Capítulo 1 - Visita Inesperada
O som das ondas batendo contra as pedras da Praia dos Naufragados se misturava ao cheiro de café fresco vindo da cozinha. Zaira, a caseira que cuidava da pousada com dedicação quase maternal, apareceu na porta do quarto.
— Dona Leticia, tem uma senhora muito chic esperando na sala, de fala meio enrolado, parece mistura de português com italiano. Chegou aqui pedido pela senhora.
— Estou descendo, Zaira. Só vou me vestir — respondeu Leticia, ainda com os cabelos úmidos do banho, e pensando quem poderia estar ali a sua procura, só poderia ser alguem do seu passado.
Dez minutos se passaram. Ao abrir a porta da sala, Leticia congelou. No centro, ereta e elegante, estava Maria Mancini, sua ex-sogra, de todos ela era a última pessoa que Leticia imagina ver ali. O choque foi imediato, como se o passado tivesse atravessado o presente sem aviso.
— Leticia, filha, come stai? — disse Maria, num português misturado com italiano, abrindo os braços.
Leticia hesitou por um instante, mas logo se deixou envolver pelo abraço caloroso. Apesar da separação dolorosa, sempre fora bem tratada pela família Mancini.
— Estou… surpresa, dona Maria. Não esperava vê-la aqui — respondeu, tentando manter a voz firme.
Maria sorriu, com aquele jeito que misturava autoridade e ternura.
— Eu precisava te ver. A vida nos leva por caminhos estranhos, mas o coração sempre pede reencontros, filha.
Zaira, discreta, recolhia as xícaras da mesa, mas não resistiu a comentar:
— Dona Leti, vou trazer mais um café.
Leticia assentiu para a Zaira e respirou fundo. O passado que tentara deixar para trás a muito tempo estava agora estava diante dela, em carne e osso.
— Sente-se, por favor Maria. Quer um café? — ofereceu, buscando recuperar a naturalidade.
Maria aceitou, acomodando-se no sofá.
— Obrigada, cara mia. Mas vou direto ao assunto que m trouxe aqui, preciso muito a conversar, contigo filha.
O silêncio que se seguiu foi carregado de lembranças. Leticia sabia que aquele encontro mudaria o rumo de sua vida mais uma vez.
Maria segurou as mãos de Leticia com firmeza, os olhos marejados. A ex-sogra não perdeu tempo em rodeios.
— Figlia mia, eu vim até aqui porque preciso da sua ajuda. — A voz tremia, mas havia uma urgência clara.
Leticia franziu o cenho, sentindo o coração acelerar.
— Ajuda? Com o que? O que aconteceu, dona Maria?
Maria respirou fundo, e as lágrimas finalmente escaparam.
— Enzo… meu filho… depois daquele terrível acidente, poucos meses após a separação de vocês, deve ter vistos nos jornais Leticia. Ele perdeu a memória. Não lembra de nada, Leticia. Nada, exceto correr.
A revelação caiu como um peso sobre o peito de Leticia. Ela se sentou devagar, tentando processar, ela viu e acompanhou tudo pela televisão e internet, mas em nenhum momento falavam da perde de memória.
— Ele… perdeu a memória? — repetiu, quase em um sussurro.
Maria assentiu, chorando.
— Sim. Ele não reconhece ninguém. Nem a mim, nem a irmã, nem os amigos. Só fala de corridas, só vive para isso. — A voz se quebrou, e ela se deixou cair no colo da ex-nora, soluçando.
Leticia envolveu Maria num abraço instintivo. Apesar de tudo, sempre tivera carinho por aquela família. Mas a dor era dupla: lembrava-se do amor que sentira por Enzo, um amor que nunca foi correspondido. Depois dele, nunca mais permitirá que ninguém ocupasse esse espaço.
— Dona Maria… — murmurou, com tristeza nos olhos. — Eu o amei muito, aprendi o que era o amor com ele, mesmo sem ser amada de volta. Mas não sei o que posso fazer agora.
