O jantar no restaurante do hotel transcorria em clima de celebração. A família Vitale, reunida à mesa, comentava entre risos a corrida e o excelente desempenho de Fabricio, que garantira o segundo lugar na largada na manhã seguinte. Empolgada como sempre, Giulia pediu ao noivo que a acompanhasse até a boate onde ocorreria a festa dos pilotos. Fabricio alegou estar cansado e tentou recusar, mas Claudia, sua mãe, fez questão de insistir.
— Crianças, vocês são jovens, devem aproveitar, hoje é noite de celebração.
Fabricio assentiu sorrido para a noiva.
Giulia bateu palmas, animada:
— Então vou me arrumar!
Leticia permaneceu mais um pouco à mesa, terminando o jantar em silêncio. Quando se levantou, Fabricio a acompanhou até o elevador. O ambiente mudou completamente quando as portas se fecharam, isolando-os do restante da família.
Fabricio respirou fundo, como se reunisse coragem. Então, segurou a mão de Leticia.
— Leti… eu preciso te dizer algo.
Ela olhou, para ele com um misto de confusão e o coração acerelado, mas não disse nada e Fabricio continuou.
— Eu amo, a Giulia você sabe, mas amo você também desde de sempre, você sabe que...
Leticia arregalou os olhos, surpresa e furiosa o interrompeu.
— Fabricio, não ouse! — disse, puxando a mão. — Você está com Giulia, minha prima que é como uma irmã pra mim. E agora vem me tentar me dizer isso?
Ele insistiu, a voz carregada de emoção:
— Eu não quero que você jogue sua vida fora, principalmente com um homem como Enzo. Ele não é para você, Leti não fique com ele porque está magoada comigo, porque eu escolhi a Giula.
Leticia respirou fundo, tentando conter a raiva.
— Você é um egoísta, Fabricio. Sempre foi e eu fui uma i****a de nunca ter percebido o quanto! Quer a Giulia, mas não suporta me ver com alguém diferente, alguem que me faça rir?
— Não é bem assim, Leti. Eu me preocupo com você. — Argumento ele.
— Sei, se preocupa mesmo, Fabricio? Ou que eu não esteja ali do seu lado como um bichinho de estimação esperando a fagulha do seu carinho.
— Não é isso! — retrucou ele, desesperado. — Eu só quero te proteger.
— Proteger? — Leticia riu com ironia. — Você me protege ficando com minha prima e depois vem dizer na minha cara olhando nos meus olhos que me ama? Isso não é proteção Fabricio, para mim isso é covardia.
O silêncio no elevador era pesado. Fabricio tentou se aproximar, mas Leticia recuou.
— Eu não sou sua segunda opção, nem seu prêmio de consolação. Você fez suas escolhas, agora viva com elas. Por que eu vou fazer as minhas escolhas e viver com ela.
Ele abaixou a cabeça, derrotado.
— Eu só não quero te perder para alguém como Enzo, ele não merece alguem puro como você.
Leticia o encarou com firmeza, os olhos faiscando.
— Eu não sou uma corrida que você ganha ou perde, Fabricio. Eu escolho o que eu quero e quem eu quero, nem você nem Enzo tem o poder de influenciar as minhas escolhas.
As portas do elevador se abriram, e Leticia saiu sem olhar para trás. Fabricio ficou parado, sentindo o peso da própria declaração. A tensão pairava no ar, como se aquela conversa tivesse aberto feridas antigas e exposto verdades que não poderiam mais ser ignoradas.
Leticia entrou em seu quarto furiosa. Quem Fabricio pensava que era, para declarar amor por ela depois de ter colocado uma aliança no dedo da sua prima Giulia há menos de um mês? O coração dela pulsava de raiva. Não era um troféu para alguém ganhar ou perder. Era mais. Muito mais.
Num primeiro momento, pensou em não ir à boate naquela noite, onde aconteceria a festa dos pilotos após o Grande Prêmio. Mas ao se olhar no espelho, tomou uma decisão.
— Por Deus, eu vou. — murmurou. — Vou mostrar a Fabricio que eu tenho poder de escolha. Não sou mais aquela menininha que sempre andava atrás dele e de Giulia, esperando por migalhas.
Vestiu um vestido verde claro, de tecido leve que abraçava suas curvas. Calçou um salto que alongava sua silhueta, cacheou as pontas dos cabelos e fez uma maquiagem digna de uma modelo de revista. Ao terminar, sorriu para si mesma. Estava pronta.
Duas horas depois, Leticia chegou à boate mais famosa de Montreal, localizada no coração da cidade. O lugar era luxuoso, com luzes de neon refletindo nas paredes espelhadas, música eletrônica vibrando e uma pista de dança lotada. Garçons circulavam com bandejas de taças de champanhe e vinho. Pilotos, membros de equipes e convidados se misturavam em um ambiente de glamour e energia.
Leticia pediu uma taça de vinho branco e se juntou a alguns membros da equipe de Fabricio. Ria, dançava e se divertia. A noite parecia perfeita.
De repente, Fabricio voltou à mesa com duas taças de vinho. Uma para Leticia e outra para Giulia, que acabara de se aproximar. Giulia sorriu, mas recusou delicadamente.
— Obrigada, amor… mas por um tempo não vou poder beber.
Fabricio franziu o cenho.
— Como assim?
Giulia segurou a mão dele e, com brilho nos olhos, anunciou:
— Estou grávida.
O mundo de Leticia desabou naquele instante. O coração apertou, a dor em seu peito quase a fez perder o ar. A taça em sua mão tremeu.
— Grávida? — repetiu Fabricio, surpreso, mas logo sorriu emocionado. — Meu Deus, Giulia… isso é maravilhoso!
Giulia riu, abraçando-o.
— Sim, vamos ser pais.
Leticia desviou o olhar, tentando esconder as lágrimas que ameaçavam cair. O som da música parecia distante, abafado. O riso de Giulia e a felicidade de Fabricio ecoavam como punhaladas.
Fabricio, ainda abraçado à noiva, olhou rapidamente para Leticia. O silêncio entre eles dizia tudo. A declaração no elevador agora parecia ainda mais c***l.
Leticia respirou fundo, ergueu a taça e sorriu forçadamente.
— Parabéns aos dois. — disse, com voz firme, embora por dentro estivesse despedaçada.