O ambiente da boate em Montreal era vibrante. Luzes de neon refletiam nas paredes espelhadas, a música eletrônica pulsava e o salão estava lotado de pilotos, engenheiros e convidados. Leticia, ainda tentando disfarçar a dor da revelação de Giulia, havia aceitado o convite de um dos engenheiros subordinados de seu pai e se jogou na pista de dança. O vestido verde claro realçava sua silhueta, e o salto alongava seus movimentos. Ela sorria, mas o sorriso não chegava aos olhos.
Enquanto dançava, olhava em volta. Não viu Enzo. Um misto de frustração e alívio a percorreu. Cansada de ver o casal feliz e sentindo-se como um acessório sobrando naquela equação, aproximou-se da prima.
— Giulia, vou voltar para o hotel. Estou cansada. — disse, beijando-a na bochecha.
Giulia sorriu, sem perceber a dor escondida.
— Claro, Leti. Descansa. Amanhã será um grande dia, vou contar ao papai e a mamãe a novidade. — Falou Giulia sorrido, sem imaginar a dor no peito da prima.
Leticia caminhou até a porta e pediu ao segurança que lhe arrumasse um carro. Poucos minutos depois, um táxi estacionou. Ela abriu a porta, pronta para entrar, quando uma mão forte a puxou pelo braço.
— Per favore, non andare via… sono appena arrivato. — disse Enzo, em italiano, com voz firme.
Leticia se virou, surpresa e irritada.
— Desculpe, mas minha hora já deu. — respondeu, puxando a mão e entrando no carro.
Antes que pudesse fechar a porta, Enzo entrou ao seu lado, com um sorriso carregado de charme.
— Então eu vou te acompanhar. — disse, olhando-a nos olhos.
Leticia suspirou, exasperada.
— Você não entende, Enzo. Eu não quero companhia, muito menos a sua.
— Mas eu quero a sua. — Retrucou ele, sem perder o tom sedutor. — Vi você dançando. Estava linda.
— Não estou tento uma boa noite, Ezo Mancini. — disse, firme.
Enzo inclinou-se, curioso.
— O que houve?
Leticia hesitou, mas a dor transbordou.
— Não é da sua conta.
Enzo ficou em silêncio por um instante, absorvendo a informação.
— E esse assunto que não é da minha conta, te machuca… — disse, com voz baixa.
— Claro que machuca! — explodiu Leticia. — Ele me disse que me amava... desde de sempre. E agora… agora ... ai nem posso falar.
Enzo a observou com seriedade.
— Olhe esse cara é um t**o. Não sabe o que quer. Mas você… você não merece ser um prêmio de consolação para ninguém. Você é única, minha pequena estrela.
Leticia desviou o olhar, tentando conter as lágrimas.
— Você fala bonito, Enzo. Pena que é um conquistador barato, não posso pensar em acreditar em suas palavras.
Ele se aproximou, a voz suave, mas firme:
— Não precisa acreditar em mim agora. Só não vá embora achando que não é digna do amor.
Então ele como um bom cavalheiro entrou no taxi com ela. O táxi começou a andar pelas ruas iluminadas de Montreal. Leticia permaneceu em silêncio, dividida entre a raiva, a dor e a estranha sensação de conforto ao lado de Enzo.
Seguiam pelas ruas iluminadas de Montreal quando Enzo, com sua voz firme, pediu ao motorista:
— Portaci all’autodromo, per favore.
Leticia o olhou, surpresa.
— O autódromo? Agora?
— Sim. — respondeu ele, com calma. — Preciso te mostrar algo.
O carro seguiu até o circuito. Ao chegarem, o ambiente era completamente diferente do que Leticia havia visto durante o dia. As arquibancadas estavam vazias, o silêncio dominava, e apenas a luz fraca dos postes iluminava a imensidão da pista.
Eles caminharam em silêncio até as arquibancadas. O som dos passos ecoava no concreto. Sentaram-se lado a lado, olhando para o traçado que horas antes havia sido palco de velocidade e adrenalina.
Enzo quebrou o silêncio.
— Sabe, Leticia… eu costumo vir aqui depois das corridas. Mesmo quando ganho ou perco, vejo como uma forma de respeito à pista, então venho agradecer a ela o resultado da corrida.
Ela virou o rosto, observando-o. Pela primeira vez, viu nele uma sinceridade que não estava mascarada pelo charme ou pela arrogância.
— Respeito à pista? — perguntou, curiosa.
Enzo assentiu.
— Às vezes, a vida não é justa. As coisas não acontecem como sonhamos. Mas a pista sempre está aqui. Sempre nos dá a possibilidade de uma nova largada, uma chance de corrigir os nossos erros e refazer a corrida da vida de uma forma diferente.
