Enzo correu como nunca. No circuito de Xangai, cada curva foi enfrentada com a fúria de quem tentava fugir de si mesmo. A vitória veio como um grito de alívio, mas também como uma máscara para esconder a dor. No pódio, o sorriso era ensaiado, os aplausos ecoavam, mas dentro dele havia apenas vazio.
Mais tarde, no bar do hotel, já com alguns drinks a mais, Enzo se deixou afundar na bebida. Marco e Romano, seus amigos e companheiros de equipe, se aproximaram, preocupados.
— Enzo cara, você precisa conversar com a Leticia — disse Marco, com tom firme, mas fraterno. — Essa distância vai acabar destruindo vocês dois.
Romano completou, apoiando a mão no ombro dele:
— Vamos campeão ainda tem tempo de salvar o casamento, diz para ela que você a ama. Vai lá e lute pela aquela garota.
Enzo balançou a cabeça, os olhos pesados, a fala enrolada pela bebida.
— Eu… eu tentei… tentei falar… mas ela… ela não me ouve. Só… só me olha como se eu fosse… um estranho, ela me culpa eu sei.
Marco suspirou.
— Então insista, não há culpados Enzo. Não desista dela. Você já perdeu demais.
Romano reforçou:
— Amanhã, quando estiver sóbrio, liga para ela, fale o que sente mesmo que seja por telefone. Mostre a Leticia que você a escolheu, como sua.
Enzo sorriu de forma amarga, levantando o copo.
— Amanhã… sempre amanhã… mas hoje… hoje eu só quero esquecer, um brinde.
Foi nesse momento que Olivia apareceu. A ex-esposa, elegante, com um olhar calculado, aproximou-se devagar.
— Enzo, querido… — disse, com voz suave. — Eu vi sua corrida. Foi incrível.
Ele a encarou, os olhos turvos.
— Olivia… você… você não devia estar aqui, cadê o Luca.
Ela sorriu, sentando-se ao lado dele.
— Estamos nos separando, sabe Enzo meu casamento com ele foi um erro. — Falou com um tom de voz melodramática.
— Erro... a Leticia não é um erro... sabiaaaa... foi o meu melhor acerto... — a voz saia enrolada.
— Querido eu sinto muito pelo que está passando, eu soube da sua perda. — a fala era gentil, mas escondia algo ali, Olivia sempre foi uma víbora manipuladora e ali vendo Enzo fragilizado era o momento perfeito para cerca-lo. Então com um sorriso nos lábios falou:
— Eu sabia que te encontraria. E olha só… você está tão perdido, precisando dos velhos amigos...
Marco e Romano trocaram olhares, desconfortáveis.
— Enzo, vamos é melhor agente subir, para o quarto. — Sugeriu Marco. — Não é hora de ficar aqui, cara você bebeu demais.
Mas Olivia se adiantou, colocando a mão sobre a dele.
— Deixa ele, Marco você sempre o cara certinho. Ele precisa agora de alguém que o entenda.
Enzo, visivelmente bêbado, começou a desabafar.
— Eu… eu perdi meu filho… Olivia… você não sabe… não sabe o que é ver… ver a mulher que você ama… morrer por dentro todo os dias… e não conseguir… não consegui segurar nem a mão delaaa...
Olivia inclinou-se, fingindo compaixão.
— Eu sei, Enzo. Eu sei o quanto você sofre, sei o quanto sempre quis um filho. Mas você não precisa carregar isso sozinho. Eu posso estar aqui para você, amor. Como sempre estive, afinal sempre fomos bons juntos.
Ele chorava, a voz embargada.
— Eu… eu não sei mais quem eu sou…
Ela acariciou seu rosto, aproximando-se.
— Você ainda é o homem que eu amei. E ainda pode ser, Enzo, precisa de uma mulher forte que não coloque os seus dramas em primeiro lugar, precisa de uma mulher que seja a sua base, porque você é o Grande Raio.
