Já tinha passado alguns meses que eu estava aqui. Meu aniversário de dezessete foi aqui, comigo sentada na janela olhando para o céu, pensando nos meus irmãos. Eu queria muito saber como eles estavam. Queria saber se eles estavam sendo bem tratados pela minha tia Elena. Suspiro, pois eu não posso sair daqui. Vivo enclausurada neste convento.
- Você sempre está triste. Briana fala e eu continuo olhando para o céu. Ela é minha colega de quarto. Desde o segundo mês que estamos dividindo o mesmo dormitório. Ana, você pretende fazer o que quando fizer dezoito anos? Suspiro forte.
- Não sei. Respondi ainda olhando para fora da janela. Na verdade tudo que queria era poder ter meus irmãos de volta. Mas eu sei que para isso, eu preciso arrumar um bom trabalho para sustentá-los.
- Você sabe que eu pretendo ir embora. Daqui uns meses não estarei aqui, e se tudo dê certo eu quero que você vá morar comigo. Assim podemos alugar um lugar e trabalhar para dar um futuro melhor para nós. Sorrio fraco.
- Obrigada pela oferta, mas eu preciso ter meus irmãos de volta. Eu não posso deixar eles com minha tia, mesmo eu não sabendo que se ela está tratando eles bem, eu preciso pegar eles de volta.
- Entendo, mas eu posso te ajudar se você quiser. Olho para ela e sorrio.
- Muito obrigada, vou lembrar disso quando for buscá-los. E se precisar de você, não exitarei em te procurar. Falo e ela vem me abraçar.
- Eu gosto muito de você Ana. Você é à irmã que eu não tive. Correspondi o abraço.
- Também gosto muito de você. E qualquer coisa que você precisar, eu estarei aqui.
- Eu sei. Nos abraçamos mais.
Mais meses se passaram e eu pude enfim sair para ver meus irmãos, isso porque à madre superiora me disse que essa saída seria decisiva para minha vida, não entende porque, mas eu queria era somente ver meus irmãos e saber que eles estavam bem. Porém eu não os encontrei. À casa dos meus pais estava fechada. À casa da tia Elena também. Fui procurar o advogado que cuidou de todos os trâmites do testamento de Ray. E para minha tristeza e total desespero Tia Elena foi embora do país com meus irmãos à meses. Eu não tinha chão, não tinha mais nada que pudesse fazer. Ela não podia ter feito isso comigo. Ela podia ter deixado eles aqui para eu vê-los. Vou viver amargamente cada dia. Eles foram tirados de mim da pior forma. Saio do escritório do advogado e volto chorando para o convento. Eu nunca mais vou vê-los.
- Ana? O que você tem? Brianna pede se aproximando de mim. Me deito na minha cama chorando. Ela me abraça meio sem jeito. Calma. Tudo vai ficar bem. Eu não paro de pensar que nada na minha vida será certo, nada vai dar certo. Eu nunca mais vou ver meus irmãos. Eles não saberão quem eu sou e que os amo mais que tudo. Tia Elena não tem coração mesmo. Eu podia viver nesse convento pelo resto da vida, mas ela podia me afastar mais dos meus irmãos. Ela não tinha esse direito. E agora? O que vou fazer da minha vida? Como posso achá-los se nem o advogado sabe onde ela se meteu?
Passei à noite toda chorando. Mesmo Brianna querendo me animar. Querendo que eu me abrisse com ela, eu só queria chorar e nada mais. À madre, junto com as outras freiras vieram saber o que houve, e mais uma vez não me abrir com ninguém. Eu estava sofrendo muito. Não era possível que minha tia não tinha coração. Ela não somente desfez de mim como também acabou comigo de vez. Meus irmãos eram tudo que eu tinha na vida. Eu não queria mais nada. Não importava o quanto eu teria que passar aqui, mas eu ainda tinha esperança de tê-los de novo e vivermos como família que éramos.
Passei dias remoendo isso. Não estava com ânimo para nada. Eu não sei o que seria da minha vida à partir de agora. Eu não tinha por quem lutar mais. Nem por mim eu tinha que lutar. Era simplesmente deixar as coisas caminharem como deve ser encaminhada.
- A madre superiora quer falar com você. Assinto saindo da janela do quarto. Vou andando com à outra freira. Você está bem? Somente assinto novamente balançando à cabeça em afirmação. Eu acredito que nunca mais vou ficar bem. Chegamos no escritório da madre superiora.
