Capítulo 4 - O Rei de Mônaco acorda

1445 Words
Passava do meio-dia quando Enzo finalmente despertou na sua suíte luxuosa no Hotel de Paris Monte-Carlo, um dos mais icônicos de Mônaco. O quarto era amplo, com varandas que davam vista para o porto repleto de iates e o brilho do Mediterrâneo. Ele tomou um banho demorado, deixando a água quente relaxar os músculos ainda tensos da corrida e da noite anterior. Depois, pediu serviço de quarto: café forte, croissants, frutas frescas e uma taça de champanhe, porque para Enzo cada manhã era uma celebração. Sentado confortavelmente, ainda de robe, saboreava o café quando uma batida na porta chamou a sua atenção. — Buon pomeriggio, il grande re di Monaco, finalmente si è svegliato! — disse Marco, entrando com um sorriso irônico. Enzo ergueu a sobrancelha, divertido. — Bom dia para você também, Marco. Marco, seu mecânico e melhor amigo, quase um irmão, jogou um tabloide sobre a mesa. — Onde está? Enzo franziu o cenho, fingindo não entender. — Está o quê? — A sua nova conquista. — Marco apontou para a manchete estampada na capa: “Enzo Mancini e sua nova conquista”. Enzo gargalhou alto, pegando o jornal e balançando a cabeça. — La mia piccola stella… — disse com um tom carinhoso e debochado, referindo-se a Leticia. Marco suspirou, cruzando os braços. — Ela é uma menina, Enzo. — Não, já tem 21 anos. E pelo que entendi, é filha de Roberto Vitale. Marco arregalou os olhos, preocupado. — Por Deus, Enzo! Não mexa com as filhas daquele homem. Há tantas mulheres esperando por você… por que justamente ela? Enzo deu de ombros, sorrindo com ironia. — Foi só uma dança, nada mais. Marco apontou para a foto publicada no tabloide: Enzo e Leticia se beijando em frente ao hotel. — Nada mais? Olhe essa foto! Enzo pegou o jornal, observou a imagem e riu. — A foto ficou boa. — Disse em tom debochado, como se fosse apenas mais uma vitória para sua coleção. Marco balançou a cabeça, incrédulo. — È una bella ragazza… — murmurou em italiano. Enzo recostou-se na poltrona, cruzando os braços com aquele sorriso sedutor. — Sim, Marco. Uma bela moça… e talvez diferente das outras. Mas não se preocupe. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Marco suspirou novamente, mas conhecia Enzo bem demais para acreditar que ele recuaria. O piloto vivia intensamente, sempre no limite, e agora parecia ter encontrado um novo desafio, um que não estava nas pistas, mas no coração de uma jovem que talvez fosse capaz de mudar o seu destino. Na manhã seguinte, Enzo deixava o hotel acompanhado da equipe. O sol brilhava sobre Monte Carlo, refletindo nos iates e nas fachadas elegantes. Ao passar diante de uma banca de jornal quase ao lado da saída, algo chamou a sua atenção: na página principal de um tabloide local, estampava-se uma foto dele e outra de Leticia. Na imagem, Enzo aparecia sorridente, ainda com o ar de vencedor da corrida. Logo abaixo, Leticia surgia em roupas simples, jeans surrado, camiseta branca, tênis e os cabelos ainda úmidos do banho, tomando café com a família. A cena contrastava com o glamour habitual das mulheres que costumavam acompanhá-lo. A manchete era provocativa: “Será que o grande piloto Enzo Mancini — conhecido por ser um dos mais badalados e sempre cercado por modelos internacionais em suas festas — rendeu-se a uma jovem comum?” Logo abaixo, o tabloide exibia uma sequência de fotos de Enzo ao lado de diferentes mulheres nos últimos meses: modelos em festas luxuosas, celebridades em eventos exclusivos, sempre em ambientes de ostentação. A comparação era clara: o “rei de Mônaco” agora aparecia ao lado de alguém que não fazia parte daquele universo. O contraste chamava atenção. Enquanto as imagens anteriores mostravam vestidos caros, joias e champanhe, a foto de Leticia transmitia simplicidade e inocência. O tabloide insinuava que talvez houvesse algo diferente naquela jovem, algo capaz de atrair Enzo de uma forma inesperada. Enzo parou por um instante, observando a manchete com um sorriso debochado. Para ele, não era novidade estar nas páginas de fofoca. Mas ver Leticia ali, retratada como “a nova conquista”, despertava uma sensação curiosa. Não apenas pela provocação da imprensa, mas porque, de alguma forma, aquela simplicidade contrastava com tudo o que ele conhecia e talvez fosse exatamente