Antes que Marco ou Romano pudessem intervir, Olivia o beijou. Enzo, frágil e embriagado, não resistiu e correspondeu ao beijo.
Do outro lado do bar, Giulia observava tudo. O sorriso m*****o se formou em seus lábios enquanto levantava o celular e filmava a cena. Cada segundo registrado era uma arma. Ela pensava em Leticia, em como seria devastador ver aquilo. “Se eu sofro, ela também vai sofrer, pois Fabricio está me deixando porque descobriu que amava mais Leticia do que a mim.”
Marco tentou puxar Enzo, mas Olivia segurou firme.
— Ele precisa de mim. — disse, manipuladora. — Vocês não entendem.
Enzo, já visivelmente bêbado, tenta se soltar dos braços de Marco e Romano, a voz enrolada e carregada de dor:
— Me Largue! — gritou, empurrando os dois. — Vocês não entendem nada… eu não preciso de sermão, não preciso de conselho!
Marco tentou acalmá-lo:
— Enzo, você não está bem, vamos subir para o quarto, amigo. Amanhã você vai se arrepender do que está fazendo agora.
Mas Enzo, com os olhos vermelhos e o copo ainda na mão, rebateu com fúria:
— Eu não preciso de vocês me dizendo o que fazer! Eu preciso de uma mulher de verdade… não de uma pedra de gelo que me olha todo dia como se eu fosse um estranho!
Romano segurou firme seu braço, tentando impedir que ele quebrasse algo.
— Não fala isso, cara. Você está machucado, mas não pode jogar tudo fora, cara.
Enzo riu, amargo, a fala arrastada pela bebida:
— Jogar fora? Já está tudo quebrado! Eu chego em casa e ela não fala comigo, não me toca, não me olha… é como viver com um fantasma!
Olivia, aproveitando o momento, se inclinou e falou com voz doce, manipuladora:
— Porque ela não sabe te valorizar, Enzo. Você merece alguém que te veja, que te entenda, que esteja ao seu lado de verdade.
Enzo, perdido, balançou a cabeça, lágrimas misturadas ao álcool:
— Eu… eu só queria sentir que ainda sou amado…
Olivia acariciou sua mão, aproximando-se ainda mais:
— E você é. Por mim. Sempre foi, meu amor.
Marco tentou intervir novamente:
— Enzo, não é assim. Você precisa da sua esposa, não de…
Mas Enzo o interrompeu, gritando, a voz embargada:
— Eu preciso de calor, de vida! Não de gelo!
Olivia então o puxou para si, aproveitando a brecha, e o beijou novamente. Enzo, frágil e entregue, não resistiu mais uma vez.
Romano respondeu, irritado:
— Não, Olivia. Ele precisa da esposa dele.
Mas Enzo já estava entregue, perdido entre a bebida, a dor e o consolo falso, que empurrou os amigos e saiu andando abraçado a Olivia em direção a saída do bar.
Naquela noite, o mundo conspirou contra ele. A vitória em Xangai tinha um preço alto: os beijos de Olivia, a filmagem de Giulia, mudariam sua vida pra sempre.
Dois dias depois:
O apartamento do casal em Monza estava mergulhado em silêncio quando Giulia apareceu para uma visita inesperada. Leticia, cansada e abatida, abriu a porta sem imaginar o que estava prestes a acontecer. A prima entrou com um sorriso suave, carregando uma sacola de doces e flores.
— Eu pensei em te visitar, trazer um pouco de companhia… — disse Giulia, com voz doce. — Você anda tão sozinha, Leti.
Leticia suspirou, aceitando a presença.
— Obrigada… eu realmente não tenho forças para nada, Giulia.
Giulia se sentou ao lado dela no sofá, fingindo empatia.
— Eu sei, querida. Eu sei o quanto você está sofrendo, mas precisa reagir, seu bebê não ia querer que a mãe dele ficasse assim, pense em seu pais Leti, eles amavam a vida e você, precisa reagir.
— Eu sei Giulia, mas é tão difícil e uma dor. — Falou entre as lagrimas.