- Entre Ana. Entro e ela faz gesto com à mão para me sentar. Me sento. Eu não sei o que houve com você lá fora, mas espero de coração que você fique bem. Nós estamos aqui para você.
- Obrigada Madre Superiora. Agradeço de cabeça baixa.
- Olha para mim Ana. Levanto meu olhar e à encaro. Eu sei que você não está bem, e isso vai demorar à passar. Você diferente das meninas veio para nós já triste e vazia. Não que às outras não vieram assim, porém com o tempo elas se fortaleceram, e você não. Você continua triste. Você não sorrir, não fala da sua vida, não se abre nem com sua colega de quarto. E não deveria ser assim. Você não pode se fechar desse jeito. Só se abrindo com alguém que você vai se libertar. Começo à chorar. Não fique assim. À dor de perder os pais nunca vai passar, e eu sinto muito por isso.
- Eu não perde somente meus pais, eu perdi meus irmãos, perdi minha família e minha vida. Eu não sei o que será de mim de agora adiante. Eu não sei o que será da minha vida.
- Eu lamento que você tenha esse sentimento, porém estamos aqui para te ajudar. Ana, você fará dezoito anos daqui alguns meses, e você sabe que eu não posso manter você aqui depois disso.
- Eu quero ser freira. Falo de súbito. Ela me olha sem entender.
- Não entende Ana. Ela ainda me olha.
- Eu quero ser Freira. Quero me dedicar à causas de Deus, quero me dedicar à religiosidade. Quero entregar à minha vida à Deus.
- Eu não acredito que seja isso que você queira. Você está magoada, ressentida pela perda da sua vida. Eu não te aconselho à tomar uma decisão dessa.
- Eu não tenho mais nada que eu possa fazer. Eu não tenho por quem lutar, então que eu lute pelas causas de Deus. Que eu lute por crianças feridas por perder o que eu perdi. Eu não quero continuar nesse vazio que eu tenho aqui dentro. Aponto para meu peito. Eu só quero resgatar um pouco de mim, e que isso seja feito pela causa de Deus. Ela fica me olhando e eu limpo minhas lágrimas.
- Ana, isso é sem volta. Uma vez feito os votos, não poderá voltar atrás. Não venho pela dor e sim pelo amor. Sorrio fraco.
- Não tenho outro modo de vir até Deus se não pela dor, e eu sei que isso pode mudar com o tempo. Hoje eu estou triste, mas isso vai mudar.
- Eu não tenho tanta certeza disso.
- Olha, eu ainda estou em tempo de desistir disso. Eu estava lendo que às freiras tem que fazer um curso de cinco às seis anos, e isso à partir dos dezoito. Então eu ainda tenho alguns meses para pensar.
- Espero que você pense, porque você precisa mais que à dor para fazer os votos e ser uma freira. Assinto saindo do escritório. Eu sei que falei sem pensar, mas eu vou me dedicar à isso. Não importa mais nada, o que me importa é eu poder aprofundar minha vida em algo que vai me fazer esquecer e apagar essa dor que estou sentindo.
Voltei para meu quarto e novamente me pus à pensar. Me pus à chorar olhando para o céu. Eu não entendia porque às coisas estavam acontecendo tão rápido para mim. O porque eu estava passando por tudo isso que estava passando. Tinha tudo certo, tudo organizado. Eu tinha uma mãe que me amava mais que tudo, depois veio Ray e os meus irmãos. Eram minha família, eram tudo para mim e agora tudo que eu tenho é nada, é um vazio que estou procurando tampar. Eu preciso me encontrar e que seja na religião.
Um ano depois
Eu já tinha dezoito anos. Conclui meus estudos e ainda prestei vestibular para psicologia infantil. Passei e estava esperando para começar às aulas. Porém neste tempo que passou eu não tirei à ideia de ser freira, eu quero isso e nada vai mudar. Andei conversando com à madre superiora, e ela ainda não confiava totalmente na minha certeza para fazer tal voto. Mas eu quero, e vou. Já dei meu nome para fazer parte da nova turma. Eu sei que terei muito o que aprender e me abdicar, porém eu estou disposta. Eu só preciso conseguir um jeito de pagar à faculdade de psicologia e nada mais importa.
