Capítulo 6 - Montreal, chegada da família Vitale- Parte II

969 Words
A manchete sensacionalista estampava em letras garrafais: “Rei da Pista não curte santinhas: após breve conquista em Mônaco, Enzo volta ao seu verdadeiro mundo, rodeado de beldades e o mais puro luxo.” Logo abaixo, o texto depreciava Leticia de forma c***l: “A jovem Vitale, simples e discreta, parece já ter ficado para trás. O campeão não se prende a garotas puritanas, sua vida é feita de glamour, festas e mulheres que combinam com o seu estilo. Montreal confirma: o Rei da Pista não se rende a amores comuns.” Leticia sentiu o sangue ferver. Apertou a garrafa de água que carregava e respirou fundo, tentando conter a raiva. — Isso é ridículo… — murmurou para si mesma. As fotos mostravam Enzo sorridente, descontraído, como se fosse o centro de um universo de ostentação. Para Leticia, aquilo era um insulto. Não apenas porque a imprensa insinuava que ela já havia sido descartada, mas porque reforçava a imagem de um homem que parecia viver apenas de festas e conquistas superficiais, e que as mulheres para homens como Enzo era apenas objetos de luxo. Furiosa, seguiu até o hotel com passos rápidos. O tabloide ainda ecoava em sua mente. “Rei da Pista”… pensou, com ironia. Para ela, aquele título parecia cada vez mais contraditório. No fundo, sentia-se dividida: parte de si queria ignorar completamente, mas outra parte não conseguia evitar a indignação. Afinal, por que todos insistiam em colocá-la no meio desse espetáculo barato? Somente porque curtiu uma noite com um cara e deu um amassos na madrugada. O barulho metálico das ferramentas ecoava pelo box da equipe de Fabricio quando Leticia entrou, ainda com o visual despojado da manhã: jeans, tênis simples e o cabelo preso em r**o de cavalo e o velho boné da equipe. Estava furiosa com a matéria que havia lido no tabloide e não conseguiu evitar. — Oie… piccola stella — ouviu uma voz grave em italiano. Reconheceu imediatamente. Enzo estava ali, encostado na parede do box próxima a entrega da equipe do Fabricio, com o sorriso debochado que a irritava. Leticia ergueu o tabloide que trazia em mãos e falou com ironia: — Olha só, o “Rei da Pista” cercado de modelos. Parece que a conquista de Mônaco já foi descartada. Afinal, você não curte muito garotas puritanas, não é? Enzo arqueou a sobrancelha, mantendo o tom provocador. — Você acredita mesmo nessas manchetes baratas? — Não preciso acreditar, “Rei das Pistas”. As fotos estão aí. — Retrucou, firme. — E, claro, eu fui a piada da vez, em Mônaco. Ele deu uma risada curta. — Você se importa demais com o que escrevem. Eu não disse nada disso em momento algum. — Mas não n**a, não é? — disparou Leticia, sentindo a raiva crescer. — Para você, eu sou só mais uma distração. Enzo se aproximou, a voz mais baixa, mas carregada de tensão. — Você não faz ideia do que significa estar nesse mundo, Pequena Estrela. — E você não faz ideia do que significa respeitar alguém. — respondeu ela, firme, encarando-o. O clima ficou pesado, os dois trocando olhares intensos, quase como se aquela penquena discussão fosse explodir em algo maior. Mas, de repente, uma pequena figura interrompeu. Sofia correu pelo box e abraçou as pernas de Leticia com força. — Leti! — disse, sorridente. A menina então olhou séria para o tio. — Tio Enzo, não brigue com a minha amiga. O piloto ficou sem palavras diante da recriminação da sobrinha. Leticia, por sua vez, sorriu suavemente ao acariciar os cabelos da pequena. A tensão se desfez por um instante, mas o silêncio entre os dois adultos dizia muito: aquela discussão estava longe de terminar. O box estava cheio de movimento, mecânicos ajustando peças e engenheiros discutindo estratégias, mas nada disso impedia que a tensão entre Enzo e Leticia fosse palpável. Ele a havia chamado de piccola stella com aquele tom debochado, e ela não deixou passar. — Viu, tio Enzo? — disse Leticia, com ironia, olhando para ele de cima a baixo. — É feio brigar… e você deveria dar exemplo, sabia? É muito feio ter uma vida tão leviana. As palavras saíram afiadas, carregadas de sarcasmo. Enzo, acostumado a ser idolatrado, ficou visivelmente irritado com a ousadia daquela garota. O sorriso debochado desapareceu, e por um instante seus olhos se estreitaram. Mas antes de responder, ele se agachou para ficar à altura de Sofia, que ainda segurava Leticia pelas pernas. O piloto a beijou na testa com um carinho verdadeiro, como se quisesse mostrar que, apesar da provocação, havia nele um lado humano que poucos conheciam. Leticia observava, ainda com o semblante firme, mas não pôde deixar de notar a ternura do gesto. — Você pode enganar o mundo com esse charme, Enzo, mas comigo não funciona. — disparou, cruzando os braços. Ele abriu a boca para retrucar, mas foi interrompido pela chegada de Isabella. A mãe de Sofia surgiu rindo, como se tivesse presenciado apenas a parte leve da cena. — Leticia! — disse, animada, cumprimentando-a como se fossem velhas amigas. — Que bom te ver aqui. Leticia sorriu, surpresa com a simpatia. — Isa, igualmente. Isabella olhou para a filha e depois para o irmão, ainda com um ar divertido. — Pelo visto, Sofia já tem uma nova amiga. E você, Enzo, não deveria estar discutindo com a amiguinha dela, não é? Sofia, séria, reforçou: — Mamãe, eu já disse. O tio não pode brigar com a minha amiga. O silêncio que se seguiu foi carregado de significados. Enzo, contrariado, percebeu que estava cercado: pela ironia de Leticia, pela inocência firme de Sofia e pela leveza de Isabella. E, naquele instante, o “Rei da Pista” não parecia tão invencível assim, diante daquelas três mulheres.
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