— Imagino Leti, eu pensei muito em vir aqui prima, e o que eu preciso te mostrar é algo que pode te destruir ainda mais. Mas… eu preciso você é minha irmã Leti e não é fácil para mim, mas é melhor que você saiba logo.
Leticia franziu o cenho.
— Mostrar o quê?
Giulia pegou o celular, hesitou por alguns segundos, e então abriu o vídeo. Na tela, Enzo aparecia no bar do hotel em Xangai, visivelmente bêbado, sendo consolado por Olivia. O beijo era claro, inegável.
Leticia levou a mão à boca, os olhos marejados.
— Não… não pode ser…
Giulia fingiu indignação, mas por dentro sorria.
— Eu não queria te machucar, mas precisava ser sincera. Você merece saber quem está ao seu lado e não é a primeira vez que eles ficam juntos Leticia eu soube isso da boca da própria Olivia. — Falou.
— Não... — as palavras não saíram, Leticia não conseguia imaginar como Enzo poderia ser assim tão sádico.
— Eu sempre estarei aqui, como sua irmã e melhor amiga.
Leticia chorava, o coração despedaçado.
— Depois de tudo… depois de tudo que passamos… ele… ele me traiu. — consegui enfim falar.
Giulia abraçou-a, fingindo consolo.
— Você não merece isso. Você merece alguém que te ame de verdade e te respeite.
A decisão nasceu ali, entre lágrimas e dor. Leticia levantou-se, foi até o quarto e começou a arrumar as malas ela não ficaria mais nem um minuto naquele apartamento que nunca foi dela. As peça de roupa dobrada foram jogadas na mala de qualquer jeito ela pegou poucas coisas, os presentes e joias que Enzo lhe dera ela não os queria, ele que doasse ou jogasse fora. Giulia observava, satisfeita, mas mantendo o papel de amiga solidária.
— O que você vai fazer? — perguntou, fingindo preocupação.
— Vou embora daqui é obvio. — respondeu Leticia, firme apesar das lágrimas. — Não posso mais viver com ele, foi um erro desde o início.
Pegou o celular e ligou para o tio Claudio.
— Tio…
— Leticia amor, como você está, filha?
— Eu estou saindo de casa. Vou largar Enzo, não aguento mais viver aqui.
Do outro lado da linha, a voz dele foi imediata, carregada de preocupação.
— Volta para casa, filha. Fica com a sua família, vamos cuidar de você.
Mas Leticia balançou a cabeça, mesmo sabendo que ele não podia vê-la.
— Não, tio. Eu preciso de um tempo de tudo isso, vou mexer no fundo de pensão que meus pais deixaram, vou voltar para o Brasil, para a terra da minha mãe, vou ficar uns tempos por lá. Preciso me refazer, longe de tudo isso.
— É isso mesmo que você quer?
— Sim, tio. — Falou suspirando fundo. — Tio outra coisa, não quero que conte a ninguém onde estou, por favor.
— Leticia, seu marido a família dele...
— Tio, por favor. Ninguém. — Suplicou.
Claudio suspirou, resignado.
— Se essa é sua decisão, eu respeito. Mas saiba que sempre terá um lar aqui comigo e sua tia, filha.
Leticia desligou, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Pegou as malas, olhou uma última vez para o apartamento que havia sido palco de tantos sonhos e dores, e saiu.
Giulia, atrás dela, sorriu discretamente. O plano estava completo: Leticia abandonava Enzo, e a ferida aberta jamais cicatrizaria.
Naquele instante, o casamento deles que estava em crise pela dor, estava oficialmente acabado e totalmente quebrado. E Leticia, carregando sua dor de perder o filho e ver o homem que era seu marido nos braços do seu verdadeiro amor, ela partia em busca de um novo começo, sem saber que o vídeo que destruíra sua vida havia sido mostrado por alguém que desenvolveu um ciúme doentio por ela, que havia deixando de ser sua amiga de verdade há muito tempo.