compartilhar a novidade, mesmo que ainda estivesse em choque. — Papà… mamà… — disse, quando a chamada foi atendida. — Eu tenho algo para contar. Do outro lado da linha, a voz calorosa de Dona Maria surgiu, cheia de carinho. — Enzo, filho! Como você está? Está nervoso para a corrida? Ele hesitou por um instante, mas então soltou: — Não é sobre a corrida. É sobre a Leticia. Ela… ela está grávida. O silêncio durou apenas alguns segundos, antes de se transformar em uma explosão de alegria. — Grávida?! — exclamou Dona Maria, quase sem acreditar. — Meu Deus, Enzo! Vocês vão ter um bebê! O pai, Giuseppe, entrou na conversa, a voz firme mas emocionada: — Isso é maravilhoso, filho. Um bebê… a família vai crescer. Enzo sorriu pela primeira vez desde o telefonema do hospital, sentindo o calor da reação deles. — Eu ainda estou tentando entender. Foi um choque. Nem ela sabia. Dona Maria não conteve a empolgação. — Eu vou pegar o primeiro voo para Londres. Quero estar com vocês, quero cuidar da minha nora e desse bebê. — Mamà, calma… — disse Enzo, tentando conter a emoção. — Ela está bem, o médico disse que vai ficar alguns dias internada. — Isso não importa. — respondeu ela, decidida. — Uma mãe precisa estar perto. Giuseppe riu, orgulhoso. — Você vai ser pai, Enzo. E nós vamos estar ao seu lado. Enzo desligou a chamada com o coração mais leve. Pela primeira vez desde o colapso de Leticia, sentiu esperança. A notícia havia abalado seu mundo, mas também havia trazido uma nova luz: a família estava prestes a crescer, e todos estavam prontos para acolher essa nova vida. Enzo chegou aos boxes com o semblante sério, ainda carregando o peso da noite anterior e da manhã no hospital. Marco e Romano se aproximaram imediatamente, atentos ao estado do piloto. — E então, Enzo… como está a Leticia? — perguntou Marco, preocupado. Enzo respirou fundo antes de responder. — Ela está bem. Vai ficar alguns dias hospitalizada, mas está fora de perigo. Romano assentiu, aliviado. — Graças a Deus. Ficamos todos tensos com a sua saída repentina. Enzo olhou para os dois, hesitando por alguns segundos. Depois, baixou o tom da voz, quase como se fosse um segredo. — Há mais uma coisa… — disse, olhando em volta para garantir que ninguém mais escutava. — O médico descobriu que ela está grávida. Marco arregalou os olhos, surpreso. — Grávida? Enzo, isso é incrível! Romano sorriu discretamente, mas manteve o tom contido. — Parabéns, rapaz. Isso muda tudo. Enzo levantou a mão, pedindo calma. — Eu sei. Mas ainda é cedo. Nem ela sabia. Foi um choque para nós dois. Por favor, não deixem essa notícia se espalhar. Não quero que vire assunto no paddock ou na imprensa. Marco colocou a mão no ombro dele, em gesto de apoio. — Fica tranquilo. Isso fica entre nós. Romano completou, sério: — Você pode confiar. A equipe não precisa saber agora. O foco é a corrida. Enzo assentiu, sentindo um misto de alívio e responsabilidade. — Obrigado. Preciso de vocês comigo mais do que nunca. Os três trocaram um olhar silencioso, íntimo e discreto. Ali, no meio do barulho dos motores e da agitação dos boxes, um segredo havia sido compartilhado. Um segredo que mudaria a vida de Enzo para sempre, mas que, por enquanto, precisava permanecer guardado.
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