Maria ergueu o rosto, segurando as mãos de Leticia com força.
— Quero que venha comigo até a Itália, filha. Ver meu filho. Talvez, quem sabe, ao ver você, ele se lembre de algo. Li estudos sobre pessoas que perderam a memória… muitas recuperam lembranças ao reencontrar alguém importante do passado.
Leticia ficou em silêncio por alguns segundos, sentindo o peso da proposta. O mar rugia ao fundo, como se ecoasse a turbulência dentro dela.
— O que a senhora quer de mim, exatamente? — perguntou, com a voz embargada.
— Quero que seja a ponte, Leticia. Talvez você seja a chave para trazer meu filho Enzo de volta. — Maria apertou as suas mãos, quase suplicando. — Eu sei que vocês se separaram, sei da dor que houve entre vocês, e sei que meu filho foi um i****a deixando você partir da vida dele. Mas você foi uma parte muito importante da vida dele, uma parte que pode despertar algo adormecido.
Leticia desviou o olhar, lutando contra as próprias emoções.
— Eu não sei se consigo… rever Enzo… depois de tudo. — A lembrança da traição, da distância, da ausência de amor, queimava como uma ferida antiga.
Maria enxugou as lágrimas, mas manteve a firmeza.
— Per favore, filha. Não é por mim, é por ele. Se existe uma chance, mesmo pequena, precisamos tentar.
Leticia respirou fundo, sentindo o coração dividido entre toda a dor do passado e a possibilidade de ajudar ao homem que ainda amava com todas as forças do seu coração. O silêncio que se seguiu foi carregado de tensão, mas também de carinho.
Ela sabia que, a partir daquele momento, a sua vida estava prestes a mudar novamente, Enzo era um furacão, e ela não tinha certeza se queria ter de novo aquela tempestade em sua vida.
Leticia sentiu o coração se apertar. A vida ao lado de Enzo havia sido um verdadeiro furacão de emoções: corridas, viagens, brigas, reconciliações, sempre intensas. Mas agora, ali na Praia dos Naufragados, ela tinha calma e paz. Escrevia os seus livros, cuidava da pequena pousada, vivia cercada pela simplicidade que lhe dava sentido. Voltar para aquele mundo de velocidade e dor parecia complicado demais.
Ela já sabia tudo sobre o acidente. Leu todas as matérias sobre o Grande Raio — O Grande Fulmine, como a imprensa italiana o chamava — havia ficado quase um ano em coma após um acidente em grande Nuburgring na Alemanha, o “Inferno Verde” como era chamado pela impressa. Acompanhara de longe, em silêncio, cada notícia, cada especulação sobre a sua recuperação. E recentemente vira reportagens dizendo que os dias estavam contados para o retorno dele às corridas.
Mas o olhar daquela mãe diante dela, cheio de súplica e esperança, era impossível de ignorar. Maria Mancini parecia carregar o peso do mundo nos ombros.
Leticia se aproximou, fez um carinho no rosto da ex-sogra e disse com voz baixa:
— Preciso pensar, Maria — foi tudo que consegui dizer.
Maria assentiu, enxugando discretamente as lágrimas.
— Eu entendo, filha. Não quero te pressionar. Sei que é pedir muito. — Respirou fundo, tentando recuperar a postura. — Estou hospedada no Costão do Santinho Resort, em Florianópolis. Vou esperar por você lá. Leve o tempo que precisar.
Leticia apenas balançou a cabeça, em silêncio. O coração estava dividido: entre a paz que conquistara e o chamado do passado que nunca deixará de pulsar em seu coração.
Maria levantou-se, ajeitou o casaco e antes de sair, segurou novamente as mãos de Leticia.
— Qualquer decisão que tomar, eu vou respeitar. Mas lembre-se: às vezes, o destino nos chama de volta, mesmo quando achamos que já nos despedimos dele.
Quando a porta se fechou, Leticia permaneceu imóvel, olhando para o mar pela janela. O rugido das ondas parecia ecoar sua própria alma: calma na superfície, mas turbulenta por dentro.