Três meses haviam se passado desde a tragédia, e o intervalo entre o fim da temporada e o início de outra não trouxe descanso, apenas um vazio que se espalhava pelo apartamento em Milão. O lar que antes pulsava com vida agora parecia um espaço gelado, onde cada parede refletia o silêncio que os separava.
Enzo saía cedo todas as manhãs. O som da porta batendo era o único sinal de sua presença. Passava o dia nos treinos, conversava com a equipe, ria com os amigos nos boxes, mas ao voltar para casa, o peso do silêncio o esmagava. À noite, sentava-se à mesa, comendo sozinho. O prato de Leticia permanecia intocado na cozinha. Às vezes, ele arriscava uma pergunta, quase como um gesto automático: “Como foi o seu dia?” Mas a resposta vinha em murmúrios inaudíveis, ou em passos que se afastavam até o quarto, sem olhar para trás.
Leticia vivia trancada em si mesma. Passava horas no quarto, às vezes no sofá, olhando para o nada. O brilho nos olhos havia desaparecido. Não brigava, não reclamava, não acusava. Apenas se isolava ali e vegetava. O bebê que perdera era uma presença constante em sua mente, e cada vez que olhava para Enzo, sentia a distância aumentar. Evitava qualquer contato. Não havia abraços, não havia palavras de carinho. O silêncio era sua forma de se proteger, mas também a barreira que os afastava.
O casal não discutia mais. Não havia gritos, não havia acusações. Mas também não havia apoio. Cada um carregava sua dor de forma solitária sem apoio um do outro, e essa solidão construía um muro invisível entre eles.
Enzo, sentado no sofá, olhava para o quarto fechado e pensava: “Eu não sei mais como alcançá-la.”
Leticia, deitada na cama, pensava: “Ele não entende a dor que eu carrego.”
O apartamento era grande, mas parecia pequeno demais para dois corações tão distantes. Eles se cruzavam nos corredores sem trocar olhares. Dormiam em camas separadas. Viviam sob o mesmo teto, mas como estranhos. Enzo mergulhava nos treinos para fugir da dor. Leticia mergulhava no silêncio para sobreviver a ela. Nenhum dos dois encontrava forças para quebrar o muro.
A relação estava congelada. Não havia explosões, não havia tempestades. Apenas um frio constante, que corroía lentamente o que restava do amor. O intervalo entre temporadas, que deveria ser um tempo de reconstrução, tornou-se o início de um distanciamento irreversível. O muro invisível que os separava crescia a cada dia, e ambos, perdidos em suas próprias dores, não percebiam que estavam caminhando para o fim.
Naquele fim de tarde, Enzo chegou em casa tentando parecer animado. Tinha passado o dia nos treinos e, apesar do cansaço, queria quebrar o silêncio que dominava o apartamento. Deixou a mochila no canto e se aproximou de Leticia, que estava sentada no sofá, olhando fixamente para a janela.
— Leti… — começou, com a voz suave. — Estive conversando com a equipe. A temporada vai começar em Xangai. Pensei… quem sabe você poderia ir comigo, como nos velhos tempos?
Por um instante, ela não respondeu. O silêncio foi tão pesado que Enzo sentiu o coração acelerar. Então, de repente, Leticia virou o rosto para ele, os olhos cheios de lágrimas e raiva contida.
— Como nos velhos tempos? — gritou, a voz trêmula. — Você acha que dá para voltar atrás, Enzo? Você acha que eu consigo sorrir nos boxes, fingir que nada aconteceu?
Ele recuou um passo, surpreso com a explosão.
— Eu só pensei que poderia nos fazer bem… sair daqui, mudar o ambiente.
— Nos fazer bem? — ela levantou-se, os punhos cerrados. — Você não entende nada! Eu perdi meu filho nos meus braços, Enzo! Eu senti ele morrer em mim! E você estava lá, comemorando, sorrindo para as câmeras!
Enzo sentiu o golpe das palavras como uma pancada.
— Não fala assim… você sabe que eu não sabia. Eu também perdi!
— Perdeu? — ela riu, amarga. — Você perdeu o quê? Um troféu? Uma corrida? Eu perdi meu filho! Eu perdi a vontade de viver!
A raiva subiu em Enzo, misturada com dor e culpa.
— E você acha que eu não sofro? — gritou, aproximando-se. — Você acha que é fácil para mim? Eu acordo todos os dias com essa culpa, mas você não me deixa chegar perto! Você me empurra para longe, como se eu fosse o inimigo!
Leticia chorava, mas não recuava.
— Porque você não estava lá! Você nunca está! Sempre correndo, sempre viajando, sempre pensando na sua carreira!
Enzo perdeu o controle.
— Eu corro porque é a única coisa que me resta! — berrou, a voz ecoando pelo apartamento. — Mas viver assim… viver nesse silêncio, nessa distância… está insuportável!
O grito cortou o ar como uma lâmina. Leticia ficou imóvel, os olhos arregalados, as lágrimas escorrendo. Enzo respirava pesado, o peito arfando de raiva e dor. Por um instante, parecia que ele iria quebrar tudo ao redor. Mas, em vez disso, virou-se e caminhou até a porta.
— Eu não consigo mais… — murmurou, antes de bater a porta com força.
O som ecoou pelo apartamento, deixando Leticia sozinha no silêncio. Ela caiu no sofá, abraçando os joelhos, chorando sem parar. O muro entre eles, que já era alto, agora parecia intransponível.
Naquele fim de tarde, não houve reconciliação. Houve apenas gritos, acusações e a certeza de que o amor deles estava se desfazendo, não por falta de sentimento, mas porque a dor havia se tornado maior do que qualquer palavra.