As palavras penetraram fundo no coração de Leticia. Ela sentiu uma lágrima quente escorrer pelo rosto. Tentou disfarçar, mas Enzo percebeu. Com delicadeza, aproximou-se e enxugou a lágrima com um beijo suave na face dela.
Leticia fechou os olhos por um instante, sentindo o gesto. O silêncio voltou a dominar, mas agora era um silêncio carregado de significado.
— Você fala como se a pista fosse um espelho da vida. — Murmurou ela.
— Talvez seja. — respondeu Enzo, olhando para o traçado vazio. — Aqui, cada volta é uma oportunidade. A cada erro temos a chance de que na próxima volta podemos corrigi-lo. E todas as nossas vitórias são fruto da nossa coragem.
Leticia respirou fundo, dividida entre a dor que carregava e a estranha sensação de conforto que aquelas palavras lhe traziam. Pela primeira vez, permitiu-se pensar que talvez, ao lado de Enzo, pudesse encontrar algo diferente.
O autódromo estava mergulhado em silêncio. As arquibancadas, que horas antes vibravam com gritos e aplausos, agora eram apenas testemunhas mudas da noite. Leticia e Enzo permaneciam lado a lado, absorvendo a imensidão daquele espaço vazio.
As palavras dele ainda ecoavam em sua mente: “A pista sempre está aqui, sempre nos dá a possibilidade de uma nova largada.” Foi nesse instante que, sem pensar, Leticia se virou e sentou-se de frente em seu colo. Suas pernas envolveram a cintura dele num gesto instintivo, quase desesperado.
Enzo a olhou, surpreso, mas não disse nada. Apenas deixou que o silêncio falasse por eles. Leticia aproximou-se, buscando seus lábios com intensidade. O beijo foi lento, carregado de hesitação, mas logo se transformou em algo mais profundo, quente, cheio de entrega.
As mãos dele deslizaram suavemente pelas costas dela, trazendo-a ainda mais para perto. O toque era firme, mas ao mesmo tempo delicado, como se tivesse medo de quebrar aquele momento. Leticia sentia o coração disparar, cada batida ecoando como um motor acelerado.
Os beijos se tornaram mais intensos, mas nunca explícitos. Havia ternura misturada com desejo, carinho entrelaçado com paixão. O calor dos lábios dele fazia suas lágrimas secarem, transformando dor em algo inesperadamente doce.
— Leti… — murmurou Enzo entre um beijo e outro, a voz rouca. — Você não faz ideia de como é bom ter você assim.
Ela não respondeu. Apenas o beijou novamente, como se quisesse calar qualquer palavra. Seus dedos se perderam nos cabelos dele, enquanto o corpo inteiro se entregava àquele instante.
Naquele espaço vazio, sob as luzes fracas do autódromo, não havia mais corridas, rivalidades ou manchetes. Apenas dois corações que, por alguns minutos, decidiram correr juntos.
O clima entre eles havia se tornado quente demais. O silêncio da pista, o vazio das arquibancadas e os beijos intensos criaram uma atmosfera carregada de desejo. Mas, de repente, a voz da razão trouxe Enzo de volta à realidade.
— Mia stella… meglio fermarci. — disse ofegante, visivelmente hesitante, ainda segurando Leticia em seu colo.
Leticia, com o rosto vermelho pela excitação, respirava rápido. Concordou com um leve aceno, embora seu corpo ainda pedisse por mais.
Enzo, sem soltá-la, pegou o celular e ligou para alguém.
— Pode me pegar, estou no autódromo. — disse em tom prático, antes de desligar.
Ele então depositou um beijo suave no ombro dela, prolongado, como se quisesse gravar aquele instante na pele.
— Vem comigo? — perguntou, a voz rouca e carregada de sensualidade.
Leticia ergueu os olhos, confusa.
— Como assim?
Enzo sorriu, ainda ofegante.
— Vou ficar quinze dias de folga na Grécia. Vem comigo, por favor.
Ela o encarou profundamente, sentindo o peso daquele convite. O olhar dele era intenso, quase hipnótico.
— Não posso. — Murmurou, tentando se convencer.
— Vieni… — insistiu ele, aproximando os lábios de sua orelha, a voz baixa e sensual. — Não pensa demais. Só vem.
Leticia fechou os olhos, sentindo o arrepio que percorria sua pele. O coração batia acelerado, dividido entre razão e paixão.
— Enzo… isso é loucura.
Ele segurou seu rosto com as mãos, obrigando-a a olhar nos olhos dele.
— Às vezes, a vida precisa de loucura. Você sente isso tanto quanto eu.
O silêncio voltou, mas agora era carregado de tensão e desejo. Leticia sabia que não podia aceitar, mas também não conseguia negar o que sentia. O convite pairava entre eles como uma promessa proibida, e o calor daquele instante parecia impossível de apagar.