- Podemos conversar? Indaguei entrando no escritório que estava com à porta aberta.
- Claro Ana. Eu também tenho que falar com você. À madre superiora pede e eu assinto entrando. Eu já até imagino o que ela quer me dizer. Eu já fiz dezoito anos e tenho que ir embora. Comece você primeiro.
- Eu quero fazer os votos para ser freira. Quero estudar e me abdicar de tudo.
- Ana não é fácil o que você está querendo. Você precisa viver uma vida lá fora. Normalmente, as moças ou senhoras que escolhem ser freiras dizem ter escolhido tal rumo para as suas vidas devido a uma vocação para servir a Deus. Então, basicamente, são pessoas que já estão habituadas às práticas da Igreja Católica e que já vivem uma vida religiosa. E você não é assim. Você tem uma vida para seguir, um caminho lindo lá fora, e talvez essa não seja à melhor escolha para sua vida.
- Como à Sra sabe? Indago me levantando. Eu não vou desistir. Meses atrás eu disse que pensaria muito antes de tomar essa decisão, e agora eu já tomei. Quero poder estudar e fazer os votos.
- Você terá que se abdicar da sua vida, de tudo. Ao assumir o compromisso de ser uma freira, a mulher tem de fazer o voto de castidade, voto de pobreza e de obediência, além de ela não poder ter dependentes.
- Eu sei disso tudo. Enquanto pensava, eu lia sobre o assunto. E posso dizer que estou mais que preparada para isso.
- Ana...
- Madre, me perdoa, mas à Sra não vai me convencer. Eu estou certa da minha vida, certa do que eu quero.
- Tudo bem. Estou vendo que você está determinada. Eu só espero que você não se arrependa. Deixa eu te explicar como funciona e os primeiros passos para ser uma Freira. Você deve participar de eventos comunitários, retiros espirituais e diversas atividades em grupo antes de se tornar oficialmente uma freira para a Igreja Católica. O processo seletivo pode ter duração de até 3 anos e é preciso ter muita certeza do que você quer. No primeiro ano de testes, antes de receber o título de Freira, recebe-se o título de Noviça. Durante esse período já são válidos os votos de castidade, obediência e pobreza. Algumas mulheres são aprovadas em 1 ano e outras são encaminhadas para um segundo ano de testes, para confirmar se é isso mesmo que querem. Ao fim do segundo ano, pode-se retornar à vida comum ou manter os votos da instituição Católica, depende do que você e a sua orientadora decidirem, juntas. O terceiro ano de testes ocorre com pouquíssima frequência, em casos raros. Para dedicar à vida à comunidade de irmãs, é preciso, sobretudo, ter certeza de que deseja abdicar de muitas coisas da vida comum em nome da religião. E logo depois é feito os votos de Castidade, Obediência e de Pobreza. o Voto de castidade é o compromisso assumido através do celibato, compromisso de nunca se casar pelo religioso que vai seguir vida monástica. Eu já sabia de tudo isso, então estava tranquila. É isso mesmo que você quer?
- Sim. Eu quero isso mesmo. Ela me olha ainda desconfiada. Madre Superiora, não se preocupe que eu vou ficar bem. Nada vai me afetar. Eu tenho tudo para ser uma ótima Freira. Tenho todos os requisitos. Viverei para à fé.
- Espero mesmo que você não se desiluda. Eu estava pronta para te mandar embora daqui, para você seguir seu caminho sob à minha supervisão. Te daria um lugar para morar e conseguiria um trabalho para você, mas agora tudo é diferente. Porém você terá que conciliar o curso com sua faculdade.
- Não se preocupe que não pretendo abrir mão da minha faculdade. Eu só preciso ver um jeito de pagar por ela.
- Isso não é problema. Vou mandar agora para reitoria um pedido de bolsa para você. Sorrio atoa,. mas seu curso terá que ser usado para benefício da comunidade nada mais que isso. Você não poderá ganhar nenhum valor por consulta, e também não poderá cobrar em nenhum momento pelo seu trabalho. Assinto.
- Não se preocupe que tudo que farei será em prol da comunidade.
- Tudo bem. Vamos então te inscrever no curso de freira e Deus ajude que tudo dê certo. Minha vida mudará da água para o vinho. E isso que eu quero, esquecer minha vida de antes e me aprofundar na minha vida de agora.