isso que o intrigava. O sol da tarde refletia sobre a água azul da piscina da casa, criando um ambiente tranquilo. Giulia e Fabricio estavam sentados próximos à borda, os pés mergulhados, enquanto conversavam em tom baixo. — Eu fiquei preocupada com a exposição da Leti nos jornais — disse Giulia, com cautela e carinho. — Ela não está acostumada com esse tipo de atenção. Para nós pode parecer banal, mas para ela é invasivo, e pode machucar. Fabricio franziu o cenho, visivelmente incomodado. — Não é só isso, Giulia. O problema é o Enzo. Ele é um galinha, não respeita mulher alguma. Vive cercado de modelos, sempre em festas, e agora aparece com a Leticia? Isso não vai dar certo. Giulia suspirou, tentando manter a calma. — Eu sei que ele tem fama… mas não podemos julgar sem conhecer. Talvez para ela seja apenas uma experiência, uma forma de se sentir livre. Fabricio balançou a cabeça, firme. — Não, Giulia. Precisamos aconselhar Leti a ficar longe de caras como ele. Ela merece alguém que a respeite, não um piloto que só pensa em corridas e conquistas passageiras. Giulia olhou para o primo com atenção, percebendo o tom carregado de emoção. — Você fala com tanta certeza… parece até pessoal. Fabricio desviou o olhar, mas não respondeu. O que eles não sabiam é que Leticia estava ali perto, ouvindo tudo sem ser vista. Escondida atrás de uma coluna, ficou indignada com a conversa. O coração apertou principalmente com as palavras de Fabricio. O tom dele não era apenas de preocupação; havia algo mais, uma sombra de ciúmes que ela reconheceu imediatamente. “Ele não tem direito de falar assim”, pensou, sentindo a raiva crescer. “Se realmente se importasse, teria sido honesto comigo há anos. Agora vem me julgar, como se eu fosse incapaz de decidir por mim mesma.” Leticia respirou fundo, tentando conter as lágrimas. A indignação não era apenas contra os tabloides, mas contra aqueles que diziam amá-la e, ainda assim, não confiavam em sua capacidade de escolher o próprio caminho. Naquele instante, ela decidiu: não deixaria que ninguém, nem mesmo Fabricio, definisse o que era certo ou errado para sua vida. A mesa estava posta com carinho, como sempre acontecia nos jantares da família Vitale. O cheiro de massa fresca e vinho preenchia o ambiente, criando uma atmosfera acolhedora. Todos conversavam animadamente até que Roberto, com seu tom firme e ao mesmo tempo afetuoso, trouxe o assunto da semana seguinte. — Então, na próxima semana partimos para Montreal. O Circuito Gilles Villeneuve vai exigir muito da equipe, e quero todos preparados. Giulia sorriu, animada. — Vai ser incrível, papai. Eu adoro viajar com vocês. Fabricio, porém, pigarreou antes de falar. — Talvez dessa vez as meninas fiquem. — Disse com seriedade. — Estamos enfrentando problemas com o carro, e eu não poderei dar a atenção devida a elas. O silêncio pairou por alguns segundos. Leticia ergueu os olhos, sentindo o tom protetor de Fabricio como uma afronta. — Nós somos adultas, Fabricio. Sabemos nos cuidar. Não tem nada de mais em ficarmos sozinhas ou socializarmos. Não precisamos de babás. Giulia olhou para a prima, percebendo a tensão. — Leti tem razão. Nós já não somos crianças. Fabricio insistiu, cruzando os braços. — Eu só quero evitar problemas. Montreal não é Mônaco, e a imprensa já está de olho em Leticia por causa… — hesitou, mas completou — …do Enzo. Leticia respirou fundo, tentando conter a irritação. — Eu sei muito bem o que faço. Não preciso que ninguém decida por mim. Claudia interveio com o seu jeito doce, tentando aliviar o clima. — As meninas são responsáveis. Não vejo motivo para ficarem de fora. Viajar faz parte da vida, e elas merecem aproveitar, e a impressa sempre está inventando algo para vender mais jornais. Roberto assentiu, apoiando a esposa. — Concordo. Ninguém precisa ficar cuidando delas. Montreal será uma experiência para todos. Fabricio ficou em silêncio, mas o olhar trocado entre ele e Leticia carregava tensão. Ela sentia que havia mais do que preocupação nas suas palavras: havia controle, talvez até ciúmes. O jantar seguiu, mas a atmosfera estava marcada por aquele embate silencioso. Entre risos e conversas, Leticia e Fabricio mantinham um duelo de olhares, cada um firme na sua posição.
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