Capítulo 6 - Montreal, chegada da família Vitale- Parte I

1460 Words
O sol de Montreal iluminava o Circuito Gilles Villeneuve, já tomado pela energia da Fórmula 1. Leticia e sua família chegaram cedo, atravessando os corredores movimentados até a área reservada para convidados. Leticia vestia roupas simples, mas elegantes: jeans lavado, tênis brancos, uma regata leve e um blazer verde musgo que realçava seus olhos. O cabelo estava preso em um r**o de cavalo prático, coberto por um boné da equipe de Fabricio. Nos ouvidos, brincos discretos de argola completavam o visual. Ela parecia natural, diferente das mulheres que circulavam pelo paddock, acostumadas a ostentar luxo. Giulia, por outro lado, se destacava com um estilo típico das acompanhantes dos pilotos de F1: vestido justo em tom vermelho, salto alto, maquiagem impecável e óculos escuros grandes. Sua postura era confiante, quase teatral, como se soubesse que cada passo seria observado, por todas aquelas pessoas que ostentavam ali naquele local. — Vamos para a área VIP, Leti. Comer e beber algo. — Sugeriu Giulia, animada. Leticia sorriu, despedindo-se de Fabricio e Roberto com um abraço rápido. — Até mais tarde, boa sorte. O que ela não sabia era que, do outro lado do paddock, em outro box, Enzo Mancini a observava discretamente. Entre ajustes do seu carro e conversas com Romano, seus olhos se fixaram nela quase que permaente. O contraste entre Leticia e as demais mulheres que circulava ali chamava sua atenção: a simplicidade, o jeito natural, o sorriso sem ser forçado, tudo nela era cativante. Enquanto ela caminhava em direção a área VIP, Enzo inclinou-se contra a parede do box, um sorriso debochado surgindo em seus lábios. Não era apenas curiosidade em relação a ela. Havia algo magnético em vê-la ali, tão diferente das mulheres que ele conhecia naquele mundo. A pista de Montreal prometia velocidade, mas também encontros inesperados. E Enzo já sabia em seu íntimo que aquela corrida seria marcada por muito mais do que motores e curvas. A área destinada aos pilotos e suas famílias em Montreal era um espaço luxuoso, decorado com sofás brancos, mesas de vidro e arranjos florais discretos. Garçons circulavam oferecendo taças de espumante caros, sucos e pequenas entradas. Telões exibiam imagens da pista e dos boxes, enquanto o burburinho das conversas preenchia o ambiente. Leticia, fiel ao seu estilo simples, apenas pegou uma garrafa de água e se acomodou discretamente. Giulia, por outro lado, logo foi notada por algumas esposas e namoradas de pilotos, todas ali vestian-se de forma semelhante vestidos mais justos, salto alto e maquiagem impecável, e sua prima parecia se encaixar perfeitamente naquele cenário. — Venham se sentar conosco! — disse uma das mulheres, sorridente, mostrando uma bolsa de grife reluzente. Giulia aceitou prontamente, puxando Leticia junto. O grupo já estava animado em uma conversa que girava em torno de alta costura, joias, sapatos que para Leticia aquilo tudo era apenas futilidades e sem qualquer conteúdo. — Vocês vão ao desfile de moda em Milão, na próxima semana? — perguntou uma delas, exibindo o celular com fotos. — Eu já garanti meu convite. — Ah, e esse anel? — outra interrompeu, levantando a mão para mostrar uma joia enorme. — Foi presente do meu marido depois da última corrida. — Eu comprei essa bolsa da última coleção, edição limitada. — disse uma terceira, orgulhosa. — Só três peças chegaram aqui no Canadá. Giulia ria e participava, comentando sobre marcas e tendências. Já Leticia permanecia em silêncio, desconfortável. Olhava ao redor, mexia na garrafa de água, e sentia-se deslocada. — E você, querida? — perguntou uma das mulheres, olhando para Leticia. — Qual é a sua marca preferida? - Ai meu deus!!! Estou reconhecendo você! — Disse outra olhando para Leticia. Que hesitou, constrangida. — Acho que não. Disse apenas. — Eu… não tenho uma marca preferida. Gosto de coisas simples. O grupo trocou olhares discretos, como se fosse uma resposta estranha. Giulia tentou suavizar, rindo. — Minha prima ela é mais prática, não liga muito para as tendências de moda. Leticia sorriu sem graça, mas por dentro se sentia sufocada. Aquele mundo de ostentação não era o dela. Sentindo um desconforto extremo na área VIP, Leticia avisou Giulia que iria dar uma volta. Caminhou pelo circuito até chegar a um pequeno centro comercial improvisado, onde vendiam bonés, camisetas, balões e lembranças da corrida. O lugar era movimentado por pessoas comuns que amam o mundo das corridas, mas havia também uma pequena livraria quase escondida, pouco visitada. Para Leticia, era perfeito. Entrou e começou a procurar entre os títulos algo que lhe agradasse. Foi então que um livro chamou sua atenção: “O Segredo das Estrelas”, um best-seller sobre coragem e escolhas pessoais. Sem pensar duas vezes, comprou o exemplar e saiu da loja com um sorriso discreto. Animada, pensou que um sorvete seria uma boa ideia. Caminhou até uma pequena sorveteria próxima, encantada com o ambiente simples e alegre. Mas, de repente, sentiu algo gelado escorrer pelas pernas. Ao olhar para baixo, viu uma pequena garota, não mais que quatro anos, segurando um sorvete que agora decorava sua calça jeans. — Oh, meu Deus! — disse Leticia, surpresa, mas logo sorriu para a menina. — Você está bem? A garotinha a olhou com olhos grandes e inocentes. — Desculpa… caiu. — disse, tímida. Leticia se agachou, limpando suavemente o resquício do sorvete da calça. — Não tem problema. Qual é o seu nome? — Sofia. — respondeu com firmeza, como se fosse importante se apresentar. Leticia sorriu. — Prazer, Sofia. Eu sou Leticia. Pelo visto você gosta de sorvete de morango? — É o meu preferido! — disse a menina, animada. — Mas sempre acaba rápido… As duas riram juntas. Leticia ficou encantada com a espontaneidade da pequena. — Você é muito esperta, sabia? Sofia balançou a cabeça, orgulhosa. — Minha mamãe diz que eu sou curiosa. Nesse momento, Isabella apareceu apressada, ralhando com a filha. — Sofia! Você não pode sair correndo assim. — disse, segurando-a pela mão. Leticia sorriu para Isabella. — Ela é adorável. Isabella agradeceu, ainda firme com a filha. — Obrigada. Mas realmente preciso mantê-la perto, mas ela é um furacão. Isabella só então percebeu que o sorvete de morango havia escorrido pela calça jeans de Leticia, deixando uma mancha evidente. — Ai, sinto muito por isso! — disse, constrangida. — Venha, deixe-me comprar outro jeans para você. Leticia sorriu, tentando aliviar a situação. — Não se preocupe, foi um acidente. Eu já estou voltando para o hotel, então não vai precisar. Isabella se abaixou e olhou para a filha. — Sofia, peça desculpas para a moça. A pequena cruzou os braços e respondeu séria: — Mamãe, ela não é “a moça”. Ela é a Leticia. Ambas riram diante da espontaneidade da menina. — Está bem, Leticia então. — Isabella sorriu. — Posso lhe pagar um sorvete para compensar, já que não quer um jeans novo? Sofia vibrou, batendo palmas. — Oba, mamãe, sorvete! — Você não, mocinha. — disse Isabella, fingindo firmeza, mas com um sorriso nos lábios. — Ah, mas eu quero! — retrucou Sofia, fazendo bico. Leticia riu e acariciou os cabelos da menina. — Acho que não tem problema, Isabella. Vamos todas tomar um sorvete de morango que tal? E assim, as duas mulheres se sentaram em uma pequena mesa da sorveteria, acompanhadas de Sofia, que já lambia feliz sua casquinha. O ambiente era leve, cheio de risadas e pequenas conversas banais, em nada parecido com a área vip destina aos pilotos e as suas famílias. — Então, Leticia, você gosta de livros? — perguntou Isabella, notando o exemplar que ela carregava. — Sim, acabei de comprar este. “O Segredo das Estrelas”. Gosto de histórias que falam sobre coragem e determinação. — Interessante. Eu sempre digo que precisamos de coragem para criar filhos. — Isa sorriu, olhando para Sofia. — E paciência também. — Completou Leticia, rindo. Sofia, sem entender muito, levantou o sorvete. — Eu tenho coragem de comer dois sorvetes! As duas mulheres riram juntas, encantadas com a espontaneidade da menina. O momento foi simples, mas mágico: três desconhecidas que, sem saber, que em breve estariam ligadas por laços que logo seriam revelados. Na manhã seguinte, Leticia acordou cedo como sempre fazia. O céu de Montreal ainda estava tingido de tons alaranjados quando ela saiu para correr. O ar frio da cidade lhe trazia energia, e cada passo parecia afastar o peso das tensões do dia anterior. Na volta para o hotel, passou por uma banca de jornal. Foi então que os seus olhos se fixaram em um tabloide exposto na vitrine. Na capa, uma foto chamativa: Enzo Mancini no coquetel da noite anterior, cercado de modelos em vestidos luxuosos, taças de champanhe nas mãos e flashes por todos os lados.
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